ARTISTA DE SJC

Destaque no New York Times, Pàulla Scàvazzini fala sobre sua arte

Por Xandu Alves | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 34 min
OVALE
Artista visual Pàulla Scàvazzini na redação de OVALE
Artista visual Pàulla Scàvazzini na redação de OVALE

Da menina que começou a pintar ainda na infância, em São José dos Campos, à artista visual reconhecida pelo New York Times. A trajetória de Pàulla Scàvazzini ganhou projeção internacional sem que ela deixasse de lado a relação com a cidade onde nasceu.

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Em entrevista ao OVALE Cast Vale Viver, a artista relembra o início na pintura, a passagem pela arquitetura, a decisão de transformar a arte em profissão e o momento em que viu seu trabalho nas páginas de um dos jornais mais importantes do mundo.

Pàulla também conta como as flores se tornaram um elemento central de sua pesquisa e explica por que deixou as telas para pintar no chão e ocupar paredes e grandes espaços.

Ao longo da conversa, Pàulla fala sobre reconhecimento, críticas, redes sociais, educação, arte contemporânea e os planos para os próximos anos. Também revela o desejo de expor em São José com uma produção autoral, depois de ter começado a pintar na cidade ainda criança.

Confira a entrevista de Pàulla Scàvazzini na íntegra.

 

Quando você viu o seu trabalho estampado nas páginas do jornal New York Times, qual foi seu sentimento? Você lembrou aquela menina que começou a pintar no Tênis Clube em São José?

Foi, eu fiquei muito surpresa, muito entusiasmada, muito feliz com esse reconhecimento, ainda mais de um jornal desse porte. Eu imaginava que isso pudesse acontecer, porque o jornalista do New York Times foi até a exposição e falou comigo enquanto eu estava construindo a exposição, mas ele podia optar por escrever ou não e podia optar por escrever bem ou escrever mal, porque lá ainda existe uma crítica um pouco mais, às vezes, positiva, às vezes, negativa.

E ele não só optou por escrever como escreveu positivamente. Então, eu fiquei mais surpresa com isso do que qualquer coisa. Fiquei muito feliz. Eu lembro do momento exato: foi no final da abertura da exposição. A galerista me deu o celular dela com a notícia. Pela cara dela, parecia positivo, mas eu não sabia exatamente o que estava ali. Vi o New York Times e falei: "Meu Deus, saiu".

E sem mídia espontânea, sem assessoria de imprensa. Aí, depois que eu consegui realmente ler, vi que foi uma supercrítica positiva. Logo liguei para minha mãe e depois postei. Falei: "Mãe, estou no New York Times". Eu acho que essa frase responde à sua segunda pergunta.

Quando eu falo "Mãe, estou no New York Times", eu quero dizer: "Mãe, cidade onde eu nasci, cheguei até o reconhecimento de um jornal desse porte".

 

E a repercussão foi muito grande depois que você saiu no Times?

Bom, depois dessa matéria saíram outras matérias mais nacionais, mas algumas ainda internacionais. Fui convidada para algumas exposições lá também, em Nova York, e teve uma coisa muito legal. Uma vez eu estava numa galeria e alguém me apresentou para uma colecionadora. A colecionadora norte-americana falou: "Ah, eu conheço, a Pàulla do New York Times". Acho que foi a vez que mais me impressionou.

 

Daquela época em que você começou, foi por uma indicação de uma terapeuta? Queria que você falasse dessa virada de chave, daquele momento em que você percebeu: "É isso". Pode contar?

Eu acho que eu tinha 11, 12 anos quando a psicóloga... Eu tinha uns ciúmes muito fortes da minha mãe. Minha mãe resolveu me levar para terapia para ver se eu me acertava e, na terceira sessão, a terapeuta falou: "Leva essa menina para uma aula de pintura".

E, sem brincadeira, sem exagero, em coisa de um mês parece que eu liguei uma chave e desliguei outra. Meus pensamentos se acertaram, meus sentimentos se organizaram e eu resolvi.

Naquele momento, eu entendi a pintura como um lugar para eu me pensar, para eu me organizar, para eu internalizar certas coisas e externalizar outras. Eu não sabia que isso ia virar a minha profissão. Eu tinha 12 anos, então poderia ser um dos meus sonhos, mas eu não sabia que isso ia realmente ser o que eu faço até hoje.

 

Você acredita que teve um autoconhecimento através da arte? Você foi se conhecendo, se identificando?

Acho que sim. Parece que eu sei pegar com as mãos esses sentimentos, mas é uma coisa mais de tato. Eu acho que a pintura, para mim, antes até de qualquer coisa, é um meio que eu falo comigo mesma. Sem ser pelas palavras. Eu vou falando, vou dando as pinceladas e aquilo vai comunicando algo para mim mesma. É uma autoconversa.

 

E aquilo se transmite através das flores? O que a gente pode extrair dessas flores? Dá para identificar um pouco da sua identidade? Eu sinto até um pouco de uma brasilidade ali. Você podia falar sobre isso?

As flores foram como um gatilho, na verdade, na minha produção. Eu fui uma pintora muito figurativa, que passou por retratos, e essas flores entraram nesse meio do caminho. Foi o meu desabrochar figurativo para a desfiguração, para a abstração. Elas serviram como esse gatilho.

