A mãe de Pedro Henrique, de 16 anos, morto após ser baleado em Caçapava Velha, contou neste sábado (22) que a decisão de autorizar a doação dos órgãos e tecidos do adolescente foi tomada para cumprir um desejo manifestado pelo próprio filho antes do crime. Em meio ao luto, Letícia da Costa Silva Lourdes também pediu que o responsável pelo disparo seja identificado e responda pelo que aconteceu.
Segundo Letícia, a conversa sobre doação de órgãos aconteceu pouco tempo antes de Pedro ser baleado. O assunto surgiu depois da morte de uma pessoa no bairro onde a família vive.
“Ele falou para mim: ‘Mãe, se um dia acontecer alguma coisa comigo, eu quero que a senhora doe meus órgãos. Pode doar tudo’”, relembrou.
A mãe contou que, em um primeiro momento, teve dificuldade para autorizar o procedimento por causa do tempo necessário para a captação e do sofrimento vivido pela família. Depois, porém, lembrou-se do pedido feito pelo adolescente.
“A princípio eu não queria, porque é uma demora que fica machucando a gente nesse momento. Mas Deus trouxe isso na minha memória, que era a vontade dele”, afirmou.
A doação de três órgãos e dois tecidos de Pedro poderá beneficiar cinco pessoas. Foram captados os dois rins, o fígado e as duas córneas. Cada rim será destinado a um receptor, assim como cada córnea. O fígado irá para um quinto paciente.
O coração do adolescente também chegou a ser avaliado para transplante, mas não apresentou condições para a doação. Segundo Letícia, o órgão ficou debilitado durante o período em que Pedro permaneceu em estado grave.
“No começo seriam seis, mas Deus sabe de todas as coisas. Já vai estar salvando cinco vidas”, disse a mãe.
Mãe diz que filho tentou se proteger
Durante o depoimento, Letícia também corrigiu informações que, segundo ela, circularam logo após o crime. A mãe afirmou que Pedro não estava na casa da família quando foi baleado.
De acordo com o relato, o adolescente havia acabado de sair de casa e passava por uma rua do bairro quando parou para cumprimentar alguns colegas. Poucos minutos depois, ocorreu o ataque.
“Ele estava dentro de uma residência porque correu para tentar se proteger, mas não era na nossa residência”, explicou.
Segundo Letícia, entre a saída de Pedro de casa e o momento em que foi baleado transcorreram menos de dez minutos.
A família acredita que Pedro tenha sido atingido por engano. A mãe afirmou que, apesar da dor, entrega a responsabilização do autor às autoridades e pediu que a investigação esclareça o crime.
“A gente não vai fazer justiça, mas eu peço que a Justiça da Terra também seja feita”, afirmou.
Letícia disse ainda que a família tem recebido mensagens de pessoas que conviveram com Pedro e relatos sobre a influência que o adolescente exerceu na vida delas. Para a mãe, essas manifestações ajudam a família a enfrentar o luto.
“Conforta a gente saber que, através da vida dele, foram gerados muitos testemunhos”, disse.
Cinco pessoas serão beneficiadas
A captação dos órgãos e tecidos de Pedro Henrique começou no fim da manhã deste sábado, na Fusam, em Caçapava, e terminou por volta das 14h30.
Após o procedimento, dois veículos da Secretaria de Estado da Saúde fizeram o transporte do material destinado aos transplantes.
Pedro doou os dois rins e o fígado, classificados como órgãos, além das duas córneas, classificadas como tecidos. Ao todo, cinco receptores poderão ser beneficiados pela decisão da família de cumprir o último desejo manifestado pelo adolescente.