A polarização entre direita e esquerda que tomou o Brasil desde a eleição do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) também atingiu a eleição do Conselho Tutelar, cuja disputa tornou-se prévia da batalha ideológica que virá nas eleições municipais de 2024.
Grupos conservadores convocaram eleitores para que votassem em peso e escolhessem conselheiros tutelares ligados a pautas defendidas por eles, o que pode limitar o trabalho do Conselho Tutelar.
O resultado foi que houve uma participação recorde de votantes na eleição do Conselho Tutelar, realizada em todo o Brasil no dia 1º de outubro.
Em São José dos Campos, com 60% de renovação do Conselho Tutelar, o número de votos válidos chegou a 28.610 neste ano, com aumento de 121% comparado ao resultado da eleição de 2019
A cidade conta com 15 conselheiros titulares e outros 15 suplentes. Eles tomarão posse em 10 de janeiro de 2024.
A primeira colocada, a advogada Rosana Rabelo Montanini, recebeu 7.004 votos – 24% dos válidos e 3,5 vezes acima da votação da segunda colocada, a conselheira tutelar Ana Paula Diniz Novelino, que recebeu 1.955 votos.
A votação de Rosana foi tão expressiva que supera a de 18 vereadores de São José eleitos em 2020.
“O dia de hoje [votação] foi atípico com relação ao número de eleitores e prova quanto a população se articulou e entrou na eleição do Conselho, cujo voto é facultativo e não é obrigatório”, disse Edna Gomes, presidente do CMDCA (Conselho Municipal dos Direitos da Criança e Adolescente) de São José.
Segundo ela, uma das ‘bússolas’ para a participação na eleição do Conselho Tutelar é a presença na conferência da criança e adolescente, realizada em maio deste ano na cidade. O encontro reuniu 600 pessoas. “Por esse número faz perceber como foi atípica a participação na eleição”, disse Edna.
Não foi diferente em Campinas. A cidade registrou aumento de 88% dos votos em relação à votação anterior, em 2019, e de 286% frente à de 2015. Foram eleitos 60 conselheiros, sendo 30 titulares e 30 suplentes.
PERFIL
O número recorde de participantes revela a disputa ideológica que cercou a eleição do Conselho Tutelar, além do envolvimento de igrejas evangélicas, o que pode ser contestado administrativa e judicialmente.
Entidade normalmente disputada por pessoas alinhadas a pautas progressistas, neste ano os conservadores entraram em campanha pelo Conselho Tutelar para superar candidatos ligados à esquerda.
Mais votada em São José, Rosana fez uma forte campanha pelas redes sociais usando a própria família como cabo eleitoral -- há vídeos do filho pedindo votos e diversas fotos dela com o marido e o filho.
Rosana também gravou vídeos criticando temas caros à direita, como a doutrinação nas escolas e a erotização das crianças. Sem contar textos com passagens bíblicas.
A polarização foi tão extremada que, segundo Edna Gomes, presidente do CMDCA de São José, a segurança na eleição foi reforçada em razão de ameaças de embates entre grupos organizamos.
“Chegou ao nosso conhecimento questões com embates de grupos organizados, mas nos preparamos para garantir a segurança, e não houve nada”, afirmou.