TRÍPLICE DIVISA

Alvo de facções, Vale terá reforço nas operações entre polícias

Por Luyse Camargo e Xandu Alves | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 10 min
Reprodução
Policiais dos três estados durante Operação Divisa
Policiais dos três estados durante Operação Divisa

A integração entre as forças de segurança de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais vai proporcionar reforço na vigilância da chamada tríplice divisa entre os três estados, bem na região do Vale do Paraíba.

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Para reforçar essa integração e planejar ações conjuntas, representantes das forças de segurança dos três estados reuniram-se na manhã desta terça-feira (4), em São José dos Campos, para compartilhar práticas e informações de inteligência e estratégias integradas de combate ao crime organizado.

O encontro “Reunião de Tríplice Divisa” foi convocado pelo comandante da Polícia Militar no Vale do Paraíba, coronel Luiz Fernando Alves, e aconteceu no auditório do Copom do CPI-1 (Comando de Policiamento do Interior-1), em São José dos Campos.

Participaram do encontro oficiais de inteligência dos três estados, como os coronéis Célio Cesar dos Santos Aparecido (MG), Robson Cardeal (RJ) e Olavo Otávio Ramos (RJ).

A reunião visa combater estrategicamente a criminalidade de forma geral e a circulação e atuação criminosa interestadual. Os pilares da integração entre as polícias dos três estados são inteligência, operacionalização do efetivo e agilidade das atuações.

Em entrevista após o encontro, Alves falou sobre a operação conjunta e reforçou que o crime organizado deve ser combatido com inteligência policial.

Também participaram da entrevista o coordenador do Gaeco, Alexandre Castilho, e o coronel Carlos Henrique Lucena, ex-comandante da PM no Vale e atualmente no Copom da PM (ambos estão sinalizados nas respectivas respostas).

 

Qual a importância dos três pilares da integração?

Bom, esses três pilares são importantíssimos para que a gente tenha as vitórias no combate ao crime organizado. Quais são esses pilares? A inteligência policial, como eu vou operacionalizar o meu efetivo e a velocidade dessa informação. Esses três pilares precisam trabalhar de forma conjunta, para que a cada operação eu tenha a vitória naquilo que eu busquei combater.

A inteligência policial hoje é fundamental. Sem ela, eu não consigo produzir uma boa operação. Como eu vou alocar o meu efetivo no terreno e a velocidade desta informação. Não adianta eu chegar antes e não adianta eu chegar depois. O crime é muito versátil, consegue migrar de forma muito rápida e com a utilização da nossa inteligência policial, eu preciso combater desta forma.

 

Há alguma operação já prevista para acontecer?

A data será divulgada de forma oportuna. Cada um aqui no seu estado e na sua área com as missões. Para que a gente possa produzir o maior número de mandados de busca e prisões. Tão necessários para que a gente possa combater a criminalidade.

Combater todos os crimes, não só o tráfico, mas principalmente aqueles que têm necessidade de cometer homicídios, roubos e outros. A importância de não focar só em um delito. É lógico que a gente fala, sempre repete, o tráfico é rainha de todas as demais modalidades de crime. Ele acaba arrastando todos os outros crimes. Nós percebemos que tem uma interligação muito perniciosa de todos os crimes com o tráfico de drogas.

Combatendo o tráfico, indiretamente, a gente passa a combater todos os outros delitos. Mas importante frisar que a nossa região, nós estamos num momento histórico muito importante com a redução histórica de todos os nossos indicadores. Não só do crime de homicídio, de roubo, a prisão e apreensões são históricas também aqui na nossa região. Então, assim, combatendo de forma muito efetiva o crime, a criminalidade, estando muito presente para a população, servindo e protegendo.

 

A que o senhor acha que se deve a redução dos índices criminais?

Não tem uma fórmula mágica. Uma atuação muito constante de forma é operacional do nosso efetivo policial militar, junto com as demais forças de segurança, utilizando hoje todos os mecanismos. Muralha Paulista, reconhecimento facial, inteligência artificial, a inteligência policial, tudo isso daí em prol do policial militar que está na ponta da linha, o verdadeiro herói, para combater a criminalidade, colocando-se por vezes em risco. Se colocando à prova a todo momento para levar para a população a segurança tão necessária para que a gente tenha uma vida em sociedade, em paz.

