OVALE ENTREVISTA

Tebet critica Tarcísio e cobra reação contra a violência no Vale

Por Xandu Alves | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 36 min
Antônio Basilio
Simone Tebet (PSB) na redação de OVALE
Simone Tebet (PSB) na redação de OVALE

Em entrevista a OVALE, Simone Tebet (PSB), que é candidata ao Senado por São Paulo, falou sobre as eleições, a violência no Vale do Paraíba e fez críticas ao governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). “A responsabilidade de segurança pública é do governo estadual”, disse.

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Ex-ministra do Planejamento e Orçamento do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Tebet disse ver um “paralelo” entre as suspeitas que envolvem um dos filhos do presidente Lula e o candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Segundo ela, apesar de os casos tratarem de situações diferentes, ambos devem ser investigados com transparência e sem distinção política. Ela defendeu que eventuais denúncias sejam apuradas com “o mesmo peso e a mesma medida”.

A candidata também falou sobre a importância do Vale do Paraíba no processo de reindustrialização do país, o protagonismo científico e de inovação da região e a chance de representar São Paulo no Senado, além de rebater críticas por disputar a eleição no estado.

"São Paulo sabe acolher, sabe abraçar e sabe que precisa dessa diversidade", afirmou Tebet.

Leia a seguir a entrevista na íntegra.

Divulgada ontem, a pesquisa Quaest mostra a ex-ministra Marina Silva e a senhora liderando a corrida eleitoral ao Senado por São Paulo, mas tecnicamente empatadas com o ex-secretário de Segurança e deputado federal Guilherme Derrite. O que a senhora acha que fará o eleitor paulista definir o voto pela senhora e por Marina Silva, em razão de ambas estarem do mesmo lado político?

Bom, eu posso falar o que eu espero que aconteça. Espero, primeiro, que São Paulo entre para a história, ou que nós façamos história, que o povo paulista faça história, elegendo pela primeira vez em São Paulo duas mulheres.

O grande problema da democracia é a falta de representatividade do povo brasileiro na política. Nós somos, enquanto mulheres, a maioria da população brasileira e somos menos de 20% de mulheres na política. Nós temos uma população de pessoas brancas, pardas, negras e indígenas, e a representação é ainda menor quando a gente fala de raça.

Então, São Paulo, que sempre foi pioneira, sempre esteve na vanguarda, pode começar a fazer história aumentando, por exemplo, a representatividade, não só por ser mulher. Eu acho que isso é importante, pela trajetória, pelo histórico e, no caso de Marina, até para mostrar como os polos podem andar juntos e caminharem juntos.

Nós somos, na linguagem da própria Marina, duas mulheres que representamos pautas que não necessariamente andam juntas, mas a nossa representatividade é diversa. São palavras dela: uma mulher branca, uma mulher parda, uma mulher da floresta, uma mulher do agronegócio, uma mulher evangélica, outra mulher católica. Então, eu acho que tem um simbolismo, tem uma força muito grande.

E duas mulheres já foram candidatas à Presidência da República, ministras de Estado. No meu caso, já fui prefeita duas vezes, vice-governadora. Somos professoras. Então, eu acredito que essa chapa é uma chapa que tem condições de ser a voz que está faltando de São Paulo no Brasil.

São Paulo já foi a terra que teve os maiores senadores da história, que faziam a diferença nos momentos de crise, sentavam na mesa e falavam: “Caminha por aqui”, e todo mundo se guiava. Eu falo de Franco Montoro, falo de Mário Covas, falo de Fernando Henrique, falo dos meus colegas José Serra, Marta Suplicy, que foi a primeira mulher senadora, Eduardo Suplicy, que não foi meu colega. Isso para mostrar tanto a esquerda quanto a direita bem representadas.

Então, acredito que as propostas, as nossas propostas, possam fazer a diferença nesse processo.

 O Vale do Paraíba é, desde 2010, a região com a maior taxa de vítimas de homicídio doloso por 100 mil habitantes de todo o estado de São Paulo. Considerando os dados dos últimos 12 meses, a região tem sete das 10 cidades paulistas com as maiores taxas de homicídio. O governador Tarcísio de Freitas atribuiu a violência na região principalmente à entrada de facções criminosas do Rio de Janeiro no território paulista, pelo Vale, e o confronto com o PCC. Como enfrentar esse problema de segurança pública quase crônico no Vale?

Eu só vou responder porque você citou o candidato. Eu acho que essa é a grande fragilidade do [Guilherme] Derrite. Ele foi secretário de Segurança Pública por três anos. Ele estava no governo. A responsabilidade de segurança pública é do governo estadual, mas eu concordo com o governador que hoje o crime é transnacional.

Consequentemente, quando a gente fala de organização criminosa, PCC e CV, nós estamos falando de organizações que tocam o terror não só nas grandes cidades, mas nas médias e nas pequenas cidades, e não têm fronteira. Ultrapassam fronteiras brasileiras. Consequentemente, isso passou a ser um problema transnacional. Não é só um problema estadual, é um problema do país e da América Latina como um todo, pela integração.

Consequentemente, só há uma solução, só há uma forma de se fazer. Os governadores têm que entender, tirar as vaidades de lado e entender que somente com uma coordenação do presidente da República, através de um ministério, que é o Ministério da Segurança Pública, que precisa ser criado, numa ampla coordenação nacional, com toda a autonomia dos governadores, porque a gente sabe que segurança pública é responsabilidade dos governos dos estados, nós solucionamos esse problema.

