TESTEMUNHO

Jovem do Vale que combate câncer com cannabis critica projeto contra Marcha da Maconha

Por Gabriel Campoy | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 4 min
Reprodução: Redes Sociais/Instagram

Lugar de fala. É desta maneira que Ana Macieira, de 25 anos, se coloca quando o assunto se trata de maconha. Foi através de produtos à base de cannabis que a jovem afirma ter conseguido lidar com dores recorrentes do período de quimioterapia enfrentado em decorrência de uma leucemia contra qual luta há dois anos.

Em meio ao debate acalorado que tomou as redes sociais em São José dos Campos nos últimos dias, tendo como foco a‘Marcha da Maconha, a jovem contou a OVALE alguns dos benefícios que obteve com o uso da planta em seu tratamento, além de fazer críticas à postura da prefeitura em relação ao assunto.

“Eu achei a falta do prefeito [Anderson Farias] totalmente sem tato, ignorante e inconstitucional. O projeto de lei a mesma coisa. Nossa marcha é pacífica e garantida por lei. É liberdade de expressão e manifestação. Marchamos por saúde e políticas de redução de danos realmente eficazes”, disse a jovem.

Além disso, Ana afirmou que a fala do prefeito "distorceu a causa”. O chefe do Executivo, na ocasião, disse que ‘proibiria’ a ‘Marcha da Maconha’ na cidade por se tratar de uma “apologia às drogas.

 “Não foi só tristeza que eu senti, foi revolta. Ele distorceu toda uma luta, banalizou 12 mil anos de história, estudo e evidências. Ele não é dono da cidade, ele trabalha para o povo”, reforçou.

Parte da indignação, segundo a própria jovem, vem do fato de não ter conseguido acesso ao tratamento de canabbidiol via SUS (Sistema Único de Saúde). Ana coloca o preconceito contra a planta como o principal motivo da negação de seus pedidos na rede pública.

“Não tive acesso pelo SUS. Nenhum suporte ou auxílio. Todo tratamento com cannabis foi difícil, limitado. Precisei de contatos para ter acesso a esse tipo de medicina (...) Temos relatos de pessoas que melhoram com o uso de produtos produzidos à base da planta, mesmo assim ainda é algo muito negado por preconceito e uma visão distorcida das pessoas”, destacou.

Em seu perfil nas redes, que já conta com mais de 4.000 seguidores, Ana destaca logo no início de sua biografia a seguinte frase: “Vencendo o câncer com o cannabis”. No melhor estilo influencer. De acordo com ela, é justamente desse tema que ela busca fazer sua luta.

“É a minha luta, sim. Não existem relatos de mortes ou overdose por cannabis em nenhum lugar do mundo. Enquanto algumas pessoas demonizam a planta, outras substâncias, como o álcool e o cigarro, são liberadas em excesso à população. O cigarro causa câncer, a maconha me ajudou no tratamento de um. Entende a diferença?”, complementa a jovem de 25 anos.

ENTENDA A POLÊMICA

O debate em torno da realização da ‘Marcha da Maconha’ em São José se iniciou no último dia 25 de agosto (sexta-feira). Na ocasião, o prefeito de São José, Anderson Farias, gravou um vídeo e o divulgou em suas redes sociais afirmando que “não permitiria” a realização da manifestação no município. “Não vou permitir que se juntem na rua para fazer apologia à droga”, disse o chefe do Executivo.

Horas depois, através de um comunicado enviado à imprensa, a organização da ‘Marcha da Maconha’ rebateu o prefeito reafirmando a realização da passeata no dia 7 de outubro e que a marcha seria “um direito constitucional” assegurado pelo STF (Supremo Tribunal Federal).

“A postagem do Executivo causou surpresa e indignação aos organizadores do movimento, visto que a realização de marchas da maconha é um direito constitucional, assegurado pelo Supremo Tribunal Federal, desde 2011 (...) O coletivo Marcha da Maconha reafirma sua intenção de marchar no dia sete pelas ruas centrais da cidade, convida a coletividade joseense a participar e se dispõe ao diálogo e ao debate”, diz parte do comunicado.

Além disso, de acordo com a avaliação do advogado Paulo Fernandes, especialista em Direito Constitucional e Gestão Administrativa Pública, a realização da ‘Marcha da Maconha’ encontra respaldo na decisão do Supremo porque, na ocasião, a Corte entendeu que o ato seria uma manifestação de pensamento e de opinião, não de estímulo ao uso da substância.

“A decisão do STF foi unânime. Houve o entendimento de que é diferente você expressar e ter a manifestação de pensamento relacionado à descriminalização da maconha da instigação ao uso da maconha, que é o argumento de quem é contra esse tipo de ato”, disse o jurista.

Comentários

1 Comentários

  • Mariana 06/09/2023
    Parabéns, Ana! É isso aí, pelo direito de manifestação pacífica e de combate ao preconceito contra uma planta! Não liga para esse prefeito não, por mais que ele tente, ele não é dono na cidade não. Ele faz isso só para \"lacrar\" e porque não tem trabalho para mostrar pra população. Lembrando que ele nem eleito foi. Força! E pelo direito de manifestação e liberdade