Então, a minha primeira exposição comercial, num espaço comercial, numa galeria, eu reproduzi uma casa de uma família para esses meus retratos, que até então eu fazia dentro de uma galeria que antes foi uma residência. Então, eu peguei esse espaço doméstico, essas características do espaço doméstico e recriei essa casa. E era no meio da pandemia.

Então, de dentro da minha casa, recriei uma casa, só que era uma casa de exposição e era uma casa-pintura. Todos os objetos da casa e a família eram pintados. O tapete era pintado, era uma tela pintada sobre o chão, o chão era pintado, a mesa de jantar era pintada, o sofá pintado, a família eram esses retratos que eu vinha pintando. E tinha um vaso de entrada na casa dessa família, uma pintura de vaso de flor.

E logo que acabou a exposição, acabou a pandemia. Então, todo mundo começou a frequentar, voltar a frequentar os espaços externos, os jardins, os parques. Eu também comecei uma repetição desses vasos de flor.

E comecei a entender que o meu interesse estava muito menos na figuração do objeto vaso e muito mais na potência de gesto que as anatomias, o pistilo, a folha, a pétala, o caule das flores davam para a pintura, para minha pintura, além da paleta infinita de cores.

E comecei a esgarçar. Por isso que eu chamo de explosão floral. Comecei a explodir essas flores, esgarçar essas anatomias, essas partes florais em pinturas cada vez maiores.

Comecei com telas pequenas, crescendo esse tamanho. Cada vez que eu crescia a tela, também crescia essa expansão, esse esgarçamento desse gesto, até chegar a pinturas de mais de 10 metros.

Então, foi a flor que me ajudou nesse desdobramento da minha pintura. Quando eu fazia pintura figurativa, eu já tinha alguns momentos, mesmo nesses vasos, que eram como se fossem pequenas pinturas abstratas dentro da própria figuração. E aquilo me dava muito prazer.

Aí eu começava a pensar: "Gente, mas eu quero sentir prazer na pintura inteira, não só nesses pequenos pedaços". Então, isso, a flor me deu esse gatilho para desabrochar a continuação da minha pesquisa.

 

Você contou que, por causa de uma indicação da terapeuta, acabou indo fazer aula de pintura. Você já pintava, desenhava, já tinha ligação com a arte antes disso?

Já. Eu era aquela criança bem clichê que, desde os 7 anos de idade, sempre estava pintando, desenhando. Eu tinha alguma aula de arte no colégio e amava. A minha avó pintava como hobby e, às vezes, a gente ia pintar juntas. Eu gostava muito, sempre gostei.

Mas ali na aula era uma coisa toda semana, de tal hora até tal hora. Tinha todo um método, tinha as minhas outras colegas que tinham ali seus 70 anos, parceiros de 70, do chazinho, do negócio do café. Era um cafezinho com açúcar.

E eu acho que você não precisa fazer nada disso para ser artista. Você pode nascer artista e acabar não exercendo a profissão, mas eu acho que muita gente tem algo de artista. Na verdade, eu acho que todo mundo pode ser artista. Acho que todo mundo tem algo de artista ali dentro, mas tem uns que optam por desenvolver isso, que entendem que gostariam de desenvolver isso; outros nem passam pela cabeça.

No meu caso, eu acho que começou de uma forma, por um gosto. Eu já tinha intimidade com isso, eu gostava disso, fui criando intimidade, depois reforçado por esse momento terapêutico, que foi muito importante para mim. Aí eu fui entendendo que não só gostava, como possivelmente queria estudar isso e ver o que isso ia dar.

Porque, de novo, você não precisa fazer uma faculdade para ser artista. Te ajuda, te abre portas, te coloca em contato com conhecimentos importantes para a carreira, mas não é imprescindível.

 

A primeira faculdade sua não foi de artes, você foi fazer arquitetura. Você abriu mão da faculdade para apostar numa carreira. Como é que foi essa chave virada de ser artista profissional?

Nesse momento de escolher a faculdade, eu queria já fazer artes visuais, mas pensei: "Bom, eu vou fazer arquitetura, porque é uma formação que eu acho que pode ser mais fácil depois de eu arrumar um emprego, porque a gente sabe a dificuldade que é a carreira do artista aqui no Brasil".

Fui lá, fui fazer, passei super bem no vestibular, na primeira lista. Falei: "Bom, é isso, estou no lugar certo, com a faculdade de arquitetura. Depois eu posso inclusive fazer outra faculdade ou ir pintando, enfim".

Aguentei dois anos da faculdade. Queria morrer. Amava meus amigos, amava as festas, mas odiava saber o que tinha atrás da parede, o que sustentava a parede, os cálculos, a topografia.

As minhas esculturas tiravam 10 até o professor passar um carrinho de maquete e ver que o carrinho não passava, porque a escala não batia, porque eu não queria saber da escala. Eu queria saber da estética.

Aí foi a hora que eu... Eu conto hoje rindo, mas foi bem trágico. Para mim foi um sufoco. Eu chorava, apresentava trabalho, até passava, mas odiava aquilo. Odiava estar ali, odiava estar apresentando e trabalhando numa coisa que eu não queria.