Nós tentamos, o governo federal tentou. Lamentavelmente, os governadores, com medo de perder protagonismo, especialmente no período eleitoral, não aceitaram o avanço dessa PEC.

Nós temos denúncias seríssimas dentro da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo. Nós estamos falando não só de uma falta de inteligência no combate ao crime organizado, ao elevar capitães para o posto estratégico e tirar os coronéis do processo. Denúncia com comandante-geral da Polícia Militar, coisa que nunca aconteceu no estado de São Paulo.

Denúncias seríssimas de corrupção e de envolvimento da Polícia Militar, e alguns dizem até da Polícia Civil, com o crime organizado, com o PCC ou CV, no período em que o secretário, em que Derrite era secretário de Segurança Pública. Então, acredito que essa seja uma fragilidade. Ele vai ter que se explicar enquanto candidato.

Mas, enquanto solução do problema, nós temos saída, e a saída passa não só pelo serviço de inteligência e planejamento estratégico — e isso as forças nacionais fazem bem —, mas por uma integração de esforços.

E não estou falando só das Forças Armadas fazendo segurança pública, porque não é papel delas, nem elas sabem fazer, mas no serviço de proteção das nossas fronteiras, para que não venha o contrabando de atividades lícitas e ilícitas de lá, fazendo com que o crime organizado ganhe dinheiro e queira lavar dinheiro nas atividades lícitas da Faria Lima, de cidades como São José dos Campos e de outras cidades.

Mas envolvendo, portanto, não só a polícia, as Forças Armadas, a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal junto com a Polícia Civil e Militar dos estados, mas, fundamentalmente — e aí aqui é o pulo do gato —, colocando o serviço de inteligência do sistema financeiro.

Eu falo da Receita Federal, COAF, que têm a capacidade de rastrear o dinheiro e sufocar. É preciso sufocar as organizações criminosas naquilo que empodera essas organizações, que é o capital, que é o dinheiro, que faz com que hoje eles estejam já dentro das assembleias legislativas, com deputados estaduais, das Câmaras de Vereadores e do Congresso Nacional.

Tanto é que o projeto antifacção, que visava inclusive pegar, mandar de cima, no sistema financeiro dessas corporações, lamentavelmente teve a derrubada das emendas que foram apresentadas pelo Alessandro Silveira no Senado, retiradas pelo Derrite, mostrando claramente que ali eles só querem pegar os pequenininhos.

E, lamentavelmente, nós vamos ter que melhorar o projeto antifacção, aprovar a PEC da Segurança Pública, sob pena de apenas ser midiático tudo isso que foi feito por eles até agora.

De uma maneira geral, qual a importância do Vale do Paraíba para a senhora?

Uma das regiões — para não falar que há, porque são várias ‘São Paulos’ dentro de uma São Paulo só —, mas é uma das regiões mais ricas, prósperas e, eu diria assim, que é o que certas regiões querem ser no futuro.

Porque o futuro de São Paulo e do Brasil passa, com a reforma tributária, pela neoindustrialização, a Nova Indústria Brasil, capaz de competir com certas indústrias da Índia, da China, dos Estados Unidos e da Europa.

E não é a indústria que nós conhecemos agora. É a indústria da tecnologia de ponta, é a indústria da ciência, da tecnologia, da inovação.

E a região, nesse aspecto, que é vitrine não só para as outras regiões do estado de São Paulo, mas do Brasil, é a região aqui de São José dos Campos. Então, Jacareí, Pinda, para não deixar o vice-presidente aqui muito triste, não pode deixar de falar de Pinda, Taubaté, Caçapava e também de Pindamonhangaba, que é até difícil de soletrar, mas, enfim, é, e tem tecnologia de ponta.

Quem não quer ter, né? Que país do mundo não reconhece a tecnologia, a qualidade e a segurança dos aviões da Embraer?

É o sonho de consumo ter outras ‘Embraers’ pelo estado de São Paulo, não dizendo no que se fez, especificamente em relação ao avião. Nós queremos esse modelo que deu certo, é referência no mundo, na área de robótica, de inteligência artificial, utilizando os nossos data centers para transformar a indústria paulista na indústria de ponta.

Com a reforma tributária, que vai simplificar, desburocratizar e diminuir a carga tributária da indústria em especial.

E, com a tecnologia de ponta, São Paulo tem a capacidade não só pelos institutos federais, mas de tecnologia, condições de garantir um trabalhador de excelência.

E nós temos pesquisadores, nós temos cientistas, nós temos jovens se preparando para esse mercado de trabalho. Nós temos condições não só de fortalecer essa indústria que é do século 21 na região do Vale, como também levar toda essa expertise para as regiões mais pobres do interior de São Paulo.

A região concentra diversos polos científicos de reconhecimento internacional, como Inpe, ITA e unidades do DCTA. O próprio presidente Lula, quando aqui esteve recentemente, disse que usaria os dados do Inpe de queda do desmatamento no país contra o tarifaço do presidente americano. Como a senhora vê a importância das ciências para o Brasil e que papel a região tem nisso?

Eu acho que nós estamos diante de um dos momentos mais importantes da história do Brasil. Eu falo que a eleição de 2026, a depender do resultado dela, vai constar nos livros de história. E o que nós fizemos em 2026 para termos o Brasil do futuro?

