ENTREVISTA

‘A Palestina não é o Hamas’, diz professor de São José que foi 13 vezes a Israel

Por Xandu Alves | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 11 min
Arquivo Pessoal
Victor França numa das viagens a Israel e à Palestina
Victor França numa das viagens a Israel e à Palestina

O professor de sociologia e filosofia Victor França, 32 anos, natural de São José dos Campos, viajou 13 vezes para Israel para estudar e compreender o conflito com a Palestina, entre judeus e árabes. Ele também já morou seis meses naquela região e tem vários amigos por lá.

A atual guerra entre Israel e o grupo Hamas já soma mais de 3.000, segundo autoridades.

Pelo menos 1.799 palestinos foram mortos na Faixa de Gaza desde o começo do conflito, no último sábado (7), sendo que 583 eram crianças e adolescentes e 351 eram mulheres, de acordo com o Ministério da Saúde Palestino em Gaza. Há também ao menos 6.388 pessoas feridas pelos combates na Palestina. Já em Israel, o número de mortos passa de 1.300, segundo os balanços mais recentes.

Segundo França, é preciso distinguir a Palestina do Hamas, que não são a mesma coisa, e entender as raízes históricas da constituição do Estado de Israel para entender o conflito com os palestinos.

“O que a população Palestina se incomoda é não viver com a liberdade de serem detentores de direitos enquanto cidadãos de um país, porque eles não têm um país”, disse o professor.

Leia os principais trechos da entrevista com Victor França.

Quando você foi para Israel pela primeira vez?

Primeira vez que fui para Israel foi em setembro de 2013, quando pude visitar as duas realidades. Fui tanto em territórios israelenses quanto em territórios palestinos. No total, eu já fui 13 vezes para lá desde 2013. Mas apesar de ter conhecido muito bem Israel e a Cisjordânia, a Faixa de Gaza eu nunca pude ir, só tentei uma vez. É um lugar que, apesar de conhecer muita gente de lá, nunca pude é conhecer.

É muito difícil entrar?

Sim, conheci jornalistas brasileiros que conseguiram ir, mas depois de muitas negociações. Teve até uma vez um documentário do padre Fábio de Melo que ele foi até Gaza para conhecer a comunidade católica, mas também ele conta que foi com muita burocracia, muitas negociações. Entrar lá é bem difícil. Agora é muito mais complicado. Até então havia um pouco mais de flexibilidade, mas agora não mais. Conheci a Palestina, Cisjordânia e Israel, mas a Faixa de Gaza não.

Você morou seis meses em Israel?

Sim, de abril até mais ou menos outubro de 2014. Quando você chega, Israel é um país que não exige visto. Contudo, na hora que você entra seja pelo aeroporto ou via terrestre, você ganha uma coisa que eles chamam de blue card, que é em outras palavras um visto. Eles autorizam a entrada, mas esse blue card tem suas informações, eles têm a sua fotografia e falam o tempo permitido para você ficar, e não é permitido trabalhar.

Onde eu me instalei foi na cidade de Jerusalém, mas na porção oriental, que é uma porção árabe e uma boa parte da comunidade tem um senso de pertencimento à Palestina. Há pessoas que em suas casas e até hotéis na Jerusalém oriental, que geopoliticamente está em Israel, no entanto, as pessoas têm bandeiras da Palestina em suas casas e até em hotéis. A porção que me instalei é território israelense, contudo com uma cultura e uma sociedade árabe-palestina.

Como você explica esse conflito?

A gente pode examinar o conflito sobre a ótica religiosa, sobre a ótica cultural, sobre a ótica geopolítica. Enfim, você tem várias teorias para falar sobre quando isso começou. A gente pega lá desde is conflitos dos filhos de Abraão, Isaque e Ismael – Ismael dando origem ao povo área e Isaque dando origem ao povo Judeu.

Você tem teorias que eu particularmente não acho que merecem tanta ouvidoria nossa. São teorias da conspiração que falam que a narrativa segundo a qual aquela Terra pertence aos judeus é uma farsa, porque a terra originária dos judeus, segundo algumas teorias, é o Catar. Existe uma história fantasiosa para justificar a ocupação israelense sendo que nunca foi deles, esse tipo de história. Eu acho que esse tipo de conversa e argumentação para mim não rola, sobretudo se quiser fazer um debate muito sério.

Se você pegar o Estado de Israel também não é um país muito velho. Foi criado em 1947 e a independência alcançou em 1948. E a Palestina é uma das questões. A Palestina em si não é um estado autônomo com soberania sobre as suas fronteiras.