Aí tive a oportunidade de prestar outro vestibular, passei numa das melhores faculdades de artes com uma bolsa e fiz essa faculdade. Eu, que não gosto de acordar cedo, acordava 6 horas da manhã feliz da vida para ir para a faculdade.

Bom, aí eu fiz a faculdade por quatro anos, fiz bacharelado, depois completei com licenciatura para poder dar aula de artes em colégio público e particular. Dei aula por um ano para crianças de 6 a 18 anos. Colégios públicos e particulares. Foi uma superexperiência, mas, para mim, ainda é uma carta na manga. Não é o meu sonho de vida. Mas eu estava ali fazendo aquilo.

Prestei um concurso público da Prefeitura de São Paulo, passei, passei bem também. Podia escolher a escola que eu quisesse, mas, no mesmo momento, passei para uma residência artística em Paris. Seis meses morando em Paris, na frente do Sena. Tudo pago para eu desenvolver uma pesquisa em arte.

No caso, era para eu pesquisar as pinturas rupestres das cavernas francesas. É óbvio que eu optei por ir para Paris. E foi uma das melhores épocas da minha vida até hoje, assim, pessoal, profissional, tudo.

 

Você pinta no chão. Conta como surgiu isso e como é esse processo de criação pintando no chão?

Eu pinto horizontalmente, basicamente. Então, quando as pinturas passam de uns 30 centímetros, eu já as ponho no chão.

Isso de pôr no chão, eu acho que é um mix de coisas. Fui entendendo isso com o tempo. Acho que a pintura foi pedindo para ir para o chão, foi pedindo para ir para o horizontal e depois foi pedindo para ir para o chão, depois que elas foram crescendo. Porque é óbvio que é muito difícil eu ter uma mesa gigantesca de 10 metros.

E aí uma coisa foi levando a outra. Meu corpo foi se adaptando para essa pintura agachada, encurvada, e a pintura também foi se adaptando a esse método de pintura.

Então, fui criando esses métodos. Você circula a pintura, se agacha, se debruça, fica com a perna aberta. Se a pintura cabe entre as minhas pernas, eu fico com a perna quase numa rata de yoga.

Por isso que eu chamo até de psicografia pictórica, porque, como é muito grande, muitas vezes eu não vejo o que estou pintando muito direito. Então, parece que eu entro meio que num transe. Desce, baixa um santo ali e a coisa vai acontecendo, e eu só vejo de fato o que foi feito quando coloco na vertical, na parede.

 

De onde vem a inspiração para começar o processo de pintura?

É assim: tem um tanto de obsessão pela pintura, do querer pintar de qualquer forma, tem um tanto de intuição. É um processo bem intuitivo, bem físico e energético.

Então, o próprio movimento... Eu também falo que é quase como um registro da dança do meu corpo sobre essa tela. O próprio movimento do meu corpo é que vai criando essa pintura.

Tem muitos artistas que preparam, separam as corzinhas antes de fazer. Eu não. Eu vejo o que está acontecendo ali no momento, o tamanho da tela.

Uma coisa vai puxando a outra. Então, eu pego um marrom e o marrom vai puxando o roxo. Eu levanto, vou para a mesa, pego o roxo, misturo o roxo, abaixo, pego mais solvente, volto, limpo, porque não gostei dessa parte, sobreponho tinta.

Então, não tem um programa. É uma necessidade.

 

Há uma conexão com o que você está sentindo na hora?

Sim, com certeza. É isso. Eu crio um ambiente para a coisa fluir.

 

Como é a sua rotina?

Então, eu vou para o ateliê. Gosto de ir para o ateliê das 14 horas às 20 horas. Faço todas as minhas coisas de manhã, já vou almoçada para ficar livre, para não ter que pensar em mais nada. Então, toda a parte burocrática de computador, planilha, certificado etc., eu faço de manhã.

Chego no ateliê às 14 horas. Antes eu tomava cappuccino, agora que cortei a cafeína, tomo um chá. Ligo a música no talo. Muitas vezes eu ouço a música em loop, porque, como eu disse, eu meio que entro num transe, então não consigo ouvir a música inteira. Tenho que colocar várias vezes. Literalmente, das 14h às 20h, posso ter ouvido a música umas 100 vezes.

Porque vou ouvindo por partes. Enquanto estou ali pintando, ouço um comecinho e depois abstraio e não ouço mais nada.

Então, ligo essa música, ligo minhas velinhas e preparo ali a tela, o meu... e a coisa acontece.

 

Você pinta todo dia?

Das 14 horas às 20 horas, todo dia. Menos no final de semana. Final de semana eu me dou de final de semana.

 

A música você escolhe de que maneira? São sempre as mesmas ou você muda?

Eu tenho uma playlist que chama "Pintura", que é a minha playlist de retaguarda. Qualquer coisa, eu tenho ela.

Mas muitas vezes escuto as músicas curtidas. Então, descubro uma música que pode ser assim, de um rap francês até uma ópera italiana ou um funk brasileiro. E, às vezes, é que aquilo me pega de algum jeito e é aquilo que eu vou ouvir 100 vezes.

Eu acho que é menos inspirador, é mais um ritmo. Vai criando um ritmo para o meu corpo e para a minha mente, e aquilo vai me conectando com o fazer pictórico.