Porque é um divisor de águas do Brasil que nós verdadeiramente queremos, ou seja, um Brasil voltado para o futuro, vocacionado para o futuro, ou um Brasil que vai ficar eternamente no passado, rediscutindo temas que já foram muito ultrapassados.

Nós temos a extrema direita hoje que não acredita em ciência, que não acredita em vacina, que negou vacina no braço do povo brasileiro, que desacreditou a ciência durante quatro anos, querendo voltar ao poder.

Mesmo assim, eu estou falando numericamente também, não é só discurso. Eu fui ministra do Planejamento e Orçamento, eu vi o quanto nós tivemos que recuperar o orçamento brasileiro e, ainda assim, de valores modestos. A gente teve que recuperar aos poucos porque nós pegamos um Brasil também pós-pandemia. Em função da pandemia, a gente tem que reconhecer, foi preciso reconstruir políticas públicas.

Então, não só a ciência, como a tecnologia e inovação, eu diria que ela hoje tem que fazer parte e, no próximo governo, ela vai fazer parte do governo do presidente Lula, se eleito for, com o mesmo tratamento que a gente trata a educação formal no Brasil.

Quando fala de educação, não tem como não falar de cursos profissionalizantes. Então, a educação no Brasil não é só a educação do ensino básico e universitário.

É um fortalecimento dos institutos técnicos, dos tecnólogos, de formar, através da nossa juventude, um trabalhador com alta produtividade nessa atividade de TI, de tecnologia e inovação, e investir muito fortemente no ensino universitário em cursos e faculdades que os jovens não querem mais devido até à dificuldade.

Aí entra engenharia e todas as especificidades da engenharia, que é o pontapé inicial para, também, os químicos e físicos, mas é o pontapé inicial para essa nova indústria que a gente chama do século 21, que envolve robótica, que envolve inteligência artificial e tudo mais.

E, para isso, a gente tem que rechear no orçamento brasileiro os recursos do Fundo Nacional de Ciência e Tecnologia, não só os reembolsáveis, que é aquele que, com juros muito baixos, os setores, as indústrias, pegam recursos com financiamento e prazos longos para pagar, mas os não reembolsáveis, que a gente tem um valor considerável.

Eu não sei se hoje são R$ 4 bilhões, mas é um valor ainda insignificante perto de tudo que nós vamos precisar para essa nova era.

E é possível, revisando gastos, tirando de onde não precisa mais e reposicionando esse recurso. Nós aumentarmos muito os recursos para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, que foi fortalecido na gestão do governo Lula com a ministra Luciana [Santos].

 Quais seus planos como senadora por São Paulo, caso vença a eleição? Como vê o estado hoje e quais suas principais necessidades?

Bom, são muitas, mas, assim, primeiro será voz de São Paulo. São Paulo voltar a ter orgulho dos seus senadores.

São Paulo hoje, se for perguntar a cada 10 paulistas, talvez sete ou oito não consigam lembrar o nome de um único senador da República que representa São Paulo. Quando muito, um e não dois, e nós temos três.

Ser a voz de São Paulo significa, como municipalista que eu sou e fui prefeita duas vezes, abrir as portas do meu gabinete para os 645 municípios, independentemente da coloração partidária ou ideológica. Ouvir os municípios, saber as necessidades de cada região.

A região do Vale é muito diferente da região, talvez um pouco semelhante à região aqui do Litoral Norte, em função de uma certa região que tem que preservar encostas, preservar o resto da Mata Atlântica e que tem aqui as serras como um grande potencial, inclusive turístico.

Mas é muito diferente aqui o Vale do noroeste de São Paulo ou mesmo da região metropolitana de São Paulo. Então, são várias realidades. Quem mais conhece essa realidade de perto é o prefeito.

É ver com o prefeito, feito primeiro, quais são as obras de infraestrutura que precisa? Qual é o tipo de indústria que precisa ser alavancada? Que as emendas parlamentares e, no meu caso, tenho absoluta transparência e proporcionalidade.

Eu fui a primeira mulher candidata na história geral do Senado Federal, portanto, em 200 anos de história do Brasil, do Senado, a ser candidata à Presidência do Senado, sabendo que eu ia perder apenas para denunciar as emendas parlamentares secretas, o orçamento secreto no Brasil.

Então, as emendas são bem-vindas. Não pode ser nessa grandeza absurda de R$ 60 bilhões, tirando o dinheiro do Executivo e deixando o Executivo quase sem recursos para fazer, num planejamento, aquilo que precisa fazer pelo Brasil.

Mas as emendas parlamentares precisam ser destinadas com transparência, de forma democrática, com rastreabilidade e com a sociedade cobrando. Então, esse é um ponto fundamental.

E nós temos, sim, pautas que são universais do estado de São Paulo. Você citou o problema da segurança pública. Eu faço mais um recorte em relação a ele.

Além de recursos para o estado para que ele possa aumentar o efetivo da Polícia Civil, porque o processo investigativo é caótico, e você dá segurança, e valorizar os profissionais, e o policial, é a questão do combate à violência contra a mulher aqui em São Paulo.

Enquanto no Brasil caíram os índices de feminicídio, São Paulo aumentou 10%. Isso é inadmissível. Delegacia especializada da mulher tem que estar aberta 24 horas por dia, sete dias na semana, porque é lei.

Porque o momento em que mais se mata a mulher ou se espanca a mulher é à noite, nos finais de semana, especialmente depois dos jogos de futebol. E são os horários em que a maioria absoluta das DDMs está fechada.