 

Qual é o objetivo dessa reunião?

O objetivo da reunião é essa união da tríplice divisa entre o estado de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, que já acontece há bastante tempo. Isso vem rotineiramente acontecendo, essas reuniões, e de forma muito estratégica operacionalizar o nosso efetivo em três eixos fundamentais. A parte de inteligência policial, como eu vou operacionalizar o meu efetivo e a velocidade da informação, para que a gente possa efetivamente combater esse fluxo de crime que acontece entre os estados.

O objetivo é essa união de forças e esforços, tanto da Polícia Militar, a Polícia Civil, o Ministério Público hoje aqui representado pelo Gaeco, para que a gente possa dar fluidez nessas operações, combatendo a criminalidade e levando a percepção de segurança à população.

 

Há casos de crime organizado aqui na região do Vale do Paraíba?

Com certeza. Isso já foi declarado até mesmo pelo nosso governador. Nós temos crime organizado na nossa região, mas não basta só saber que existe o crime organizado. A gente precisa mensurar isso, precisa ter estratégia de combate ao crime organizado. Isso daí não é uma característica só da nossa região.

Muitos vêm falando que outras facções adentram a região do estado de São Paulo, mas também as nossas facções adentram o estado do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Então, a importância desta reunião é que possamos traçar estratégias conjuntas no combate ao crime organizado.

 

Há migração de criminosos do Rio e de Minas para o Vale? E do Vale para os outros estados?

Nós temos problemas pontuais que são conhecidos e combatidos. A intenção desta união é para que não haja essa transferência de faccionados fugindo de um local para o outro ou migrando, até mesmo com intenções criminosas. No momento, não tem nenhum tipo de migração do Rio de Janeiro para as outras localidades, mas a importância sempre de estar de forma muito unida, de forma muito sincronizada, combatendo os crimes locais e impedindo que haja essa migração.

 

Foi falado sobre a questão da inteligência humana, hoje a gente vê muito também a presença da questão da tecnologia. O que foi de fato também debatido sobre isso? É fundamental?

Hoje nós trabalhamos em três eixos fundamentais. Inteligência policial, como eu vou operacionalizar o meu efetivo e a velocidade dessa informação. A tecnologia é fundamental. A utilização, por exemplo, de planos de monitoramento, de reconhecimento facial e toda tecnologia disponível de inteligência artificial no combate à criminalidade, é fundamental para que a gente possa de forma estratégica operacionalizar o efetivo e combater o crime.

 

Como é o trabalho de inteligência no combate ao tráfico de armas e drogas pelas rodovias estaduais?

Coronel Lucena: Estamos aqui nessa reunião com as polícias militares e civis do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo e o Ministério Público, justamente para o planejamento de operações conjuntas, com a transmissão em tempo real de informações e também a inteligência criminal conduzindo o efetivo policial para onde e quando precisa, de forma cirúrgica.

Com isso nós vamos aumentar a produtividade dentro de um plano de policiamento inteligente integrado entre todas as forças, tendo aqui no Vale do Paraíba essa tríplice divisa e com as vias de acesso e as informações privilegiadas, conseguir uma grande produtividade operacional reduzindo cada vez mais os indicadores criminais, que por sinal estão em baixa aqui na região.

 

As principais ligações da nossa região com o estado do Rio de Janeiro são pela Via Dutra e também pela Rio-Santos, ou seja, rodovias de jurisdição federal. Há essa comunicação com a PRF?

Coronel Lucena: Exatamente, serão bloqueios conjuntos. Estaremos lado a lado, uma viatura da Polícia Militar, uma viatura da PRF e também o Deinter-1 vai ceder aqui uma delegacia móvel, praticamente, que estará também junto para a lavratura da parte judiciária já ali na pista.

A Polícia Rodoviária Estadual dos estados nas rodovias estaduais, mesmo que não tenha uma ligação direta entre São Paulo, Minas, Rio, também leva uma ação integrada de sinergia, porque às vezes pode ter um bloqueio em tal rodovia, eu pego uma vicinal, eu vou pela outra, então nós vamos fazer operações de maneira simultânea em várias rodovias, em várias avenidas e não vai ficar limitado somente a bloqueio. Teremos outro tipo também de incursões operacionais.