 

Você já esteve em Paris, Nova York, diante de artistas de todos os lugares do mundo. Você percebe alguma coisa no brasileiro, em especial? E como você avalia a arte contemporânea voltada ao Brasil nesse momento?

Eu acho que eu posso dizer melhor, não sei se da arte contemporânea como um todo, mas, por exemplo, tem uma diferença que eu senti agora bastante, principalmente na minha experiência agora em Nova York. Eu estava com um trabalho já um pouco mais formado do que os anteriores e foi uma experiência mais completa, no sentido de exposição, comercialização, troca com outros artistas, galerista, curador etc.

Eu senti muito mais abertura para o gênero abstrato e muito mais conhecimento para ler um trabalho abstrato. Nos Estados Unidos, eu acho que eles têm uma história. O abstracionismo americano tem uma história. Então, eu acho que, com isso, eles têm muito mais bagagem para olhar uma pintura e entrar mais nessa pintura abstrata.

Aqui no Brasil, acho que às vezes a gente para um pouco na superfície do "eu gosto, não gosto". "Ah, eu não gosto de roxo. Eu gosto de amarelo."

E a pintura é muito mais que isso. A pintura é sentimento, é gesto, é cor, é escala, é o que aquilo te remete, é energia. Tudo tem uma energia. Imagina, eu faço ela no chão, é supervibracional.

Mas, em relação aos artistas brasileiros, eu acho que a gente tem um jeito. No geral, o nosso trabalho de arte é mais quente, seja pela cor ou seja pelos assuntos. Eu acho que aquele borogodó que a gente tem também entra no trabalho de arte.

 

Você é uma estudiosa das artes ou é mais intuitiva?

Se for qualquer porcentagem, eu acho que sou mais intuitiva. Mas eu me formei em artes, então tive que passar por todas as áreas, estudar. Depois, fiz acompanhamentos conceituais e de história da arte pós-faculdade. Nas viagens, eu sempre vou aos museus, sempre leio as coisas. Eu ainda leio bastante sobre arte.

Mas eu não me diria uma estudiosa. Eu não fico debruçada lendo. Fico muito mais estudando pintura, a prática da pintura, do que de fato debruçada sobre livro.

Mas eu acho que a gente também aprende fazendo, conversando com outras pessoas.

 

Você falou que a música é fundamental para sua produção. A dança, seu corpo, a relação do seu corpo com a tela. O que mais te inspira e faz parte do seu fazer, da sua pintura?

Eu acho que essa obsessão. Para mim, na pintura, o gesto é muito importante. Então, essa obsessão para encontrar esse gesto.

Eu gosto de uma pintura molhada, de uma pintura em que você consegue acompanhar, como se você tivesse... O público tivesse também pintando aquilo com um olho.

Então, para mim, a pintura não está seca, a pintura não está arranhada. Isso tudo é muito importante. Isso vai me levando a pôr uma camada em cima da outra e, depois que eu terminei uma pintura, começar outra pintura e outra pintura.

 

Já houve caso de você pintar algo e depois se surpreender com o resultado?

Eu acho que, no geral, é mais por aí. Tem muito artista que planeja, programa, faz planilha, faz projeto. O meu é muito mais sobre fazer e depois conceituar a coisa, depois intelectualizar.

Por exemplo, essa exposição que eu falei, essa individual em 2021, eu acho que só fui entender de fato o que foi criado depois de uns anos. Entendi profundamente depois de uns anos.

Eu acho que consigo falar muito melhor dela hoje do que conseguia no momento em que fiz.

 

Você é uma pintora profissional, está no mercado, e eu creio que o mercado exige nome da tela, explicações. Como foi essa adaptação sua ao mercado?

O título da pintura especificamente é, eu acho, muito gostoso inclusive, porque, para mim, eu crio, eu tento criar uma certa sinestesia ali com a obra.

Então, "Vento de lavanda". Você sente o vento, ao mesmo tempo sente o aroma da lavanda, ao mesmo tempo está vendo umas pinturas com pinceladas lilases.

Então, vou criando esses nomes sinestésicos. Para mim, é como se fossem micropoesias. Eu me dou esse direito de criar micropoesias para as minhas próprias pinturas.

E, para os outros, para explicar o meu trabalho, para mim cada pintura é como se fosse parte de um grande quebra-cabeça pictórico, como parte de todas essas pinturas, de todo o meu trabalho.

Então, a minha explicação, no geral, é mais uma pintura de uma linha que pretendo levar até o resto da minha vida.

E, claro, tem as exposições. Elas giram mais em temas específicos. Por exemplo, a que eu fiz agora em Nova York chamava "Between Utopias and Abyss". A gente era um duo show.

Uma exposição com outra artista, uma artista que fazia umas esculturas sobre vidro, que chamava Austin Fields, do Texas, mas mora em LA.

A gente estava tentando criar ali, falar, aliás, dos abismos que a gente vem vivendo. Vocês trabalham em jornal, vocês sabem muito bem das notícias, a cada momento, de todas as desgraças que a gente tem vivido.

Então, era isso. Era para criar ali uma narrativa dentro da exposição, contando um pouco dessa situação externa, trazendo ali para a galeria, mas, ao final da exposição, trazendo quase como se fosse uma luz no fim do túnel para esse público. E para nós mesmas.

