CRÔNICA

Flutuar crônica

Por Baltazar Gonçalves | especial para o Portal GCN
| Tempo de leitura: 11 min

Há quem apenas passe pela vida, flutuando. Um dizer assim cai estranho, parece um dedo acusador. Ele ou ela é lunático, palavra que já foi diagnóstico de saúde mental no passado. Flutuar ali soa inconsequente e leviano indicando um adulto considerado inadequado para viver e ser produtivo em sociedade. Só uma criança brinca em fantasias enquanto falta comida na mesa, água encanada, educação, e sobram guerras pelo mundo. Já fomos criança, flutuar era o todo e tudo cheio de cor e futuro. O século vinte e um nos trouxe para um mundo estanque, paralisante. As pessoas não se reconhecem paralisadas e compartimentadas em bolhas, nichos, e categorias fixas. Novas palavras são inventadas para capturar a saúde mental e os diagnósticos pululam dos consultórios para as farmácias munindo de significados bélicos uma corrida armamentista contra nossas subjetividades. A indústria da “eficiência & produtividade” vigia os sinais de criatividade, uns são os olhos dos outros e ao menor sinal daquela felicidade infantil, despretensiosa, segue a denúncia, a sentença, e o castigo. Flutuar é perigoso.

O perigo são as ideias que são mais livres hoje, mas circulam em labirintos particulares do tipo telegrama. Tudo expresso no sigilo, talvez por medo dos julgamentos e da repreensão, ou por falta de coragem ou de caráter mesmo. Ninguém conhece de fato mais ninguém. Os desejos foram todos capitalizados, clique por clique nas telas. Enquanto a expressão da libido, força motora da vida, está fora de lugar e em rota de colisão constante, parece vir da agonia de não sermos quem somos as engrenagens que nos subtraem e abastecem os mercados. Na incessante produção de infelicidade em massa, operamos na descontinuidade dos afetos que alimenta o vazio de cada um. Acumulamos atritos sem a possibilidade do gozo, catarse.

Tudo parece novo quando já é velho demais e eu, que sou velho demais para ser ontem, sinto urgência de flutuar para ter uma vida boa. Abandonar de vez os agrupamentos presos nas cronologias do prestígio e da empáfia sem lastro, sem base fundamento, sem alicerce de sustentação, sem a consistência da credibilidade. No amanhecer de hoje, a criança que flutua em mim lembrou disso tudo com esta pergunta boba: o que é uma vida boa?

Quando uma criança faz pergunta, já tem uma resposta suficiente. O Toninho menino que habita em mim responde que vida boa é poder não fazer nada. Escrever é uma brincadeira séria, um trabalho mal remunerado porque pouco reconhecido. Será mesmo que o trabalho dignifica o homem ou seria a distribuição mais justa de renda o motor das alegrias no mundo? Escrevo para resgatar o valor do instante, do momento, do agora, da palavra. Quando dançávamos nossa música preferida o mundo era futuro aberto. Não pode ser ridículo dançar no meio dessa gente cafona que insiste retardar o envelhecimento a qualquer custo. Essa é a única vida disponível, não temos outra. Se perdermos o norte dos propósitos coletivos, que sejamos capazes de inventar pequenos motivos. Criar é o mesmo que reconhecer-se. Talvez possamos flutuar na próxima página do livro da vida, o escrevermos flutuando que significa tornar possível ao pensamento navegar o desconhecido. Eu encontrei na poesia o permear realidades. Não existe receita ou manual para flutuar.

Sabe-se que para flutuar é preciso estar leve, esvaziar a bagagem e o ego aceitando nossa insignificância no universo. Foi Dona Eulália que me ensinou outro dia quando esteve na papelaria: quem não se entende ignorante, em alguma medida corre o risco de desaprender o que supunha sabido. Das coisas inúteis fundamentais, como dormir à tarde após o almoço ou parar de ler um livro chato sem culpa ou desculpa, flutuar é o melhor. Tudo cabe dentro do pensamento desatado que mete medo. Quem vive sem medo parece louco, parece livre. A liberdade é desejada, mas assusta quem se prendeu por vontade ao não. Flutuar é um sim sem fim. É o pensamento à toa, descuidado. Estar de ponta cabeça para ver os sentidos opostos. Eu finjo quanto posso estar plantado, feito samambaia em vaso. Finjo tão completamente que chego a acreditar por um minuto longo, longo e dolorido. Talvez eu disfarce em busca de identificação com os outros vasos, buscando aprovação de outras samambaias.