Então, são questões como essa, como segurança. Ela envolve da pequena cidade à grande cidade, com coragem para cortar no andar de cima, sufocar o crime organizado, o PCC e o CV, naquilo que dói no bolso. É o bolso. Aí ele perde a força.

Ele perdendo a força, diminui o número de armas na mão dos bandidos que estão na rua, roubando celulares e tudo mais. Então, sem dúvida nenhuma, é essa.

Mas o grande desafio, que também é geral, para não ficar falando de regiões, é a questão de nós prepararmos São Paulo para essa nova reforma tributária, que começa em janeiro agora de 2027.

Não só com linhas de financiamento para as indústrias, para os setores também de serviço, do comércio atacado, do varejo, mas qualificando os nossos trabalhadores ainda mais.

Então, FATECs precisam estar espalhadas por todo o estado de São Paulo. Os nossos jovens e mesmo os nossos trabalhadores já da meia-idade precisam se atualizar para a nova era que está vindo aqui.

Isso é fundamental, porque produtividade significa melhor salário para o trabalhador. Então, essas duas frentes: segurança pública, preparar e qualificar os nossos trabalhadores.

Agora, você tem questões distintas. Você pega a região metropolitana de São Paulo, as grandes e médias cidades, tem um problema de mobilidade urbana.

Então, a integração, principalmente no ABC, a integração não só do bilhete único, no sentido de eu ter um único bilhete e poder pegar dois, três ônibus no mesmo dia, mas a integração do ônibus com metrô, com trem, não só na cidade de São Paulo, mas nas cidades que é um desafio, como Osasco, Guarulhos, a região, a chamada Grande São Paulo, é fundamental.

Ali nós estamos falando de mais de 40% da população paulista, que fica duas horas no trânsito para ir, duas horas no trânsito para voltar.

Então, você tem questões regionais. Por que eu estou trazendo essa questão? Porque essa questão tem a ver também com algo que nós vamos ter que enfrentar, que é a tarifa zero ao longo do tempo. Não dá para fazer em um ano, mas em quatro anos dá para fazer, que leva subsídio do governo federal, que é uma forma de o trabalhador não ter que gastar com esse recurso e mesmo a empresa, que muitas vezes tem dificuldade em relação a isso.

Então, você tem questões maiores e menores.

Eu não posso finalizar, claro que educação é minha prioridade, eu já falei um pouco sobre isso, mas eu não posso finalizar sem lembrar que, embora aqui no Vale não seja essa realidade, aqui talvez 1% ou 2% ou 3% do PIB esteja relacionado ao agronegócio, quando muito, a grande força do interior de São Paulo está no agronegócio e na agroindústria.

Então, o fortalecimento desse setor é fundamental. Eu sei como fazer porque eu sou do agro. Eu produzo cana, eu produzo soja, minha família produz eucalipto, gado, enfim, eu sei que isso é uma força que leva desenvolvimento, especialmente para cidades muito pequenas. Elas dependem disso.

Daí essa importância do diálogo com os Estados Unidos, sem esquecer que o nosso grande parceiro hoje é a China e nós não temos que ter preconceito com a cor desse dinheiro. Que venham compradores, para que a gente possa exportar da China, da Ásia, da Europa, dos Estados Unidos, mas que a gente tem que avançar esclarecendo o governo americano que as tarifas não só prejudicam o estado de São Paulo, mas geram inflação nos produtos que o americano compra do Brasil.

Então, são questões como estas que, eu acho, são prioritárias. No mais, o que vier de pauta nacional, nós, como senadores, temos que estar prontos para discutir, defendendo, obviamente, os interesses do país.

A senhora foi criticada por escolher São Paulo para disputar o Senado, tendo feito carreira política no estado de Mato Grosso do Sul. Como responde a essas críticas?

Primeiro, lembrando que a maioria absoluta da população de São Paulo hoje veio de fora do Norte ou do Nordeste, ou é filho dos nossos queridos nordestinos, ou é neto. E São Paulo é essa força pujante exatamente pela generosidade de São Paulo.

São Paulo sabe acolher, sabe abraçar e sabe que precisa dessa diversidade, que torna São Paulo essa pujança. São Paulo não seria São Paulo se vivesse só do agronegócio.

São Paulo é essa força pela diversidade econômica, e a diversidade econômica existe por conta da diversidade dos seus trabalhadores.

E, principalmente, porque eu já fui votada em São Paulo. Eu estive em 2022 candidata a presidente da República, quando o estado que mais me acolheu e proporcionalmente mais me deu votos, não numericamente — que também foi, numericamente, porque é o maior estado, mas não valeria essa comparação —, proporcionalmente, o estado que mais me deu votos foi o estado de São Paulo, disparado.

Eu cheguei a ter quase 10% dos votos da capital numa campanha absolutamente polarizada. Eu tive mais de 1,6 milhão de votos.

Aqui mesmo em São José, que a gente sabe que há um viés mais de direita, mais conservador, e também estava polarizado, eu tive quase 7% dos votos.

E eu fui votada pela primeira vez na mesma eleição em que Tarcísio carioca, que não tinha sequer propriedade aqui ou residência e nunca tinha tido lugar aqui, também foi votado. E democraticamente a população escolheu Tarcísio, um carioca, para governar São Paulo e hoje inclusive está à frente nas pesquisas.

Eu casei com um paulista, estou há 37 anos com o filho de Birigui. Meus avós são do Líbano, escolheram, fugindo da guerra, diversidades, começaram a sua vida aqui no interior de São Paulo. As minhas filhas, as únicas filhas, estão há 10 anos em São Paulo. Eu estudei na PUC em São Paulo.

