VOTAÇÃO

Criadas em São José, urnas eletrônicas fazem 30 anos sob ataque

Por Da redação | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 5 min
Rovena Rosa/Agência Brasil
Preparação de urnas eletrônicas para as eleições
Preparação de urnas eletrônicas para as eleições

Criadas com participação decisiva de pesquisadores do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) e do antigo CTA, atual DCTA (Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial), todos de São José dos Campos, as urnas eletrônicas brasileiras completaram 30 anos nesta semana cercadas por um paradoxo: ao mesmo tempo em que se consolidaram como símbolo da modernização democrática do país, também passaram a ser alvo constante de ataques políticos e campanhas de desinformação.

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A história da urna eletrônica começou muito antes da popularização dos computadores pessoais. O desejo de mecanizar o voto já aparecia no Código Eleitoral de 1932, mas o projeto só ganhou força no fim dos anos 1980, quando a Justiça Eleitoral iniciou a informatização do cadastro nacional de eleitores.

O grande salto aconteceu em 1995, durante a gestão do ministro Carlos Velloso na presidência do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). A partir dali, especialistas de diversas áreas foram convocados para desenvolver o chamado CEV (Coletor Eletrônico de Votos), embrião da urna eletrônica atual.

Entre os profissionais envolvidos estavam pesquisadores do Vale do Paraíba, que ficaram conhecidos nos bastidores como “os ninjas”. O grupo reunia nomes como Paulo Nakaya, Mauro Hashioka, Giuseppe Janino, Oswaldo Catsumi e Antônio Ésio Salgado, o “Toné”, professor do Departamento de Informática da Unitau (Universidade de Taubaté) e pesquisador ligado ao Inpe.

Criação da urna eletrônica em São José

Toné participou diretamente do processo de informatização eleitoral e relembra que a Justiça Eleitoral já trabalhava em parceria com o Inpe antes mesmo da criação da urna.

“O Inpe já fazia parte de um projeto patrocinado pelo Programa das Nações Unidas para melhoria do sistema informatizado da Justiça Eleitoral. A gente ajudava na parte de comunicação de dados e especificação de equipamentos. Já estávamos no TSE havia dois anos fazendo um trabalho muito grande”, afirmou ele em entrevista à rádio CBN Vale.

Segundo ele, o contexto político da época foi decisivo para acelerar o projeto. O país enfrentava sucessivos problemas de apuração, principalmente em grandes centros urbanos, onde denúncias de fraudes e demora na contagem dos votos eram frequentes.

“O ministro Carlos Velloso entrou no TSE justamente em uma época em que estavam acontecendo muitos problemas com relação ao escrutínio no Rio de Janeiro e em outros estados. A totalização dos votos apresentava problemas. Então ele viu a possibilidade de criar um equipamento específico para mitigar isso”, explicou.

A partir dessa decisão, o TSE formou uma comissão técnica nacional com representantes das Forças Armadas, Ministério das Comunicações, Justiça Eleitoral e pesquisadores especializados em computação e segurança digital.

“Convocaram especialistas da Aeronáutica, Marinha, Exército e a equipe do Inpe inteira foi chamada para participar do projeto porque estavam satisfeitos com o trabalho que fazíamos na informatização da Justiça Eleitoral”, contou o professor da Unitau.

Primeira eleição com urna eletrônica

A primeira eleição com urnas eletrônicas aconteceu em 1996. Naquele ano, cerca de 32 milhões de brasileiros votaram utilizando aproximadamente 70 mil equipamentos distribuídos em 57 cidades do país. A operação contou até com apoio da Força Aérea Brasileira para garantir que as urnas chegassem a tempo aos locais de votação.

Antes da informatização, o cenário eleitoral brasileiro era marcado por demora, desorganização e suspeitas constantes de fraude. A apuração manual podia levar dias ou semanas. Cédulas eram rasuradas, votos desapareciam e urnas de lona podiam ser extraviadas ou até substituídas.

A implantação do sistema eletrônico mudou radicalmente o processo eleitoral brasileiro. A totalização dos votos passou a ocorrer em poucas horas, eliminando grande parte da interferência humana na contagem.

Urna é alvo de ataques

Ao longo das últimas três décadas, a urna passou por sucessivos processos de modernização. Atualmente, os sistemas eleitorais possuem cerca de 30 camadas de segurança, incluindo criptografia, assinaturas digitais, rastreabilidade de arquivos e mecanismos físicos e digitais de proteção. Apesar disso, os ataques ao sistema nunca cessaram.

Pesquisa do Projeto Confia, iniciativa do Pacto pela Democracia, revela que mais de 45% dos conteúdos falsos sobre eleições compartilhados nos últimos ciclos eleitorais tinham como alvo o funcionamento das urnas eletrônicas.

“A urna eletrônica é objeto de ataque desde sempre”, afirmou Toné. “Existem dois tipos de ataque: os de pessoas tecnicamente preparadas, e esses são importantes porque ajudam na evolução do sistema, e os ataques de pessoas que não conhecem o contexto completo do sistema eleitoral brasileiro.”

Segundo o pesquisador, a falta de informação sobre os mecanismos de auditoria e fiscalização ajuda a alimentar desconfianças infundadas.

“Seria importante as pessoas conhecerem todas as barreiras existentes para evitar qualquer tipo de fraude. Isso deixaria boa parte delas muito mais tranquila”, disse.

Entre os mecanismos de fiscalização estão o Teste Público de Segurança, realizado periodicamente pelo TSE, o Teste de Integridade das Urnas, a cerimônia de lacração dos sistemas e auditorias acompanhadas por partidos políticos, Ministério Público, Polícia Federal, OAB e universidades.

Retorno do voto impresso

“A urna eletrônica está preparada para isso. Mas o que vão fazer com esse voto impresso? Não dá para contar o voto impresso e usar o voto eletrônico para conferir. Isso seria uma regressão”, afirmou Toné.

Para ele, a sociedade já abandonou o papel em praticamente todos os processos do cotidiano. “Hoje tudo é eletrônico: bancos, governo, comércio. Nem assinatura eu faço mais em papel. Então causa estranheza essa necessidade de voltar ao papel”, completou.

O professor da Unitau explicou que a urna é modernizada com regularidade, o que garante a segurança do sistema de votação.

“A urna, aparentemente, tem a mesma carinha desde sempre, mas por dentro ela é toda modernizada. À medida que novos ataques vão surgindo, vão sendo descobertos, a gente implementa na urna novos mecanismos de defesa, novos mecanismos de segurança. É uma coisa que evolui constantemente”, disse o especialista.

“A Justiça Eleitoral mantém um estudo contínuo sobre a modernização. Então, não há dúvidas sobre o processo e isso é muito legal”, afirmou.

Protagonismo nas eleições

Mesmo sob ataques políticos nos últimos anos, a urna eletrônica ganhou protagonismo como símbolo da democracia brasileira, especialmente após as eleições marcadas por questionamentos ao sistema eleitoral.

Nas eleições municipais de 2024, mais de 153 milhões de eleitores utilizaram cerca de 570 mil urnas espalhadas pelos 5.569 municípios do país, consolidando o Brasil como responsável pela maior eleição totalmente informatizada do mundo.

Ao completar 30 anos, a urna eletrônica segue como uma tecnologia genuinamente brasileira criada no Vale do Paraíba e transformada em referência internacional de rapidez, auditabilidade e segurança eleitoral.

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