Em 2011, que foi o mais próximo que eles conseguiram, a Palestina conseguiu status na ONU de um estado observador, que significa que eles têm uma cadeira na ONU, mas eles não têm poder de voto, por exemplo, eles têm um estatuto estatal igual do Vaticano. A Palestina tem um grau de paridade na ONU quanto a sua tipologia estatal.

Enquanto os israelenses tiveram o seu território criado em 1947, todo mundo sabe que foi uma forma de compensar o holocausto que ele sofreram na Segunda Guerra Mundial, com 6 milhões de judeus mortos pelo regime nazifascista.

A grande discussão que foi feita na recém-criada ONU, na época, é que os árabes falaram: se os europeus se sentem culpados pela morte dos judeus, que eles tenham uma pátria na Europa e não numa terra que está ocupada por um povo. Só que existe um movimento, que é forte, e eu sou taxado de ser antissionista, que é o movimento que, naquela época, demandava uma pátria para os judeus na terra histórica dos judeus sionista, que vem de Sion, o Monte Sião, que é o lugar onde a cidade de Jerusalém foi edificada. Então, é para lá que os judeus devem voltar.

Então hoje, quando se fala que aquela pessoa é sionista, ela defende a legitimidade dos judeus sobre aquela terra olhando para a história. Agora, houve uma partilha da ONU em 1947, parte do território seria judeu e parte do território seria árabe, e Jerusalém seria uma área internacional.

Quando o estado foi criado houve série de reações do mundo árabe, na Jordânia, Líbano Síria e Egito. Conforme os árabes faziam ofensivas, Israel não só reagia como tomava territórios. A narrativa israelense é: esses territórios nós tomamos em guerra, foi uma conquista militar. A gente teve vários conflitos ali, como o Dia do Perdão, em 1973, Guerra do Yom Kippur, mas o conflito mais significativo foi em 1967, numa guerra chamada Guerra dos Seis Dias, que durou seis dias e o Estado de Israel, muito militarizado e com ajuda monumental dos Estados Unidos, sobretudo após a criação do Estado de Israel, eles tomaram a Faixa de Gaza, Cisjordânia até a península do Sinai.

Conflito vai e conflito vem, o Egito foi o primeiro país que reconheceu o estado judeu, o Estado de Israel. Acordos foram indo e o último acordo que temos conhecimento foi em 1993 na capital da Noruega, em Oslo. Que o líder da organização paramilitar, o Yasser Arafat, líder da Organização para a Libertação da Palestina. Ele se encontrou com o presidente de Israel na ocasião, que era o Yitzhak Rabin, e tentaram chegar a um acordo, mas que não funcionou muito.

Então temos essa questão envolvendo políticos, mas você tem também a população. Você tem o Hamas, mas a Palestina não é o Hamas. Você tem uma população na Palestina encolerizada. Há muita divisão entre as famílias entre os territórios. O que a população Palestina se incomoda é não viver com a liberdade de serem detentores de direitos enquanto cidadãos de um país, porque eles não têm um país.

Quando você vai para lá, quando você vê até o passaporte de um palestino, quando você vê placas israelenses alertando que esse território é território palestino, eles falam ‘esse território pertence à Autoridade Nacional da Palestina’, porque não se pode falar em um estado palestino, porque não existe.

Israel se retirou completamente da região, da Faixa de Gaza, que, de uma ponta a outra de carro, você leva 40 minutos mais ou menos para percorrer. Israel se retirou completamente, cercou com cerca, com túneis, com muro e fechou todas as maneiras de um palestino de Gaza sair ou entrar, destruiu aeroporto. O palestino de Gaza não consegue sair via terrestre, aérea ou marítima. A população não tem eletricidade, mal tem internet, a água que sai das torneiras é salgada, porque eles não têm condições de dessalinizar a água e tratar a água. Você tem que comprar a caixa d'água ou comprar a garrafa d'água. Isso em Gaza.

Na Cisjordânia, que é uma porção territorial muito maior, você tem uma população que tem o seu direito de ir e vir, controlado por outro estado que é o Estado de Israel, que controla rodovias. Você tem rodovias israelenses que partem de Israel, atravessam a Cisjordânia e vão até a fronteira com a Jordânia. Ou seja, você constrói uma estrada do seu país em território do outro país. Então, quando a gente fala de criar um estado palestino é uma questão que eu não conseguiria ver como é que lidariam com isso.