Então, assim, eu conheço São Paulo, eu debato sobre São Paulo com qualquer um.

Aliás, tem uma história engraçada, porque eu comecei a namorar meu marido muito nova. Eu estava na faculdade no Rio de Janeiro. Naquela época eu não tinha avião, meu pai não pagava, não era fácil para comprar passagem.

Então, cansei de pegar estrada, atravessando a Dutra, parando aqui, às vezes pernoitando. Não aqui, às vezes eu pernoitava em Jacareí, parava aqui para almoçar, mas cansei de atravessar São Paulo, daqui até o noroeste, na divisa, porque a minha cidade é Três Lagoas, que é divisa com o estado de São Paulo.

Então, passando aqui no trecho, parando em São Paulo, Bauru, chegando até ali Castilho, que é a divisa com Mato Grosso do Sul.

Nesse aspecto, assim, eu fico muito tranquila. E o resultado das urnas, o eleitor vai escolher e não vai escolher a favor ou contra, talvez pelo fato de ser do estado ou não.

Acredito que o eleitor vai saber, vai querer escolher as melhores propostas, quem está preparado, quem tem coragem, quem está disposto a servir São Paulo.

A senhora falou em “eleitor mais conservador” no interior. Nem sempre foi assim. No Vale do Paraíba, por exemplo, o Partido dos Trabalhadores já elegeu várias prefeituras numa única eleição, hoje não tem nenhuma. Já elegeu deputados, mas hoje não tem mais. Por que a senhora acha que o interior de São Paulo deu essa guinada para a direita e até à extrema direita?

Eu acho que o problema não é ter dado a guinada para a direita, porque a direita democrática sempre governou o estado de São Paulo. Eu mesma sempre estive nos palanques do PSDB. Assim, eu sempre segui Geraldo Alckmin. Acho que o meu primeiro voto para presidente da República, em 1989, foi para Mário Covas.

E, no segundo turno, porque eu sabia e conhecia a história de Collor, eu estudava no Rio de Janeiro, eu votei pela primeira vez em Lula. Depois, nunca mais votei no presidente Lula. Fui votar no presidente Lula só no segundo turno em 2022.

Mas sempre acompanhei a história de Mário Covas, de Serra, de Fernando Henrique Cardoso e mesmo de Geraldo Alckmin.

O problema não é essa direita democrática que representa o PSDB ou representava o PSDB.

O problema é a guinada para esse tema de direita. O problema são os retrocessos civilizatórios que elas carregam e eu não consigo explicar. Eu devolvo a pergunta para você, que cobre a política como jornalista, porque, assim, é algo que o mundo está... Eu tenho explicações teóricas, né?

Eu acho que o liberalismo econômico — e eu acredito, eu sou uma pessoa liberal na economia, não sou radical, esse liberalismo radical, muito pelo contrário —, eu acho que os problemas do Brasil cabem no orçamento brasileiro. Você não precisa tirar uma política pública para resolver o problema fiscal no Brasil. Não há necessidade disso.

Sou a favor da valorização do salário mínimo acima da inflação. É o mínimo que você pode garantir para a classe dos trabalhadores, à qual eu nem pertenço, porque eu pertenço à elite, que acha que corta primeiro no andar de baixo? Não. Nós temos que cortar primeiro quem ganha mais, dentro do limite da sua capacidade.

Então, eu acredito que essa guinada que tenha dado tem a ver com frustrações.

Eu acho que o Brasil, historicamente, não é só o governo de esquerda, eu falo também dos governos do PSDB, nunca trataram a classe média com um olhar especial, porque era um país de miseráveis lá atrás, quando eu era jovem, então a gente obviamente tinha que resolver o problema dos menos favorecidos. Mas hoje não é essa realidade do Brasil.

Se você for olhar a realidade de São Paulo, em especial, e do Sudeste, nós somos uma região basicamente de classe média. É majoritária e é uma classe média que não se sente contemplada e, muitas vezes, com razão, diante de direcionamentos políticos de governadores, de presidente da República.

Então, eu acho que essa classe média deu o mandato. O problema é que ela não percebeu que está caindo numa armadilha, porque a extrema direita que ela quer é colocar a discussão da ciência, discutir vacina. A pauta dela é uma pauta de retrocesso na pauta de costumes, em que acha até que mulher vota errado. Então, o ideal, se eles pudessem, é tirar o voto feminino.

E, entre tantas outras pautas de retrocessos, uma delas recentemente estava discutindo isso, que é a própria questão de achar que uma menina de 12 anos que engravida tem que levar adiante a gravidez por conta da pauta do direito à vida.

Eu mesma sou católica, eu tenho dificuldade de aceitar o aborto, acho que a legislação está boa, mas eu jamais vou dizer que uma menina nasceu para ser mãe. Jamais vou colocar em risco a vida de uma mulher, se ela tem assegurado o direito, nesse caso, se ela está em risco a sua vida.

Então, essas pautas que já estão certas na Constituição, que não precisam ser revisitadas mais, não são aquilo que o povo brasileiro precisa.

O povo brasileiro não precisa rediscutir essas questões. O povo brasileiro precisa discutir o seguinte: uma janela de oportunidade está se fechando. O Brasil está envelhecendo enquanto país, antes de ficar rico enquanto nação. Isso é péssimo. Isso leva o Brasil a ser eternamente o Brasil do futuro e nunca o Brasil do presente.

