A disciplina violenta do PCC.
Homens ligados ao tráfico de drogas na região sul de São José dos Campos foram brutalmente torturados com pedaços de madeira em ação de “disciplina” imposta por membros do PCC (Primeiro Comando da Capital), a principal facção criminosa do país.
Clique aqui para fazer parte da comunidade de OVALE no WhatsApp e receber notícias em primeira mão. E clique aqui para participar também do canal de OVALE no WhatsApp
As agressões circularam em vídeo que mostra dois homens sendo agredidos a pauladas. Eles sofreram lesões graves e precisaram ser hospitalizados. As imagens levaram policiais a identificar os autores, que tiveram a prisão temporária decretada pela Justiça. Um deles foi preso, e o outro segue foragido.
O principal suspeito foi detido na manhã de quinta-feira (4), por policiais civis do 3º Distrito Policial de São José dos Campos, com apoio da Diju (Delegacia da Infância e Juventude).
Eles deflagraram a Operação Combate ao Terrorismo, destinada a apurar grave caso de tortura praticado por integrantes do tráfico de drogas na zona sul de São José.
Segundo a Polícia Civil, as agressões são utilizadas por traficantes para impor medo, aplicar castigos e exercer controle sobre a comunidade por meio da violência. Os homens foram torturados com pedaços de madeira, prática criminosa conhecida como "madeirada".
“Eles impuseram o que chamam de constituição da facção, o código que trata das condutas, o lance da disciplina. Na prática, quem pune é que define o que é certo ou errado”, disse um policial envolvido na operação.
Agredidos teriam se envolvido em furtos
O investigado preso teria confessado as agressões durante depoimento, alegando ter agido como forma de represália após um suposto furto cometido contra sua mãe.
Também há informações ainda sem comprovação dos investigadores de que os homens agredidos teriam se envolvido em furto a uma loja ligada a um dos traficantes.
As vítimas seriam usuárias de drogas que trabalham para os traficantes para custear o próprio vício, o que acaba levando a envolvimento com furtos e roubos na própria comunidade, o que é proibido pelo código de conduta do PCC.
“A hora que os traficantes se incomodam ao ou eles fazem alguma besteira no local, chamando a atenção, eles são punidos. Pode ser até com pena de morte, que é mais difícil”, afirmou o policial.
Investigado foi preso na operação
Um dos investigados, identificado pelas iniciais J.L.F., foi capturado durante a operação. Em sua residência, foram localizadas munições de calibre .40. O segundo investigado não foi localizado e permanece foragido.
As apurações apontam que o suspeito possui extensa ficha criminal e responde a um processo por homicídio que deverá ser submetido ao Tribunal do Júri. O histórico do investigado passou a integrar o conjunto de informações analisadas pelos responsáveis pelo caso.
Outro elemento que chamou a atenção dos investigadores foi o conteúdo de mensagens e conversas atribuídas ao suspeito. Segundo a polícia, ele se autodenominava "talibã" e "profissional do crime" em comunicações obtidas durante a investigação. O material será periciado e analisado para auxiliar no esclarecimento da atuação do grupo.
Informações sobre foragidos ou atividades criminosas podem ser repassadas anonimamente pelo Disque Denúncia 181. As informações também podem ser enviadas diretamente para a equipe policial, pelo WhatsApp: (12) 99709-6427. O sigilo é garantido.
Cartilha do PCC
Batizada de ‘Cartilha de conscientização, união e família - Para uma Geração Consciente’, a cartilha com o código de conduta do PCC foi revelada em 2007 pelo jornalista Guilhermo Codazzi, editor-chefe de OVALE.
O documento é destinado aos integrantes e 'simpatizantes' do PCC, trazendo a doutrina da facção, o seu código de conduta.
Além dela, outros 'documentos' da facção trazem uma espécie de "código penal" dos criminosos.
São 45 regras que determinam como os membros do grupo criminoso têm que se comportar dentro e fora dos presídios. Uma espécie de manual de bom comportamento.
O código lista e pune o uso e abuso de drogas (exclusão por 90 dias) e uso de drogas não permitidas (exclusão sem retorno) – neste caso, o crack é proibido pela facção.
Também são punidas a talaricagem (sedução de pessoa envolvida com outra), ratiagem (pegar algo sem permissão), oportunismo (tentar prejudicar um membro) e falta de transparência (deixar passar algo que tem conhecimento).
A cartilha do PCC é tão rigorosa que pune, por exemplo, os homossexuais. Um dos artigos trata de ‘Pederastia’: manter relação sexual com pessoas do mesmo sexo. Se culpado, a pena é exclusão sem retorno.
Membro da facção que rouba ou furta outro membro também é passível de punição. Dependendo do caso, ela pode ser bastante violenta, como no caso em São José dos Campos.
A cartilha é quase como um compliance do crime, a maneira como o PCC encontrou de manter regras rígidas para o grupo cuja missão é quebrar as regras do sistema.