Israel tem, sobretudo com esse atual primeiro-ministro, dado o aumento demográfico da população israelense, você tem a construção de assentamentos israelenses em terras que outrora seriam palestinas. São enormes condomínios residenciais, com o cercamento, com proteção, com ajuda militar, com abastecimento, saneamento, tudo isso, em território estrangeiro. A grande justificativa é o aumento demográfico e assentar essa população, esse contingente populacional que só é possível num território.

Então, temos que entender as duas narrativas. Tem que entender o palestino. Há cidades palestinas em sua originalidade que, cada vez que eu vou para lá, eu vejo isso com os meus próprios olhos, existe uma ocupação israelense.

Tem um clube e uma piscina e tira todo mundo porque é a vez dos israelenses. Para entrar em um bairro você passa por um check point de um bairro para o outro.

Então assim, do lado de Gaza, como é viver no lugar que você tem crianças e muitos jovens com depressão, sem perspectiva de vida? E do lado os palestinos da Cisjordânia o que é morar em um lugar que, progressivamente, você vê a sua nação desaparecer do mapa, porque ela está sendo ocupada por uma nação estrangeira.

Quando você vê esses movimentos sociais falarem de Palestina livre é justamente nesse sentido. E a única via que a gente pode pensar para que os palestinos sejam livres, é a criação de um Estado palestino. Mas, a grande questão que se fala é a seguinte: se criarmos um estado palestino, é complicado porque um grupo como o Hamas vai ter as suas práticas legitimadas, coniventes com essa luta que boa parte da comunidade internacional reconhece como sendo terrorista. Essa é a grande celeuma.

Na Palestina-Cisjordânia, que é governada por um grupo político e diplomático, ali sim é um estado da Palestina, mas mesmo assim, excluir Gaza a questão é essa. A Palestina não é o Hamas e ali na Palestina tem mais de dois milhões de pessoas morando, que querem cidadania e direitos civis.

A maior parte da população não coaduna e não está em concordância com as práticas do Hamas, mas uma parcela significativa fala: ‘olha, nós temos aqui a nos governar o Fatah e não vemos melhorias, não vemos progresso, temos um presidente que não sai do poder, muita suspeitas de corrupção’. O Fatah tem o radicalismo que não ajuda, contudo, é necessário reconhecer que o Hamas é o único que enfrenta.

É o que eu ouvia mais lá: não concordar com o Hamas, mas reconhecer que é preciso tomar alguma atitude, é preciso enfrentar essa ocupação e o Hamas, talvez segunda a narrativa dos palestinos, não seria a maneira idônea, mas é preciso reconhecer que ao menos o Hamas enfrenta, ele reage a tudo isso que os palestinos costumam chamar de colonialismo, de apartheid.

E a porção toda aquela porção de territórios somando Israel e Palestina é o tamanho do menor estado do Brasil, que é o estado de Sergipe.

Eu acho que tem muita injustiça nessa discussão. É muito injusto e bem desequilibrado quando a gente faz uma análise qualitativa, não é o bem contra o mal. Não é um grupo terrorista contra um estado democrático de direito, não é bem por aí. Essa discussão que beira o senso comum. Há muitas instituições religiosas que suscitam seus fiéis a terem uma adesão unilateral. O grande imbróglio é esse grupo, o Hamas, ser considerado um grupo terrorista por uma parcela significativa das nações. Mas há países que falam que apenas o braço armado do Hamas é terrorista, mas não o departamento político, enquanto um partido.

Brasil, Rússia e China classificam que o Hamas não é uma organização terrorista. Agora quem entra nesse grupo é a Noruega, um país europeu desenvolvido. A Noruega não tomou a atitude de classificar o Hamas como uma organização terrorista, porque ela historicamente quer ficar nessa posição de mediadora, de não tomar uma postura e atender para um lado.

O que acha dessa guerra?

Não consigo ser nem um pouco otimista do que vem pela frente. Até por uma questão de repercussão na comunidade internacional, não haverá uma incursão, uma operação terrestre do exército israelense dentro da Faixa de Gaza. Eu acho que não. Mas uma coisa que é novidade é essa quantidade grande de reféns. Por isso eu acho que os próximos dias serão ainda bem complicados.

Victor França em Israel e na Palestina
Victor França em Israel e na Palestina

Comentários

1 Comentários

  • Maria Rita 14/10/2023
    Ouvi o seguinte comentário na rua: \'A Palestina não é o Hamas\' assim como o Brasil não é Lula.