Então, eu acho que, nas exposições, essas histórias eu consigo delimitar melhor sobre o que é o trabalho, sobre o que é aquele conjunto de trabalhos.

 

Nessa exposição em Nova York foram quantos quadros seus?

Foram uns 14, 15, entre pinturas médias, grandes e pequenas, e a pintura do chão e das paredes, que eram bem maiores.

 

Hoje você vive da sua arte. Como é viver de arte no Brasil? Qual é a sua perspectiva? Você faz algum planejamento também nessa questão econômica, um planejamento financeiro?

Muita planilha, porque hoje entra, amanhã não entra. Então, você tem que entender, porque muitas vezes os trabalhos são, falando de uma maneira bem prática, parcelados.

Então, você sabe que nesse mês vai entrar tanto. No outro mês, tanto. No outro mês, tanto. E depois não tem mais.

Se vender mais alguma coisa, aí começa a contar de novo. Então, meu planejamento é fazer muita planilha de tudo que entra e o que sai e gastar com muita cautela, porque é isso.

Hoje parece: "Nossa, meu Deus, que incrível". Mas eu sei que amanhã pode não estar assim.

Então, não é fácil. Tem que ter uma organização.

 

Existe um planejamento de carreira também, não só financeiro, mas de metas, de carreira, de lugares que você quer ocupar junto com a sua arte?

Existe. Eu acho que sou relativamente nova, então já ter alcançado uma praticamente individual em Nova York agora já foi um passo muito legal. Ser reconhecida no New York Times, um passo muito legal. Ter feito já exposições institucionais aqui no Brasil, também passos muito legais.

Eu acho que é cada vez avançar mais nisso. Outras instituições em outros países.

Eu sou megalomaníaca no sentido da pintura. Então, para mim, quanto maior o espaço para eu pintar, melhor. Meu sonho é isso: pintar lugares cada vez maiores.

 

Como foi essa transição de expandir da tela para a parede e o chão?

Eu acho que tem muito a ver com a minha formação, com meus dois anos de arquitetura, porque, por mais que eu não tenha terminado a formação, é uma faculdade muito complexa. Então, isso fica arraigado em você.

Desde o meu TGI em artes, o trabalho já tinha a ver com a arquitetura. Já era uma pintura de 3,5 metros por 3,5 metros.

Então, acho que vem um pouco disso. Vem um pouco de eu querer criar esses ambientes para as minhas próprias pinturas.

Essa forma de pintar o chão e pintar as paredes e depois sobrepor as pinturas é para eu criar um ambiente, um contexto para as minhas pinturas viverem.

Eu brinco que são paisagens para as minhas paisagens.

E, assim, eu faço isso quando é possível, porque tem sempre restrições, limites de cada lugar.

Agora eu estou com uma individual no Rio de Janeiro, no Centro Cultural Correios, que é uma instituição. Eu não podia sair pintando tudo. Um chão de madeira que parece que é tombado, a parede que é não sei o quê.

Então, a minha solução foi: eu peguei uma pintura que já estava pronta, que participou de outra exposição, que era uma pintura de 10 metros, que é como se fosse uma língua, e levei essa pintura para os Correios.

Então, você tem essa relação dessa escala, ao mesmo tempo de quase fazer parte da arquitetura do lugar, porque é uma pintura que é preparada para as pessoas poderem pisar sobre ela. Então, ela vira parte do chão ali do centro cultural.

 

Isso te abre oportunidade de ter clientes? Nessa maneira de fazer a arte, você abre a chance de pintar um quadro na casa de alguém?

Já me sondaram sobre isso. Uma colecionadora lá dos Estados Unidos, que viu uma exposição em Nova York, minha primeira exposição ano passado, queria que eu fizesse na casa dela em Boston. Mas, por algumas questões práticas, não acabou sendo possível.

Mas é uma coisa a se pensar. Óbvio, depende de todas as condições, mas é uma coisa que provavelmente eu faria.

Eu fiz no chão do meu próprio ateliê. Teve uma vez que, numa galeria, um curador me convidou para fazer uma pintura comissionada, que é essa pintura que você faz especificamente para aquele projeto.

E a minha ideia era pintar o chão da galeria inteiro, mas não foi permitido, porque a galeria tinha acabado de abrir, estava toda impecável.

E aí a solução foi justamente fazer essa língua que agora eu trouxe para o Centro Cultural dos Correios.

Mas depois, no meu ateliê, que é grande por vários motivos, eu matei a minha vontade. Pintei diretamente no chão. Então, ele até hoje está lá, mais desgastado, mas está lá pintado.

Isso não é só... A gente fala: "Parece legal". Não é só legal, mas faz parte da minha pesquisa, porque eu exercito o meu gesto. O meu gesto, que é assim na tela, no chão vira mais corporal ainda.

Eu brinco que eu não pinto com o punho, eu pinto do ombro para cima. É um gesto que vem do meu corpo.

 

Pode acontecer uma cena até hilária. De você convidar um galerista para conhecer seu ateliê e ele entrar e falar assim: "Nossa, cadê suas pinturas?", e você responder: "Você está pisando nelas".