O que nós temos que fazer? Diminuir a desigualdade social, melhorar a qualidade dos nossos trabalhadores para que eles ganhem melhores salários e ter uma rede ainda melhor de proteção à classe média brasileira, com uma economia de cuidado muito forte.

É isso que a sociedade brasileira, essa sociedade paulista, quer. O que a extrema direita quer não é isso.

É se perpetuar no poder diante de uma pseudodemocracia, discutindo colégios eleitorais, processo e resultado de urnas, utilizando fake news, utilizando inverdades e mentiras, querendo se sobrepor à imprensa livre, com uma ditadura digital em que muda conceitos e valores da sociedade brasileira para se perpetuar no poder numa pauta absolutamente retrógrada.

A senhora foi ministra do Planejamento e Orçamento no terceiro governo Lula, que vem sendo criticado por gastos elevados e por não conseguir conter a crise que atinge empresas no país. Várias delas pediram recuperação judicial, por exemplo. Qual sua avaliação sobre o governo Lula? A senhora está satisfeita com a política econômica ou ela terá que mudar para 2027?

Sim. Acho que o presidente Lula tem essa consciência. A gente só tem que fazer um recorte temporal.

Primeiro, foi feita uma revisão de gastos modesta, não é ideal. Temos uma regra de teto, que é o orçamento fiscal, que não é ideal, mas foi feita, lembrando que nós pegamos o governo pós-pandemia e com uma série de políticas públicas que estavam no orçamento e estavam sem recursos.

Vou dar o exemplo do que a gente fala pouco, porque, de novo, aqui é um outro perfil: é Minha Casa, Minha Vida, que, para mim, é o maior programa social do país, mais do que o Bolsa Família. Não se exclui, mas mais casa popular significa a mulher pobre não ter a triste, dolorosa escolha de escolher entre pagar aluguel ou colocar, no final do mês, comida na mesa para os seus filhos.

Mas nós tínhamos algo em torno, eu acredito que era algo em torno de R$ 90 milhões só no orçamento, quando nós precisávamos de mais de R$ 4 bilhões. Olha a diferença.

Então, nós tivemos que repor. A gente não tinha dinheiro para Farmácia Popular, estava quase zerado. Então, não tinha dinheiro para ciência e tecnologia, que você falou tanto e essa região precisa tanto.

Então, nós tivemos que recriar políticas públicas, reposicionar o orçamento brasileiro.

Mas o mais grave é que mesmo aquelas duas revisões de gasto que nós mandamos para o Congresso Nacional foram desidratadas pelo Congresso Nacional.

Então, o grande problema do Brasil não é tanto o Brasil gastar muito — e ele gasta, é um problema. O problema do Brasil é que ele gasta mal.

O problema do Brasil são os desperdícios, o problema do Brasil são os privilégios e, aí, leia-se os penduricalhos. Chegar ao final do mês, no final do ano, tentar entender por que um desembargador que tem um teto recebe R$ 400 mil, R$ 500 mil em um único contracheque.

E o problema do Brasil é corrupção.

E, quando a gente fala de corrupção, é preciso entender que nós estamos falando de todos, especialmente do Congresso Nacional, que tem R$ 60 bilhões em emendas parlamentares que pagam, por exemplo, ao invés de colocar tablet lá numa escola pobre da periferia, para recuperar um posto de saúde ou comprar uma ressonância magnética para um hospital, uma Santa Casa, vai pagar show de R$ 1 milhão no aniversário da cidade, um show que custa R$ 500 mil.

E os outros R$ 500 mil saem pingando no bolso de todos os atravessadores desse processo, que vai do prefeito, do secretário, seja lá de qual prefeitura, ou seja qual secretário, até chegar no bolso do próprio parlamentar que desembolsou essas emendas.

Então, eu acho que a gente tem um dever de casa numa reforma política no Brasil, em que a gente tenha que rever alguns conceitos, seja no Poder Legislativo, seja no Poder Executivo, com uma reforma administrativa, seja no Poder Judiciário.

 A senhora vê paralelos entre as suspeitas que envolvem Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula, e as que envolvem o candidato a presidente Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, com relação ao Banco Master? E que reflexos essas suspeitas podem ter na eleição presidencial e na sua própria campanha?

Sim, eu vejo um paralelo de suspeitas, de indícios que precisam ser investigados, mas precisam ser investigados com o mesmo peso e com a mesma medida.

A mesma Polícia Federal que vaza informações de um lado — não estou dizendo que é ela que vaza, mas que sai vazamento — precisa dar transparência o mais rápido possível do lado de lá.

Embora sejam em relação a coisas diferentes, no caso do Flávio, Banco Master; no caso do Lulinha, seria um possível tráfico de influência. São denúncias gravíssimas que precisam ser investigadas. Ninguém está acima da lei.

A única diferença que eu faço é que, no caso do Flávio, nós estamos falando do presidenciável, aquele que vai ter caneta na mão e que tem uma série de denúncias muito anteriores a essa.

Nós estamos falando de um candidato que não nasceu rico, mas que virou deputado e, no Rio de Janeiro, ainda não explicou as rachadinhas no seu gabinete, tirando mais da metade dos salários dos seus assessores. Estou dizendo, você falou de denúncias, eu estou falando no âmbito de denúncias.

Eu não posso acusar sem prova. São denúncias seríssimas e depois aparece utilizando-se de uma loja de chocolate, comprando 30 imóveis no estado.

