REFLEXÃO

A máscara da empatia: Reflexões sobre a jornada de Isabel Veloso

O que começou como uma onda de apoio e solidariedade também se transformou em um mar de críticas e desconfiança por parte de milhares de seguidores da jovem com câncer terminal

Por Fabrício Correia, presidente da Academia Joseense de Letras | 4 dias atrás | Tempo de leitura: 3 min
São José dos Campos

Reprodução

Isabel ao lado do marido
Isabel ao lado do marido

A história de Isabel Veloso, uma jovem de 17 anos enfrentando um câncer terminal, apresentada inicialmente pela rede Sampi - OVALE, tornou-se um fenômeno nas redes sociais, alcançando mais de 2 milhões de seguidores no Instagram. Sua jornada de luta contra a doença, marcada por momentos de conquista, como o noivado, o casamento e a forma cheia de vida com a qual aguarda a morte iminente vem inspirando milhões com sua coragem e determinação.

No entanto, o que começou como uma onda de apoio e solidariedade logo também se transformou em um mar de críticas e desconfiança por parte de milhares de seguidores, o que vem alterando a rotina de Isabel, tirando seu tempo de qualidade. A descrença em relação à autenticidade de sua história revela uma faceta obscura da natureza humana, onde a empatia muitas vezes é usada como uma máscara para esconder o verdadeiro eu.

A falta de empatia demonstrada pelos "haters" nas redes sociais, não apenas nesse caso, reflete uma desconexão emocional, uma recusa em reconhecer a realidade da dor e do sofrimento alheios. Trata-se da revelação da natureza volátil das interações online, o que destaca a necessidade urgente de cultivarmos uma cultura de compaixão e apoio.

A história de Isabel Veloso nos faz refletir sobre a tendência humana de comparar nossas vidas com as dos outros, especialmente em momentos de sofrimento alheios. Por vezes, a dor do outro pode ser usada como um reforço para a nossa própria sensação de bem-estar, alimentando a ilusão de que estamos em uma situação melhor. Esse sentimento é perigosamente silencioso, pois nos distancia da verdadeira empatia e compaixão. Ao invés de nos compararmos aos outros, devemos buscar entender e apoiar uns aos outros, reconhecendo que cada um tem sua própria jornada e suas próprias batalhas.

Nos comentários negativos dirigidos a Isabel Veloso, percebe-se claramente a mudança de tom quando ela começa a prosperar, alcançando seus sonhos e se fortalecendo, mesmo diante de seu estado terminal. Essa reação revela a incompreensão e até mesmo a inveja que podem surgir quando alguém enfrenta adversidades com coragem e determinação. A ideia de que a morte não chegou para Isabel, apesar das previsões médicas, começa a gerar desconforto e até mesmo hostilidade em algumas pessoas, evidenciando como a comparação e a competição são intrínsecas à natureza humana, mesmo em situações tão sensíveis quanto a doença e a morte.

Como mudar essa condição? Celebrando cada segundo dos conteúdos compartilhados com o intuito de sermos parte da vida dela nesse momento e não apenas observadores. Por exemplo:

Impossível passar imune a um dos momentos mais lindos sobre nossa efemeridade refletido na declaração dela ao noivo, Lucas Borba antes do casamento: "Meu amor, hoje eu entendo que não vim ao mundo para ser curada, mas para curar. Saiba que você foi a cura mais bonita da minh’alma. Eu o amo, mais que tudo que possa existir nessa terra. Meu eterno marido, namorado, melhor amigo fiel e companheiro." Aceitar a finitude mesmo frente a um futuro promissor nos leva a viver com abundância mesmo quando o limite está apresentado.

A capacidade da jovem Isabel em encontrar beleza e significado em meio à adversidade é inspiradora e nos lembra da importância de valorizarmos cada momento, independentemente das circunstâncias.

Isabel Veloso é um presente poderoso para cada um de nós, uma afirmação que por trás das telas e perfis online, há pessoas reais com vidas reais, enfrentando desafios reais.

Que possamos aprender com sua coragem e resiliência, e escolher sempre o caminho da empatia e da compaixão, mesmo quando for difícil. Nos conectar verdadeiramente com o outro, reconhecendo e valorizando a jornada única de cada pessoa neste mundo é o desafio que precisamos vencer.

* Fabrício Correia é escritor, musicoterapeuta e professor universitário com especialização em Acessibilidade, Diversidade e Inclusão. Preside a Academia Joseense de Letras e é sócio acadêmico da Academia Brasileira de Cinema.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do SAMPI

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