VIOLÊNCIA

Cidades Mortas: crime mata 6 em duas semanas na área retratada em obra de Lobato

Por Xandu Alves | Guaratinguetá
| Tempo de leitura: 4 min
Reprodução / Redes Sociais
Da esq. para a dir.: Leandro, Cida, Lucas Yuri (sentado) e João Marcelo; embaixo: Yasmim e Eli
Da esq. para a dir.: Leandro, Cida, Lucas Yuri (sentado) e João Marcelo; embaixo: Yasmim e Eli

Cidades Mortas a tiros.

Monteiro Lobato descreveu a decadência do Vale do Paraíba em um polêmico livro de contos, publicado em 1919 como 'Cidades Mortas'. O autor taubateano falava do declínio de uma das regiões mais ricas e influentes do país após a abolição da escravatura e a derrocada do café, o Vale Histórico.

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Cento e cinco anos depois, a outrora poderosa região se transformou no epicentro da violência no Vale, que por sua vez lidera a taxa de homicídios no estado de São Paulo desde 2010.

Em duas semanas, seis pessoas foram violentamente assassinadas em cidades do Vale Histórico. As vítimas tinham entre 18 e 53 anos. Foram mortos quatro homens e duas mulheres, todos com sinais de execução, sem qualquer chance de defesa.

As mortes mais recentes aconteceram em Potim: do feirante Lucas Yuri de Souza Carvalho da Silva, de 23 anos, e de João Marcelo dos Santos Godói, de 19 anos.

Lucas Yuri foi executado com 28 tiros na noite da última sexta-feira (29). João cortava o cabelo numa barbearia de Potim, na terça-feira (26), quando dois homens entraram no salão. Em 15 segundos, eles executaram a vítima com 11 tiros, sendo cinco nas costas e seis no tórax.

De acordo com o boletim de ocorrência, João Marcelo tinha passagens policiais por tráfico de drogas e porte ilegal de arma de fogo.

Na segunda (25), na mesma cidade, Leandro Vieira, 18 anos, foi morto com seis tiros. O corpo crivado de balas foi encontrado na rua. Três dias antes de ser executado, ele publicou em seu perfil no Facebook a frase premonitória: “Viva cada segundo de sua vida, a morte é aleatória e inevitável”.

Na mesma noite de terça-feira (19), duas mulheres foram executadas em um intervalo de 40 minutos, uma no Potim e a outra em Cruzeiro, cidade com a mais alta taxa de homicídios do estado. As duas foram baleadas na cabeça.

Maria Aparecida Martins de Resende Anastácio, a ‘Cida Chaminé’, era proprietária de um bar em Potim e foi morta a tiros na frente do próprio estabelecimento, quando tomava uma cerveja com uma amiga. Ela tinha 53 anos.

Natural de Potim, Lucas foi executado na noite da última sexta-feira, às 23h27, na avenida Rio de Janeiro, no bairro Jardim Alvorada. Foram treze disparos na cabeça, seis nas costas, quatro no pescoço, dois nas pernas, dois no braço e um nas nádegas. Duas armas foram usadas, uma calibre 380 e outra .40.

MORTA EM CASA.

Menos de uma hora depois, Yasmin de Cássia Velloso Moraes, 28 anos, foi executada dentro de casa, em Cruzeiro. Dois dos três filhos pequenos dela estavam na residência. Ela levou quatro tiros, dois na cabeça. O namorado dela também foi baleado, mas sobreviveu.

O crime aconteceu no bairro Itagaçaba, palco de uma guerra entre gangues e refém do medo. Uma das moradoras é Ellen Vitória, 18 anos, também vítima da violência em Cruzeiro. “Sempre me mandam mensagem me humilhando e falando que me deixaram aleijada”, contou a moça, baleada nas costas há um ano e que, desde então, não consegue andar.

No último dia 15 de março, a violência atingiu o pai dela, Eli da Silva Moreira Júnior, 43 anos, morto a tiros em um ponto de ônibus em Itagaçaba. O pai trabalhava vendendo frango.

De acordo com a filha, o pai foi morto por uma gangue de criminosos ligada ao tráfico de drogas na região. O crime foi cometido com o objetivo de atingi-la. A quadrilha teria uma rixa com o ex-namorado de Ellen.

“Foi covardia porque o meu pai não fazia mal para ninguém. Por sempre estar comigo nos lugares, ajudando, enfim, meu pai foi vítima por essas mesmas pessoas [que atiraram em mim]. E tenho medo de matarem mais pessoas da minha família", disse Ellen.

Cada história é uma tragédia em si. Um relato brutal das cidades que vão se tornando mortas em cada execução, em cada novo homicídio, em casa caso de violência sem limites.

NÚMEROS.

De acordo com os números da SSP (Secretaria de Segurança Pública) de São Paulo, oito cidades do Vale Histórico acumulam 102 vítimas de homicídio nos últimos 12 meses, 32% do total do Vale, que teve 318 mortes no período. Juntos, esses municípios abrigam 14,5% da população da região.

Em comparação, São José dos Campos, Taubaté e Jacareí, que têm 50% dos moradores do Vale, somam 95 pessoas assassinadas em 12 meses, 29% da totalidade do Vale,

Bem distante dos contos das Cidades Mortas de Monteiro Lobato, o Vale Histórico vai se transformando numa obra de terror.

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