Nós estamos falando de denúncias de uma mansão de R$ 6 milhões quando o pai era presidente, financiada por um banco público, ele financiou como filho.

Então, você está falando de filho para filho: Flávio filho, Lulinha filho. O Flávio filho está comprovado, já não é mais denúncia, que ele comprou uma mansão. Ele não nega que comprou a mansão. E comprou uma mansão financiada por um banco público.

Ele faria esse financiamento se não fosse? Ah, porque é senador, então financiou? Vamos acreditar. Tá.

Mas o que justifica ele pegar R$ 3 milhões em dinheiro vivo? Quem é que tem R$ 3 milhões em dinheiro vivo e paga por essa mansão? Ainda inexplicável.

E agora o mais grave de todos, com o áudio confessado por ele, que ele pediu, eram R$ 130 milhões, mas para o filme do pai dele, R$ 61 milhões, quando já estavam confirmadas as denúncias seríssimas, na véspera da prisão, divorciaram e sem explicação.

Então, acho que aí nós temos algumas diferenças, embora os dois casos sejam sérios e precisem ser investigados.

Eu só encerraria nesse assunto dizendo que talvez a grande maior diferença é que, lá atrás, eu era senadora, ninguém me contou. Lá atrás, o pai [Jair Bolsonaro] mudou o superintendente da Polícia Federal para parar a investigação.

Aqui nós temos uma Polícia Federal com autonomia para investigar o filho. Então, acho que isso precisa ser lembrado claramente, sem juízo de valor.

Aí, quem tem que dar o juízo de valor é a sociedade paulista e brasileira.

Qual a avaliação da senhora para o governo de Tarcísio de Freitas?

Olha, eu acho que quem tem que fazer essa avaliação é a sociedade paulista. Não dá para falar que Tarcísio tenha 100% de acertos ou tenha só 100% de equívocos.

Eu tenho algumas discussões em relação a alguém que falou que resolveu o problema da segurança pública e a violência contra a mulher aumentou.

Os crimes patrimoniais, é verdade que alguns deles caíram, mas você tem questões seríssimas não só da violência policial, mas de suicídios de policiais. Alguma coisa está muito errada.

Eu sou a favor da valorização dos profissionais da saúde, tanto da Polícia Civil quanto da Polícia Militar, e não acho que é através da força que se resolve o problema de segurança pública, mas da valorização do profissional que esteja preparado para prender.

Acredito, sim, que o lugar de bandido é na cadeia, desde que haja a ampla defesa e o contraditório, e que o preso tem que se ressocializar. Ele tem que trabalhar, ele tem que estudar e, do salário que ele ganhar pelo trabalho, ele tem que dar para a família, porque ele não pode deixar ao relento a mãe e os filhos.

Então, acho que essa é a forma de você, não é nem 8 nem 80. Não é matar bandido e não é defender bandido. Não é uma coisa nem outra. É um sistema realmente equilibrado que funcione.

Segurança Pública não está funcionando no estado de São Paulo.

Da mesma forma, como é ser a favor ou contra privatizações? Você tem privatizações que foram muito boas no passado, como, por exemplo, a telefonia. Ninguém pode discutir que a privatização foi ruim. Foi uma coisa boa.

Eu sou a favor de privatizações da infraestrutura, portos, aeroportos, rodovias.

Olha os aeroportos que nós estamos tendo. Vai para leilão, isso entra dinheiro no caixa. O governo federal está fazendo, que se fala um governo progressista, mas está fazendo.

Agora, quando você envolve Sabesp, quando você envolve Enel, quando você envolve serviços básicos, ou você faz uma privatização bem feita ou você não faz.

Não dá para fazer uma privatização em que há uma série de suspeitas, em que o contribuinte, o usuário, está pagando mais caro para um serviço pior.

No caso mesmo da Sabesp, tem regiões bebendo água escura quando tem água.

Então, eu acho que ele deve alguns esclarecimentos para a sociedade paulista, mas, de novo, não é uma avaliação. Eu estou colocando questões pontuais que precisam ser colocadas na mesa.

Agora, quem vai fazer esse juízo de valor, obviamente, é a população paulista.

Fernando Haddad tem chance na disputa contra Tarcísio? No que ambos diferem em termos de gestão, na opinião da senhora?

Eu acho que em alguns setores é água e vinho.

Para mim, o que é mais caro, sem isso a gente não tem indústria, não tem emprego, não tem centro de tecnologia como aqui, é a forma como a educação é descuidada no estado de São Paulo.

E São Paulo já teve o melhor índice de educação do Brasil na época, inclusive, de Alckmin, há 10 anos, o melhor Ideb, ou seja, os melhores alunos em matemática e em português, que é o que escolhe. Então, leia essa história também e etc. Era o aluno da escola pública de São Paulo.

Ele foi caindo, caindo, caindo para quinta. Acho que, quando Tarcísio pegou, acho que era quinta. Eu não sei, hoje eu não sei se é o oitavo ou a décima posição.

Lembrando que é o estado que mais arrecada, lembrando que é o estado que tem os maiores centros de tecnologia e inovação, os melhores campi, os melhores institutos técnicos, as maiores universidades.

Então, tem alguma coisa muito errada aí. Significa que um cuida da educação e o outro não.

O Haddad criou o Ideb, criou o piso nacional da educação, criou o ProUni, criou, aperfeiçoou os institutos técnicos federais. Então, eu acho que nesse aspecto da educação não dá para comparar.