Exatamente. Tem um lugarzinho da janela que eu sempre levo. Eu tenho um tour que a gente faz no ateliê.

Daí eu falo: "Depois eu vou te levar num lugar". Aí eu levo na janela do ateliê. Tem uma janela assim que você tem uma vista de cima, aí você consegue ver a pintura do chão inteira, como se fosse realmente uma pintura.

 

Fala um pouco dessa trajetória em São José e do que a cidade representa para você? E o Vale do Paraíba?

Ah, eu acho que representa não só de onde eu saí, mas de onde eu me sinto acolhida, confortável, segura.

A minha mãe ainda mora aqui, meus avós moraram aqui. Eu tive uma vida aqui muito feliz, fui muito feliz.

Até hoje eu tenho vários sonhos com São José. Colégio, casa da minha avó, parque.

Então, são referências tão impregnadas em mim. E eu tenho certeza de que, diretamente ou indiretamente, elas passam para as pinturas, para os trabalhos.

Eu tenho muito carinho pela cidade e por isso que voltar aqui e falar com vocês é uma honra. É ótimo voltar. Eu volto sempre. Tenho mil lugares que eu amo voltar e tenho mesmo gostinho de sempre. Gostinho de casa.

 

Onde é sua base?

São Paulo. Desde que fui fazer arquitetura, quando tinha 18 anos, mudei para São Paulo para estudar lá e acabei ficando, porque daí fui fazer artes. E lá o meio da arte já é mais desenvolvido que aqui, então é mais fácil de você conseguir trabalhar com isso lá.

Fui ficando, ficando, ficando e acabei formando a minha vida lá. Meu ateliê é lá, minha casa é lá. Mas, enfim, é um pouco por necessidade da profissão.

É uma cidade que eu gosto bastante. Acho que tem muita oportunidade, tem muito restaurante, mas tem muitos problemas também. Não é que seja um sonho de cidade.

 

Já há obras suas aqui em São José? Há chance de uma exposição sua na cidade?

Então, eu tenho um convite para fazer uma exposição num lugar muito legal, que ainda não está certo. Então, é melhor não falar.

Mas eu acho que vai ser uma grande oportunidade, não só de dispor as telas, como até a proposta inclui deixar algumas pinturas aqui no acervo.

Então, eu acho muito legal esse reconhecimento de novo da cidade.

E é uma coisa que me parece nova. Parece que São José está um pouco abrindo mais os olhos para a cultura, para as artes. Não só para mim. Tenho visto esse movimento: espaços de cultura se abrindo, museu se movimentando, outros artistas produzindo mais aqui de forma mais profissional.

Fico muito feliz. Eu acho que, por a gente estar tão perto de São Paulo, muitas vezes essa proximidade atravanca um pouco o desenvolvimento cultural aqui. A gente fica preso a ficar indo nas coisas em São Paulo.

Mas é importante ter os seus próprios centros culturais, seu próprio museu, sua própria vida cultural.

Você vai, por exemplo, para a França, uma cidade pequena tem seu centro cultural vivo, funcionando, com um monte de artista, um sistema de arte funcionando ao redor disso tudo.

É muito importante porque faz parte da educação. Isso é imprescindível.

 

Você falou da questão do abstrato. Há pessoas que não consideram arte algumas vertentes do abstrato. Você viu mudança nisso?

Eu, como saí do figurativo e vim para o abstrato, percebo bastante essa mudança. Mas é isso: aqui no Brasil, eu não gosto de falar: "Aqui no Brasil é pior que lá".

Não. A gente tem muitas qualidades, eles têm outros defeitos, enfim. Mas, nesse sentido da leitura da pintura abstrata, eles parecem ter mais bagagem para se aprofundar na pintura, para atravessar a primeira camada da pintura.

Eu acho que isso vem, na verdade, antes. Eu acho que a nossa educação é precária nesse sentido cultural, nas escolas. Mesmo em escola particular, eu não tive aula de artes o tempo inteiro, não tive filosofia.

Então, você forma pessoas que não sabem nem do que se trata. É óbvio que ela vai preferir um retrato ou vai conseguir entender mais um retrato, porque aí ela identifica alguma coisa que possa entender: "Ah, tá, é a cara de um cara". Aí ele está fumando: "Ah, tá, beleza". É uma flor.

Quando é abstrato, você precisa ter, no mínimo, um pouco mais de abertura, flexibilidade, se deixar que essas cores, que essa escala, que esse gesto entre um pouco mais em você.

Mas eu acho que é uma questão de tempo. A gente está aprendendo também. Eu também estou aprendendo.

Acho até que essa minha desfiguração, vamos dizer assim, também tem a ver com isso. Eu acho que é sempre um aprendizado.

 

Tem algum artista que você admira bastante?

Tem. Teve uma exposição muito importante para mim nesse momento dessa virada de chave, de sair do figurativo para o abstrato, que foi uma exposição na Fundação Louis Vuitton, em Paris, quando eu estive lá para residência, que era um duo show com John Mitchell, um artista, e o Monet.

E era justamente uma... Eles pintaram os mesmos jardins em épocas diferentes. E mostra essa explosão floral, de certa forma, também.

E, para mim, isso foi muito inspirador. Eu voltei para o Brasil e aquelas flores que estavam ali apertadas foram cada vez ganhando essa escala.

