DRAMA SOCIAL

O drama de Ailton: desenhista destruído pelo crack em São José

Por Xandu Alves | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 3 min
Repórter Especial
Reprodução/Página Olho Vivo do Vale
Local onde Ailton (detalhe) morreu; cão aguarda seu retorno
Local onde Ailton (detalhe) morreu; cão aguarda seu retorno

A vida negou qualquer facilidade a Ailton Francisco Barboza. Pelo contrário. Ela foi dura com ele desde a infância precária em São José dos Campos.

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Oriundo de família pobre, ele sofreu com a carestia e mais ainda com um problema de saúde que reduziu-lhe a mobilidade. Ele tinha má formação em uma das pernas, mais fina do que a outra, o que pesou-lhe sobremaneira muito mais do que o peso físico. Pesava-lhe na alma.

O mundo das drogas foi um dos poucos que sorriu para ele. O sorriso falso e ilusório de tentar escapar da realidade marginalizando a existência. Como um abismo leva a outro, Ailton acabou no crack. A rua tornou-se seu lar.

“Quando a minha avó era viva, ele vivia com ela. Às vezes ele ia para rua e voltava. Mas nisso ele decidiu morar na rua. Ia ficar na rua mesmo. Ele sabia das consequências da droga”, contou uma sobrinha de Ailton.

Segundo ela, a família é quem apoiava Ailton, dando-lhe comida, roupas e itens básicos para a existência, tentando que ele escapasse do vício. O rapaz era um talentoso desenhista, e chegou a vender seus desenhos para comprar drogas.

Nas ruas.

Com a morte da avó, contudo, ele se viu mais uma vez seduzido pelos entorpecentes, principalmente o crack, a droga maldita. Passou a ser visto perambulando pela zona sul da cidade, vivendo nas ruas, prisioneiro do vício.

A tragédia flertava com Ailton, que tinha um cão como seu companheiro de andanças errantes por São José. Se tivesse tido força, segundo relato da família, ele poderia ter escapado da dependência química e procurado recuperação. Havia pessoas que o apoiariam, que o amavam, mas ele escolheu outro caminho.

Na quinta-feira (17) pela manhã, uma mulher dessa família recebeu a visita da assistência social de São José dos Campos. Ailton dera o endereço dela para o serviço social. Era um pedido de socorro. Mas chegou tarde demais.

Poste de luz.

Mais tarde naquele dia, Ailton subiu um em posto de energia elétrica e morreu após ser eletrocutado. O caso aconteceu na rua Pedro José dos Santos, no Residencial Altos do Bosque, na região sul da cidade. Ailton sofreu uma descarga elétrica e caiu ao solo, não resistindo aos ferimentos. Quando o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) chegou ao local, ele já estava morto. Ele tinha 36 anos.

A investigação preliminar indicou que a vítima subiu no poste sem o uso de aparatos visíveis, como escadas ou outros equipamentos de escalada. Descobriu-se também que a iluminação pública da via estava inoperante no momento do incidente.

A família que o acolheu só soube da morte de Ailton nesta semana. Ele não teve velório, em decorrência da condição do corpo, que foi sepultado no Cemitério Horto São Dimas nesta terça-feira (22), às 10h30. O cãozinho que o acompanhava foi flagrado ao lado do poste no qual Ailton subiu e morreu, esperando o seu retorno.

Terminou em sofrimento a sofrida existência deste morador de umas das cidades mais ricas e tecnológicas do país. Ailton deixou a vida sem experimentar a alegria, embora fosse uma pessoa sorridente, como relata quem o conheceu. Ailton, o talentoso, foi vencido pelo crack. Que sua partida não seja em vão. Que ilumine os que andam pela escuridão.

*Com informações da página Olho Vivo do Vale

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