 

Coronel Alves: Nós estamos desde o dia 8 de novembro de 2024 fazendo operações rotineiramente de forma diuturna em adegas. A gente mostrou essa correlação muito precisa das adegas com os homicídios aqui na nossa região. 10% acontecem dentro da adega, 25% até 100m, 52% até 1 km.

Mas o marginal que cometeu homicídio ou aquele que foi morto, nós estamos hoje com 75% de reincidência criminal, 73% daqueles que têm reincidência criminal, acontecendo dentro deste ambiente e com uma correlação muito perniciosa também com o tráfico de entorpecentes, a lavagem de dinheiro, mostrando faccionados envolvidos desse tipo de atuação, não só pela lavagem de dinheiro, mas pelo cometimento de outros crimes, como tráfico, homicídio, ligados a esse tipo de estabelecimento.

Então, nós estamos combatendo. Os números nossos são expressivos tanto nas prisões de marginais, que estavam nessas localidades, apreensões de armas de fogo, retiradas de entorpecentes que estavam nessas localidades, mais de toneladas de entorpecentes.

 

Esses faccionados são do PCC ou do Comando Vermelho?

Várias facções. Não só PCC, Comando Vermelho em alguns pontos. Então, em determinados locais nós temos hoje, sim, a entrada de faccionados de outros estados, de outras facções que não só o PCC, mas com uma característica muito importante. Utilização desses ambientes para lavagem de dinheiro. Nós estamos combatendo. Como eu falei, não basta só saber. Estamos produzindo de forma muito forte, de forma muito incansável. Essa união é muito forte entre as forças de segurança.

Então, todas as forças aqui dos outros estados, não só a Polícia Militar, mas a Polícia Civil, o Gaeco, mas também a Polícia Militar Rodoviária estadual, a Polícia Ambiental, nós temos áreas aqui extensas, de mata, que também precisa ser cuidada e ser combatida, porque tem infiltração de marginais nas localidades. E quando você pergunta dos homicídios, nós estamos com quedas constantes aqui na nossa região. Sabemos que os indicadores eram muito altos. Mas vemos de forma muito constante essas quedas aqui nos homicídios e nos demais indicadores.

 

A gente percebe também a incidência de jovens e menores nos crimes relacionados ao tráfico de drogas, violência, de forma geral. Há alguma ação prevista de combate ao aliciamento desses menores?

Alexandre Castilho: Sim. O crime organizado hoje ele é muito dinâmico e ele utiliza das ferramentas que tem ali à disposição. Então, a utilização de adolescentes é algo que eles que eles fazem. Mas a questão do adolescente no crime é algo um pouco mais complexo, leva a outras discussões multidisciplinares, porque os adolescentes estão ali, às vezes, em situação de risco, ambiental, então, é algo um pouco mais complexo. Mas a criminalidade organizada hoje vem se valendo muito mais, muito mais próximo à criminalidade econômica. Eles têm investido muito na lavagem de dinheiro, no investimento de valores conseguidos basicamente com o tráfico de drogas.

Então, essa mudança de chave também que as polícias estão realizando nos respectivos estados, junto com o Ministério Público, de combater a lavagem de dinheiro dessas organizações, é isso que vai dar efetivamente resultado, como vocês têm visto nas últimas investigações em conjunto que estão sendo deflagradas.

 

Além do tráfico de drogas, de armas, a gente sabe que o PCC é muito bem organizado na questão de postos de gasolina, como o senhor também falou de lavagem de dinheiro. Essa organização do PCC aqui no nosso estado é a principal diferença da atuação do Comando Vermelho no estado do Rio de Janeiro? O PCC tem um sistema empresarial mais bem organizado do que o Comando Vermelho no Rio de Janeiro?

Alexandre Castilho: A criminalidade organizada aprendeu com a criminalidade econômica. Então, eles são empresários. São empresários do crime. Eles começam a desenvolver metodologias para investimento e ocultação do que eles conseguem na prática de crimes. Essa é a regra do crime organizado. Eles têm aprendido muito com isso. O PCC em si, todos sabem, que investe no tráfico internacional.

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