E tem uma outra exposição permanente no Louvre Gallery também, em Paris, do Monet, que ele ocupa as paredes praticamente todas do museu, que também para mim é uma grande referência. Mais nesse sentido, dessa ocupação da tela no espaço.

 

Você é uma história de sucesso, e toda história de sucesso também tem dificuldades. Há algo que você possa contar?

Nem sei se essa é uma história de sucesso. Eu acho que eu tive coisas muito legais nesses vários momentos da minha vida, mas também tem muita dificuldade.

É uma carreira... Quando você opta por essa carreira, é uma carreira muito complexa. Eu sempre comparo: você ser médico, você faz lá, é muito difícil. São mil anos de formação, depois residência, aí é difícil de entrar.

Mas você entrou no hospital, você tem ali um hospital, um consultório. A carreira de artista: você sai com diploma de artista, você não tem um escritório para você ir mostrar seu diploma. Você não vai mostrar na galeria. Inclusive, se você mostrar na galeria, é capaz que dê um tiro no seu pé, porque não é assim que funciona.

E muitas coisas não são assim que funcionam. Muitas coisas que na vida, no resto da vida, são assim que funcionam, na arte é o contrário ou é mais complexo que aquilo.

Então, é uma carreira muito difícil. Eu acho que é outra questão que dificulta tudo: a subjetividade.

De novo, o exemplo do médico. Se, por exemplo, você tem um pai ali que tem bons contatos no hospital, você é médico, ele, o pai, te coloca ali no hospital. Você faz uma cirurgia errada, duas. Na terceira, vão ter que te cortar.

Se você tem uma obra boa ou uma obra ruim, se você tem uma obra ruim e alguém poderoso falar "essa obra é boa", não tem quem te corte, porque é muito subjetivo para falar que aquela obra é boa, se vale, se não vale.

Então, isso tudo permeia a nossa carreira e vai criando certas dificuldades.

Eu acho que eu tive muita sorte e alguns privilégios nessa jornada toda, mas, sem querer comparar, para poder dar um contexto aqui, tem pessoas que tiveram muito mais sorte, muito mais privilégio e foi muito mais fácil.

Agora, de mim para baixo, eu acho que é bem sofrido.

 

Existe uma crise artística de se olhar e de se questionar? Existe essa crise interna como artista? Você teve esse processo em algum momento?

Acho que sim.

Eu acho que, pelo menos as minhas crises, elas estão mais relacionadas, mesmo, menos com a minha própria pintura, meu próprio processo, e mais com o sistema da arte, essa complexidade toda dele.

Então, as crises são mais: "Meu Deus, eu não acredito que estou tendo que aguentar isso ou que eu vou ter que fazer isso para isso". Meio que trabalhar para trabalhar.

Você tem que trabalhar para trabalhar. Você tem que trabalhar para fazer um meio de campo ali para poder pintar, para poder ter sua vida ali mais ou menos organizada.

E eu sou uma pessoa que gosto muito de estabilidade no meio profissional e financeiro, e é muito mais difícil na carreira de arte.

Então, a minha crise, quando ela bate, é nessa instabilidade.

 

Você tem um plano B?

Eu posso dar aula. Tenho essa carta na manga. É uma coisa que é possível de fazer, ou dar aula em escola, ou criar o meu próprio curso. Enfim, tem isso.

E outras coisas que eu até já pensei foram, por exemplo, abrir algum centro cultural ou trabalhar em algum museu, alguma outra coisa. Acho que é uma coisa que me interessaria também.

Independente até se eu estou em crise ou não, eu acho interessante, porque é uma outra forma de você contribuir para a cultura.

 

Você falou de ensinar. Ensinar te cativa?

Eu acho legal. O que me afasta um pouco é a dinâmica dos colégios. Então, o sistema educacional me afasta um pouco, mas acho muito legal abrir a cabeça das outras pessoas através das artes.

Eu vejo, às vezes, crianças que convivem perto de mim. Às vezes a gente brinca: "Vamos fazer isso". E você fala coisas, incentiva e dá ideias que a criança fica assim e depois repete em casa.

Eu acho isso muito interessante. E eles também, na outra mão, nos ensinam muito. Então, essa troca com criança e gente mais jovem é demais.

 

Você pinta para si mesma, com relação a gostar do que faz, sem se importar com o gosto alheio? E como você lida com a crítica?

Eu faço pelo meu bel-prazer. Eu sinto muito frio na barriga quando faço a pintura e, para mim, esse é o meu guia.

Se estou fazendo a pintura e estou sentindo frio na barriga, para mim é porque estou no caminho certo.

E acho que também responde uma outra coisa. Eu vim desse figurativo e mudar de estilo, por mais que seja normal na história da arte, na hora que você está mudando, costuma sofrer um certo preconceito.

E eu acho que eu sofro um pouco assim: "Nossa, está fazendo outra coisa, você mudou e tal".

Não sei se chega a ser um preconceito, mas tem um olhar ali diferente, até as pessoas acostumarem com o que você está fazendo e entenderem que aquilo faz parte da sua pesquisa.

E eu nunca ouvi nenhuma crítica, especialmente assim, nada que tenha me marcado.

