HISTÓRIA

No Vale, os 'Batalhões da Fé' marcaram a luta na Revolução de 32

Por Xandu Alves | Vale do Paraíba
| Tempo de leitura: 4 min
CDM Santuário Nacional
Batalhão Nossa Senhora Aparecida ou Padroeira do Brasil
Batalhão Nossa Senhora Aparecida ou Padroeira do Brasil

A Revolução Constitucionalista de 1932, iniciada em 9 de julho, deixou marcas profundas na história do Vale do Paraíba. Além de sediar alguns dos confrontos mais importantes da guerra entre as forças paulistas e o governo provisório de Getúlio Vargas, a região também ficou conhecida pela atuação dos chamados "Batalhões da Fé", grupos de combatentes que uniam o ideal constitucionalista à devoção religiosa.

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O movimento tinha como principal objetivo pressionar o governo federal pela convocação de uma nova Constituição para o Brasil. No Vale do Paraíba, a participação popular ganhou um componente singular: a presença ativa de religiosos, seminaristas e voluntários que acreditavam defender, ao mesmo tempo, a democracia e seus valores de fé.

A região foi palco de episódios decisivos da revolução. Em Cunha ocorreu o primeiro confronto entre as tropas constitucionalistas e os fuzileiros navais do governo federal.

Cachoeira Paulista registrou o primeiro bombardeio aéreo realizado por aviões governistas, enquanto Cruzeiro entrou para a história ao sediar o primeiro combate aéreo do Brasil. Lorena, Guaratinguetá e Aparecida também sofreram ataques durante os três meses de guerra.

Nossa Senhora Aparecida nas trincheiras

A cidade de Aparecida, considerada a capital da fé católica no Brasil, tornou-se um dos principais símbolos da presença religiosa na Revolução de 1932.

O Estado-Maior do Exército Constitucionalista batizou uma das frentes de combate como Linha Nossa Senhora Aparecida, também conhecida como Batalhão Padroeira do Brasil, em homenagem à padroeira dos brasileiros.

Embora a Igreja Católica não tenha participado oficialmente do movimento, diversos religiosos manifestaram apoio à causa constitucionalista. Entre eles estava o padre redentorista Antão Jorge, que se destacou pela mobilização de voluntários e pela organização de um hospital militar para atender os feridos.

Instalado no prédio onde hoje funciona a Escola Chagas Pereira, o chamado Hospital da Revolução foi montado com a colaboração da Sociedade São Vicente de Paulo e tornou-se referência no atendimento aos combatentes.

Em uma carta enviada ao arcebispo dom Duarte Leopoldo e Silva, padre Antão demonstrou o entusiasmo dos moradores de Aparecida com o movimento.

"A menor entre as cidades paulistas não quer ser a última a contribuir para o triunfo do ideal pelo qual São Paulo está se batendo."

Além da assistência aos feridos, seminaristas deixaram o Seminário Santo Afonso para integrar as tropas constitucionalistas, enquanto padres brasileiros atuaram como capelães militares nas linhas de frente.

Entre eles estavam o padre Antônio Pinto de Andrade, que acompanhou soldados em cidades como São José do Barreiro e Silveiras, e o padre Geraldo Pires de Souza. Os capacetes utilizados pelos dois religiosos durante o conflito estão preservados atualmente no Museu Nossa Senhora Aparecida.

A proteção da imagem da Padroeira

Com os constantes bombardeios sobre Aparecida, outro desafio surgiu: proteger a imagem de Nossa Senhora Aparecida.

A possibilidade de esconder a imagem em um abrigo subterrâneo chegou a ser discutida, mas gerou preocupação entre os líderes religiosos. O receio era de que a retirada da Padroeira abalasse o moral dos soldados, que costumavam rezar e beijar a imagem antes de retornarem aos combates.

No dia 25 de setembro de 1932, a imagem foi levada para o Palácio São Luís, residência oficial do arcebispo de São Paulo, permanecendo protegida até o fim da guerra.

Após o encerramento do conflito, em outubro daquele ano, padre Antão trouxe a imagem de volta para Aparecida, onde permanece como um dos maiores símbolos da fé católica brasileira.

Batalhão Frei Galvão também fez história

Outro grupo de combatentes ganhou destaque em Guaratinguetá. Batizado em homenagem a Frei Galvão, que décadas depois seria reconhecido como o primeiro santo brasileiro, o batalhão atuou principalmente na Serra da Mantiqueira, nas proximidades do túnel que ligava importantes posições estratégicas.

Segundo registros históricos da Casa de Frei Galvão, a unidade não sofreu baixas durante os combates, fato atribuído pelos próprios integrantes à proteção espiritual do religioso.

"O nome do batalhão foi escolhido pela fé dos paulistas que nele se alistaram em prol de tão nobre causa", registra um dos documentos históricos.

Uma fotografia do artista plástico Ernesto Quissak preserva a memória de parte dos integrantes do Batalhão Frei Galvão, que também ficou conhecido por participar de uma estratégia militar considerada decisiva para obrigar tropas federais a recuarem às posições originais na região de Cunha.

Fé e história caminharam juntas

Passados 94 anos da Revolução Constitucionalista, os chamados Batalhões da Fé permanecem como um dos capítulos mais singulares da participação do Vale do Paraíba no conflito.

Em meio às trincheiras, bombardeios e batalhas, a devoção religiosa tornou-se símbolo de esperança para soldados, religiosos e moradores que acreditavam lutar por um Brasil com uma nova Constituição e maior participação democrática.

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