Às vezes, a pesquisa nos surpreende. Passamos anos formulando perguntas, organizando referências e construindo hipóteses até que, inesperadamente, a realidade responde antes mesmo da conclusão do estudo. Foi exatamente essa sensação que vivi ao presidir a comissão organizadora do Profoco deste ano. Enquanto acompanhava docentes, estudantes, técnicos administrativos e pesquisadores convidados refletindo sobre docência, inovação e compromisso social, tive a impressão de que minha pesquisa havia deixado as páginas do projeto para acontecer, viva, diante dos meus olhos.
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Naquele momento, compreendi que uma universidade sustentável não nasce apenas de documentos institucionais. Ela começa quando a própria universidade decide escutar a si mesma. O que faz uma universidade ser, de fato, sustentável? Essa é a pergunta que orienta meu pós-doutorado, desenvolvido no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP), intitulado Mapeando Vozes, Escutando Silêncios: uma Cartografia da Universidade Sustentável. A resposta não está apenas em planos institucionais, indicadores ou relatórios. Está, sobretudo, nas pessoas que constroem diariamente a instituição e nos diferentes sentidos que atribuem à própria sustentabilidade.
O Profoco tornou visível aquilo que a pesquisa procura compreender. Uma universidade não se transforma apenas por incorporar novos conceitos aos seus planos. Ela começa a mudar quando cria espaços de escuta capazes de reunir perspectivas distintas e construir, a partir delas, um horizonte comum.
Na abertura do evento, uma reflexão da Profa. Dra. Rosamaria Cox Moura-Leite Padgett, fundadora e coordenadora da Rede UniSustentável, sintetizou esse pensamento. Segundo ela, a Agenda 2030 é um caminho seguro, e a universidade não deve ser espelho, mas farol. O espelho apenas reproduz a realidade existente; o farol ilumina os caminhos que ainda precisam ser percorridos. Desde então, essa imagem me acompanha como uma síntese do que procuro construir na pesquisa e na docência.
Essa forma de compreender a universidade também dialoga com minha trajetória acadêmica. No doutorado em Filosofia da Ciência, investiguei a epistemologia de Pierre Bourdieu e sua crítica ao conhecimento científico. Aprendi que nenhuma instituição se explica apenas por indicadores ou discursos oficiais. Ela também é feita de relações, significados, disputas simbólicas e silêncios. Talvez por isso minha pesquisa tenha escolhido começar ouvindo antes de medir.
Percebi, então, que escutar a universidade exigia também criar instrumentos capazes de acompanhar essa trajetória de perto. Foi desse percurso que nasceu o OBSUS, o Observatório da Universidade Sustentável, hoje vinculado ao CEUS. Concebido inicialmente como apoio à pesquisa, tornou-se um espaço de integração entre conhecimento acadêmico e gestão universitária, reunindo projetos, indicadores, documentos e iniciativas de sustentabilidade da UNITAU. Ver esse trabalho apresentado durante o Profoco, ao lado de pesquisadores brasileiros e latino-americanos, foi perceber que uma investigação acadêmica pode ultrapassar os limites da produção científica e tornar-se parte da vida institucional.
Nenhuma universidade se torna sustentável apenas porque assim se declara. Ela se torna sustentável quando aprende a escutar a si mesma, reconhecendo que sua missão não é apenas transmitir conhecimento, mas produzir sentidos, formular perguntas e assumir responsabilidade pelo futuro que ajuda a construir.
Thomas More imaginou, em Utopia, um lugar que ainda não existe, mas que orienta nossa forma de pensar o mundo. Gosto de acreditar que a universidade sustentável também é esse horizonte: não um destino já alcançado, mas uma direção que nos convida, todos os dias, a construir um futuro melhor. Talvez ela nunca esteja pronta. Talvez seja justamente essa a sua maior virtude: continuar nos convocando a caminhar.
É para essa universidade que continuo dedicando minha pesquisa, minha docência e minha esperança.