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Missão Ucrânia: professor de São José vai ver a guerra de perto para entender conflito

Por Xandu Alves | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 5 min
Divulgação / Victor França
Victor França na Ucrânia
Victor França na Ucrânia

A missão Ucrânia.

O professor de sociologia e filosofia Victor França, 32 anos, natural de São José dos Campos, tem por hábito estudar zonas de conflito no mundo. Detalhe: in loco.

Ele prefere visitar os locais que estuda ao invés de apenas ler sobre eles, assistir documentários e acompanhar as notícias.

Tudo isso importa, mas pisar no país para conhecer o conflito por dentro é a missão de França, que é internacional até no sobrenome.

Essa saga geopolítica in natura começou em 2014, quando o joseense fez uma imersão no Oriente Médio para entender o conflito entre Israel e Palestina, travados desde os anos 1940.

França visitou os países em julho de 2014, quando eles estavam em guerra. “Eu via os noticiários todos os dias e era bombardeado de e-mails, de pessoas preocupadas e tudo mais. Mas vi que, estando lá, a situação é muito diferente”, explica o professor.

“Uma guerra em pleno século 21 não é uma guerra como a gente vê em filmes reproduzindo guerras do século 20, além das disparidades ideológicas, fantasias midiáticas e impressões sem fundamento. Ir ao local dos conflitos é interessante para eu sentir a realidade.”

França também foi “sentir a realidade” na Venezuela, no ano passado, para ver de perto a crise econômica e humanitária no país latino-americano.

Em julho de 2023, França escolheu a Ucrânia para sua missão de estudar o conflito que começou com a invasão da Rússia em fevereiro de 2022 e se arrasta há quase dois anos com a guerra entre os dois países.

“Uma coisa é acompanhar pelas redes sociais, canais de comunicação e debate e telejornais. Outra é ir ver com os próprios olhos”, disse França.

VIAGEM

A primeira dificuldade foi chegar à Ucrânia, em razão de o espaço aéreo do país estar fechado e do boicote de empresas aéreas contra a Rússia. França decidiu entrar no país em uma rota pela Polônia.

Sem voo direto do Brasil, ele fez uma conexão em Istambul, na Turquia, e de lá para Varsóvia, capital da Polônia, onde tomou um trem para Cracóvia e depois para a cidade de Przemy?l, na fronteira com a Ucrânia. Neste ponto, a viagem do joseense completou 36 horas.

“É uma cidade muito pequena, de muita gente com uma fita azul e amarela no braço. São as cores da bandeira da Ucrânia, então eram ucranianos que estavam voltando para Ucrânia”, contou França.

Ali ele teve o primeiro contato com as consequências da guerra. Na plataforma, o professor precisou passar pela imigração para sair de um país da União Europeia e entrar em outro que não faz parte do bloco, no caso a Ucrânia.

“Na fila era praticamente 90% de mulher e criança. E aí uma primeira informação que homem a partir de 18 anos não pode sair da Ucrânia, porque pode ser convocado para o alistamento militar”, disse França.

O joseense embarcou em um imenso, antigo e desconfortável trem, que remonta à União Soviética. No trem, ele era o único brasileiro, com o restante dos passageiros sendo 90% de ucranianos e alguns poloneses.

IMIGRAÇÃO

Saindo da Polônia, França entrou numa estação de polícia de imigração da Ucrânia, com mulheres policiais militarizadas, analisando passaportes e fazendo perguntas. Devidamente liberados, foram mais 13 horas de trem até chegar à capital Kiev.

Nessa viagem, França conheceu a Ucrânia profunda, um país eminentemente rural, pelo menos na região oeste e centro-oeste.

“Nenhuma cidade, praticamente algumas vilas, comunidades rurais, casas muito simples de madeira, bem naquele estilo europeu. É porque a economia do país é exportação de óleo e semente de girassol, batata. O país é um grande exportador de milho. Eles têm indústrias, mas não é o forte deles.”

França ouviu histórias de pessoas que moram no sul da Ucrânia, na Crimeia, que está ocupada pela Rússia, de que um líder da União Soviética estava lá um dia numa festa, bêbado, e assinou o tratado para ceder a Crimeia para a Ucrânia. “Então se fala que lá nunca foi a terra deles”.

Outro efeito da guerra que França viu de perto foi quando chegou à Kiev, por volta de 9h da manhã. Na estação, centenas de homens esperando esposas e filhos desembarcarem.

“É uma cena muito bonita, porque muitos maridos, emocionados, estavam esperando as esposas e os filhos descerem do trem. Eles vêm com flores nas mãos, aqueles abraços e muito choro. Um ano e meio de guerra quase e os familiares não se viam. Então muito bonita a cena, uma estação de trem, uma coisa que eu nunca vi de beleza, uma estação de trem tão bela assim de todos os lugares que já vi.”

MILITARES

Nas ruas de Kiev, muitas pessoas fardadas, homens e mulheres como militares, mas que não são de carreira. São reservistas que foram convocados para a guerra depois de serem dispensados do serviço militar.

“É um país que está bastante militarizado. Esses militares ficam nas ruas, lá pela segurança da população. Alguns estão armados e outros não. O trabalho é direcionar a população caso aconteça algum evento adverso, um ataque iminente. Até porque na capital Kevin você não tem assim a eminência de uma invasão terrestre que precisa de armamento da população agora.”

Outra dificuldade foi a língua, que França venceu pela experiência em viajar pelo mundo. “O inglês lá não é como se estivesse em Israel, Alemanha ou em um país turístico da Europa, mas também não é aquela dificuldade que um imigrante tem aqui no Brasil. Você tem uma quantidade razoável de pessoas que falam o inglês”.

Ao pegar um Uber, ele percebeu que o motorista falava ucraniano e russo, que são os principais idiomas dominados pela população.

Despedida de familiares na estação de trem
Despedida de familiares na estação de trem
Fila para passar na imigração da estação ferroviária de Przemsyl
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Memória dos ucranianos que morreram em combate
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Tanques na Praça Mykhailivska
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