Acho que, se eu vi, foram coisas construtivas que fui adotando até e pensando sobre, mas nada muito que eu lembre para falar.

 

E as redes sociais, como você as usa?

É muito bom, é uma vitrine. É muito importante.

Mas é uma coisa que, se tiver algum momento em que eu estiver num nível em que não precisar mais dessa autopromoção, acho que é uma coisa que eu deletaria.

Eu acho que muito do que eu posso ali é trabalho. É por necessidade de trabalho. Acho que, quando um dia chegar a não precisar mais disso...

 

Você, quando cria suas telas, necessariamente tem que estar sozinha?

Eu prefiro estar sozinha, mas já dividi ateliê, então acaba acostumando. Mas acho que o ideal é eu entrar nesse transe ali mais sozinha.

Dependendo do combinado, eu posso... A gente pode entender assim. Já me chamaram para pintar em algumas coisas públicas.

Na galeria de Nova York, a galeria era uma vitrine para a rua. Então, eu fiz a exposição... As pinturas que fiz dentro da residência artística, mais a pintura do chão e da parede, eu fiz com as pessoas passando, me dando tchau, falando "yes, go", porque era nos Estados Unidos.

E filmando e, assim, mil coisas. Eu parecia que estava tipo um peixinho no aquário.

E foi gostoso. É gostoso, porque eu senti também muito carinho. Então, foi uma experiência legal.

Mas o que eu gosto mesmo é estar sozinha no ateliê, com a minha música em loop. E alto. A pintura, para mim, é outra relação.

 

Você conquistou reconhecimento internacional. Quais são seus sonhos?

Eu acho que é isso. Eu quero cada vez mais poder pintar em lugares maiores.

E quando você vai ficando com um pouco mais de credibilidade, vai conseguindo optar mais onde você quer pintar.

Então, o meu sonho é esse: cada vez mais conseguir decidir onde eu quero pintar, o tamanho que eu quero pintar e ter autorização para isso.

 

Se pudesse imaginar daqui a 20 e 30 anos, como você gostaria de estar?

Nossa, fazendo exatamente o que eu faço, só viajando mais para fazer mais exposições por aí, em lugares cada vez maiores.

Mas eu já amo o que faço. E ter cada vez mais isso que eu falei, essa estabilidade profissional e financeira, porque acho que esse descanso faz a pintura ser ainda mais, pelo menos para mim, mais gostosa.

 

Alguém já te perguntou: "Fora a pintura, você trabalha"?

Assim, não dessa forma. Acho que virou um clichê tão grande que as pessoas ficam com vergonha de perguntar assim, mas indiretamente, de várias formas, sim.

É normal, porque realmente é muito difícil você conhecer alguém que viva disso. É a minoria da minoria. E mesmo quem está no mercado de arte, às vezes, não vive disso. Tem outros empregos e tal.

É normal. Realmente, quem consegue viver disso... Quer dizer muita coisa: que é muito persistente, que é muito batalhador. Deve ter tido alguma sorte no caminho, enfim, mas não é só sobre talento, eu acho.

E acho que, às vezes, nem a pessoa tem muito talento, mas ela é tão persistente que a coisa acaba acontecendo.

 

Um dos seus sonhos é uma exposição aqui em São José?

Sim, acho que seria incrível. Voltar, depois de... Bom, eu já fiz algumas exposições em São José nessa época da aula, no Tênis Clube, no Shopping Colinas, no próprio Tênis Clube, em alguns outros espaços, com aquela pinturinha que era uma pinturinha acadêmica, que a gente copiava outras pinturas.

Então, seria incrível voltar para São José com uma pintura autoral, depois desses anos todos.

Acho que seria um... Eu nem digo que é sonho, porque já está meio perto, então já está meio realizado. Mas, com certeza, é um sonho. Deve ser para o ano que vem.

É porque essas coisas precisam de tempo para você organizar e desenvolver direito.

No final do ano, vou participar de uma feira de arte em Miami, importante. Então, também estou me preparando para isso.

Estou com uma exposição no Rio agora, então, assim, para não fazer as coisas muito atropeladas. A do Rio foi prorrogada até o dia 8 de agosto.

Participei de mais uma coletiva em Nova York, que já se encerrou, e agora uma terceira em Nova York, que ainda está em cartaz até o dia primeiro de agosto. Nessa mesma galeria em que fiz a exposição maior.

 

Fica esse espaço final para você falar o que quiser.

Obrigada de novo, gente. Foi um prazer falar com vocês.

De novo, acho muito legal vocês terem me convidado para vir aqui. Acho que isso faz parte do meu crescimento, do meu aprendizado, da minha formação, da minha trajetória.

Eu vou sempre lembrar: "Ah, que legal, o jornal me chamou, o regional da minha cidade, onde eu nasci, me chamou para falar".

E eu acho que o que a gente está fazendo aqui, lógico, tem um interesse, mas acho que é uma contribuição para a cultura. O 0,1%, eu estou contribuindo. Nós estamos contribuindo para a cultura, para a educação e, para mim, isso é muito importante.

Porque, quanto mais cultura e educação a gente tiver, mais a arte vai ser valorizada e mais artistas vão poder viver de arte no Brasil e no mundo.

A arte é boa. Para mim, foi quase uma cura.

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