JUNHO VIOLETA

Violência contra idosos exige resposta de toda a sociedade

Por Kátia Maria Deola |
| Tempo de leitura: 2 min
Servidora pública aposentada, gerontóloga e vice-presidente da Admap (Associação Democrática dos Aposentados e Pensionistas) do Vale do Paraíba
Reprodução/Freepik

O Brasil está envelhecendo rapidamente. Segundo o último Censo (2022), o país já tem mais de 32,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, o equivalente a 15,6% da população. Viver mais é uma conquista coletiva, resultado de avanços sociais, científicos e sanitários. Mas essa conquista perde seu sentido quando a longevidade, em vez de ser vivida com autonomia, cuidado e respeito, passa a ser marcada pelo medo, pela negligência e pela violência.

Envelhecer não é uma realidade distante: é o caminho natural de todos nós. Colocar-se no lugar da pessoa idosa é compreender que ninguém deveria chegar a essa fase da vida tendo seus direitos violados, sua voz silenciada ou sua dignidade tratada como um peso.

A violência contra a pessoa idosa é uma das faces mais graves — e ainda muito escondida — da nossa sociedade. Ela acontece dentro de casa, nas instituições, nas relações familiares, nos serviços públicos insuficientes e, muitas vezes, sob a aparência de “cuidado”. Essa violência surge como agressão física, humilhação, abandono, negligência, exploração financeira, ameaça, isolamento ou apropriação indevida de aposentadorias e pensões.

É preciso olhar para esse problema com sentido de urgência e humanidade, aproveitando o ensejo do 15 de junho, Dia Mundial de Conscientização sobre a Violência contra a Pessoa Idosa.

A socióloga e doutora em Saúde Pública Maria Cecília de Souza Minayo, referência nos estudos sobre o tema, observa que a violência contra idosos faz parte de um fenômeno social mais amplo e está presente em diferentes sociedades. No Brasil, ela ganha contornos próprios: mistura desigualdade, dependência econômica, precarização das políticas públicas, sobrecarga das famílias e naturalização do abandono.

Os dados recentes do Disque 100 confirmam a gravidade do cenário. Entre janeiro de 2024 e abril de 2026, foram registradas mais de 435 mil denúncias relacionadas a violações de direitos de pessoas idosas no país.

Esses números não podem ser tratados apenas como estatística. Eles revelam uma violência cotidiana, muitas vezes praticada por pessoas próximas, inclusive familiares. Também mostram que a denúncia, embora essencial, não basta. É preciso garantir resposta rápida, acolhimento, investigação, responsabilização dos agressores e proteção real à vítima.

Por isso, combater a violência contra a pessoa idosa precisa ser uma política de Estado, articulada nas três esferas de governo. Também é indispensável investir em campanhas permanentes de conscientização. O Junho Violeta tem papel importante, mas não pode ser uma ação isolada no calendário. A sociedade precisa ser informada o ano inteiro, em linguagem simples e acessível, de que violência contra idosos não é apenas agressão física. É também negar remédio, reter cartão bancário, tomar benefício, impedir convivência social, ameaçar, abandonar, infantilizar, humilhar ou decidir pela pessoa idosa sem respeitar sua vontade.

O Estatuto da Pessoa Idosa já estabelece que nenhuma pessoa idosa deve sofrer negligência, discriminação, violência, crueldade ou opressão. O desafio é fazer com que esse direito saia do papel e chegue à vida concreta das pessoas.

Kátia Maria Deola, servidora pública aposentada, gerontóloga e vice-presidente da Admap (Associação Democrática dos Aposentados e Pensionistas) do Vale do Paraíba

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