Toda gente sabe que fazer concessões para ser aceito é tentador, mas a estufa onde vicejamos é tão grande que não vemos as paredes de vidro dela e seu limites descomunais. Na vidraça da existência, flutuar por um pensamento um pensamento solto desamarrado infantil é também recobrar nossa imagem e semelhança no reflexo da humanidade embaçada no orvalho que evaporo.

Quando escuto alguém que não sabe flutuar, evito ser cruelmente honesto. Não é saudável provocar tanto alguém pode sacar uma receita de clonazepan e medicar minha alegria como se fosse insanidade. Insanidade é repetir o que se faz esperando resultado diferente, eu peço a deus por errar contra o consenso e ter coragem para dizer isto: flutuar é a única forma legítima de sobrevivência no caldo plasmático assombroso que é nosso tempo.

Nesse labirinto dos propósitos soterrados pela falta de boa vontade, sabemos muita coisa que não serve para nada. Fazer arte é aplicação prática do saber. Eu escrevo para pensar melhor, para unir passado e presente e salvar memórias, para curar meus males e alguns alheios porque não raro me pedem ajuda quem de não flutuar já adoeceu. Escrevo para esclarecer os tolos, também para confundir os sábios. Estamos todos no mesmo aquário, olhando na direção do rio e sonhando com o mar. Ou pior, cardume de atum enlatado.

Por falar nisso, outro dia precisei abrir uma lata de atum e não encontrava o abridor. Só depois que desisti do ômega 3 é que percebi: para perder certas coisas, basta guardar. Flutuei pensando quanta coisa se guarda para depois, para um dia se. Quem guarda julga precisar. A necessidade talvez não seja real, mas o avesso de uma fantasia, ou a expectativa de um futuro tempo de carestia, ou a lembrança da insegurança vivida quando na mesa faltava pão. A insegurança crônica gera medo e medo não assegura nada, além de algum motivo para começar essa crônica. Esse pode ser o melhor o melhor momento para dizer que o tempo não existe. Quando finalmente abri a lata de atum, já tinha concluído que o medo tem medo de sentir medo. Por insegurança desejamos controlar todas as variáveis de uma circunstância. O medo cresce como massa fermentada no forno quente. Manter o controle o tempo todo embrutece, perde-se o espaço por onde fluir. Só o amor honesto e não entra nessas contas. O amor não prende, nem controla, o amor não teme. O amor só é complete quando acaba, é quando abarca o inteiro de nós. 

Vivemos um único dia em toda nossa vida. Não existe outro dia, apenas esse. Não existe um aparelho divino cronometrando os segundos da nossa estadia na Terra. Existe só o agora. Distribuímos tarefas no agora, coisas que se fazem: hora de dormir, de acordar, de trabalhar. Trabalhar, trabalhar, trabalhar. É preciso parar e respirar e flutuar porque mentiram dizendo que o trabalho dignifica o homem. O que honra, valoriza e enaltece nossas vidas é a distribuição de renda justa.

Hoje pela manhã passei em frente ao posto Franca-Araxá quando fui ao trabalho, a escola fica no bairro City Petrópolis e para lá se chega pela rodovia Candido Portinari. O vento prometia dispersar a chuva e o frio, o dia era uma lata de atum aberta e o sol parecia irradiar ômega 3. Meu pensar flutuou sobre essa rodovia que tem 170 mil neurônios de extensão, o ruído que ela produz no vai e vem leva minha infância. Minha juventude se deu na Vila São Sebastião e dos nove aos doze eu dormia inventando destinos para os passageiros que nunca conheceria. Cândido Portinari, uma via de histórias para viver longe. O caminho do feijão e do sonho, do ferro carbono cimento construção. Em cada metro que liga Rifaina a Ribeirão Preto, a pista acorda Minas Gerais quando cedo o sol nasce no meu peito. Assim. Flutuando cheguei na alça de acesso do Jardim Guanabara, o fluxo de carros estancou parando meus pensamentos como um carro que pudesse colidir com outro. Era isso! Um acidente terrível com vítimas. Histórias interrompidas. A matéria. A realidade intransponível do fim. O acontecendo. O fato. Onde a poesia nasce não se traduz violência. Silêncio e prece. Os carros voltaram a serpentear lentamente contornando as autoridades médicas e policiais e repórteres que fariam audiência da noticia mais tarde. Cheguei ao trabalho e anotei o próximo parágrafo:

Minha poética não se copia, ninguém de bom senso deseja tornar público o próprio ruir-se. Dos que são exatamente o que expressam, eu sou inconcluso, incompleto, e obtuso. Por menos alfabetizado que seja, qualquer pessoa vê que minha poesia é um erro. Não digo isso por demérito, auto depreciação. Ou pior, evocando autopiedade. Erguer-me e a tudo que toco a partir do erro é a minha vaidade. Tudo que estruturo ou é desenho da falta ou fruto crônico do erro. Se num momento pareço regular é porque já estou reformando o que deixei aparente. Quando me deixo levar na crença da multidão, não estou indo mas voltando. Abaixo dentro no fundo acumulo a rasura do mundo no meu desfazer constante. Era doído permanecer nos pontos fluidos do desvio, até eu perceber que não sou o que desvia, mas o próprio desvio. Eu sou na parte da incapacidade o eficiente, sou o poder corrosivo ascendente da imponência declarada.

Antes ter paz que razão, se posso meter ao leitor um conselho aqui vai: não tente provar que é boa pessoa, as pessoas preferem sentir raiva e ódio, conte você mesmo a sua versão dos fatos porque em histórias mal contadas o vilão será sempre quem silencia. Pare de procurar profundidade em vínculos rasos, algumas pessoas vivem em constante negação da realidade e nada vai mudar isso. Não dê atenção a quem não merece seu tempo. Não insista em ficar na vida de quem vai na direção contrária. Aceitar despedidas, por mais difíceis que sejam, é necessário para reconduzir sua jornada. Não romantize as relações, quem não manifesta interesse genuíno por nada também não te enxerga, muito menos te ouve. Muitos “amigos” são apenas vampiros que não descansam enquanto você dorme. Pare de levar em consideração o que as pessoas falam de você e comece observar seus comportamentos. Nada revela mais verdades que a contradição entre discurso e prática. Quase nada podemos contra o Leviatã e suas guerras, mas existe um antídoto eficaz.

Assim como a palavra lunático hoje em dia diz pouco além do seu passado, o nome do antídoto para a dureza do existir também é uma palavra muito lavada, desbotada de tão usada, alvejada e esfregada muitas vezes, esquecida ao sol escaldante, abandonada sob tempestades, mastigada, ingerida, regurgitada e aqui escrita: AMOR. Amar no silêncio de planta em movimento de gavinhas entrelaçadas, amor de trepadeira que busca sol nas alturas. Eis o elixir: fazer amor nos salva. O amor é lindo na diversidade manifestada. Amor de samambaias, de espirradeiras, de margaridas e mandacarus, cravos crisântemos jasmins. Amar semeando uma via láctea de flores, colhendo afeto e respeito com o tesão que um dia soubemos parte integral da pulsão de vida. Ao contrário do que as cartilhas mentem, a vida não é curta. A vida é curva. Por isso permita-se um olhar amoroso sobre você mesmo, seja inteiro em toda fase, em cada momento, do plantio à poda e da flor ao fruto. E deixe flutuar.

Há muitas interpretações para uma metáfora aberta, quando ouço Cassia Elller cantando com Nando Reis penso que o segundo sol é você e eu, num instante em que percebemos ter tudo de que necessitamos. Um instante de gratidão faz a gente flutuar. Melhor desacelerar o corre do dia a dia, talvez nada seja mesmo desesperadamente necessário. Flutuar para um instante de presença, de conexão humana fácil, simples e gratuita, sem especialistas, doutores e juízes. O segundo sol é a samambaia que desperta sob o sol do inverno que se inicia. Planta-pensamento de raiz aérea e folhagem viçosa, brotos tenros, aveludados e hirtos rompendo a crítica da razão pura, e flutuar.

Flutuar como as maritacas no cerrado que agora estão conversando. Umas aves avisam as outras. Parece dever sagrado, mas é puro instinto de alegria. Também as descuidadas saberão da novidade: as primeiras flores do ipê rosa desabrocharam. Um coro canta amém na linguagem dos pios. A gritaria por ora discreta, tão mansa quanto sentir que o tempo não existe, logo será alarido. Já é possível vislumbrar o milagre de todo ano, e por aqui termino esse longo flutuar: no bojo do inverno seco, torna-se vislumbrar primavera particular. Flutuemos sobre as árvores sabendo que o que deus fez ali está posto.

Baltazar Gonçalves é formado em História pela Unesp, pós graduado em Terapia Comportamental Cognitiva pela Faculdade Metropolitana do Estado de São Paulo (FAMEESP), é educador na rede publica estadual, mediador de leituras, agente cultural e membro da Academia Francana de Letras

Comentários

Comentários