Mas você fez uma pergunta anterior, que é a chance. A eleição começou agora. Eu já vi muitas eleições, eu já tenho estrada, assim, de acompanhar algumas eleições.

Eu já vi eleições em que a pessoa começa absolutamente uma eleição perdida, vem algum escândalo muito grande, denúncias que aparecem e algumas podem vir a surgir ao longo do tempo.

Acabei de ver hoje alguma coisa relacionada à Secretaria da Fazenda, não sei se tem, se não tem, não é isso, né?, que podem mudar o processo.

Hoje, claro, é muito mais fácil Lula ganhar em nível nacional do que Haddad ganhar em nível estadual. As pesquisas mostram isso.

Mas, de novo, é uma fotografia e a gente tem que, com humildade, a partir de agora andar nas ruas, conversar com o eleitor.

Eu agradeço o espaço do Vale aqui, para a oportunidade de conversar não só com São José dos Campos, mas com toda a região.

Aqui a gente tem vários vales, né? Todos tão sagrados quanto. Temos as regiões que são sagradas no aspecto ambiental e temos uma região aqui muito sagrada no lado espiritual, que é Aparecida.

Então, é isso, com muita humildade depois e democraticamente aceitar qualquer resultado das urnas.

Que peso terão na campanha a inteligência artificial, as redes sociais e as plataformas digitais? Elas podem ser decisivas e influenciar o voto?

O TSE fez algumas mudanças que eu espero que possam ser suficientes, pelo menos para essa eleição, enquanto ela ainda está quase 100% parecida com o personagem, né? A gente ainda consegue descobrir algumas coisas.

Eu acho que ela pode, nesse momento, segurar um pouco, eu diria assim, as mentiras, as inverdades, as fake news.

Por exemplo, se a pessoa não me seguir nas minhas redes como candidata, a partir de agora ela não recebe mais os meus... não é impulsionado espontaneamente. Ou seja, não vai chegar. Mesmo que seja um vídeo viral, que tenha 1 milhão de visualizações, ele não vai chegar, não vai ser, a não ser que a pessoa distribua, né, os algoritmos.

Então, tem algumas regras que o TSE colocou nesse momento que eu acho saudável até a gente poder organizar.

Mas a gente se tocou no assunto que vai ter que investir muito num debate democrático, saudável, garantindo sempre a liberdade de expressão, porque ela é sagrada na Constituição.

E é a questão das regras do jogo nas big techs, nas redes sociais, porque tudo que o mundo não precisa e não quer são quatro ou cinco big techs comandando a democracia ou mudando o resultado das urnas no mundo e pendendo, mesmo que seja para a extrema esquerda ou para a extrema direita, seja o que for.

E isso é um risco que nós correríamos se nós não fizermos esse dever de casa.

Só dou um exemplo para encerrar, como há uma diferença, sem cerceamento da liberdade de expressão, com a proteção do cidadão, é o que acabei de ver em relação ao TikTok.

Nós estamos acabando de presenciar o TikTok com – desculpe os termos, mas não é a minha área, não é a minha praia, eu sou da geração analógica, não sou da geração digital –, mas meio que compartilhando dados, informações sobre perfis ou gostos etc. de crianças.

É gravíssimo. Estou falando do TikTok, que todo mundo tem, né? O que isso poderia ou pode estar atraindo de coisas que podem levar a um problema sério de integridade física, sexual das nossas crianças e adolescentes.

Então, é óbvio que, em nome da proteção da família, eu tenho certeza que toda mãe e todo pai pensam isso, que nós não estamos falando de restrição à liberdade de expressão quando a gente coloca regras, como a gente colocou, retirando o celular das nossas crianças nas escolas no período de aula, que eu acho que foi um grande acerto e já se mostrou o resultado na qualidade do ensino de um ano para cá.

A senhora teme o uso da tecnologia para desinformar e espalhar notícias falsas nestas eleições, especialmente nas proximidades da votação? Como combater isso?

Olha, acho que é preciso separar os estados, como São Paulo, dos demais estados, por várias razões.

Há determinados estados, como, por exemplo, do Norte, do Centro-Oeste, em que a rede social para fim eleitoral ainda funciona relativamente menos, tá?

Eu posso apontar vários estados do Norte, mesmo do Centro-Oeste, talvez a exceção talvez do Distrito Federal.

Já no Sudeste, não. Sudeste, as pessoas aqui têm... Eu quero dizer que, no interior, você usa o celular para ver jogo de futebol, para comprar, supermercado e tudo mais.

A política aqui funciona muito na rede digital. Então, se isso acontecer, o risco maior, eu acredito, seja nas grandes cidades, sim.

Mas, assim, não sei o quanto o TSE vai estar preparado para isso, o quanto eles vão poder impulsionar sem que as plataformas sejam obrigadas a derrubar em seguida, imediatamente, rapidamente.

Então, vamos aguardar.

Agora, o que eu sei é que os advogados, os partidos estão atentos e especializados nisso. Eles sabem que hoje mudou.

A grande tela não é nem a da televisão, do horário eleitoral, nem da rua. A grande tela é a tela do celular.

Acho que os advogados dos partidos já estão 100% atentos a isso e acho que, com isso, nós vamos ter esses quatro anos de janela para fazer um dever de casa com muito equilíbrio, mas um dever de casa em relação a esse assunto para a próxima eleição, ou dois anos, para a próxima eleição, que é a eleição municipal.

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