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De aviões a satélites: São José se transforma na ‘estrela reluzente’ da inovação no país

Por Daniela Borges | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 6 min

Celeiro de mentes brilhantes que movem a indústria aeroespacial brasileira, São José se orgulha de ser a estrela mais reluzente no universo da tecnologia e inovação. Basta olhar para o céu para constatar como a cidade chegou longe e deseja chegar ainda mais. Prova incontestável do valor da ciência para a transformação de um povo.

Em meio século, a cidade alçou voo nas asas de um sonho, a bordo do avião Bandeirante, e chegou até a imensidão do espaço com o Cbers.  Como bandeirantes 'modernos', os joseenses fincaram sua bandeira nos quatro cantos do mundo e até fora dele.

Vale lembrar que os primeiros passos para a criação do polo tecnológico e aeroespacial em solo joseense começaram com a instalação do então CTA (Centro Técnico de Aeronáutica), em 1950.

Idealizado pelo oficial da aviação do exército, o cearense Casimiro Montenegro Filho, sua criação foi um divisor de águas que mudou o destino e a vocação da cidade. Na mente visionária de um homem, o sonho de reunir em um só lugar ensino, pesquisa e indústria.

Entusiasta fervoroso da tecnologia aeronáutica, Marechal Casimiro também foi responsável pela fundação do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), que, inclusive, anunciou na última semana a instalação de uma unidade na capital cearense. Fato histórico.

AVIÃO

O próximo passo seria então o desenvolvimento de um avião diferenciado, de baixo custo operacional. Foi quando, em 1968, um grupo de pioneiros, liderado pelo engenheiro aeronáutico Ozires Silva, desenvolveu o avião Bandeirante, um bimotor leve, forte e versátil, capaz de chegar a áreas remotas com pouca infraestrutura, como um desbravador.

“Começamos a reunir algumas pessoas e trabalhávamos inclusive de noite. O entusiasmo foi crescendo. No dia 22 de outubro de 1968, o avião voou. O espanto foi muito maior quando o avião pousou. Era um avião feito por malucos que decolava e pousava”, disse Ozires Silva em vídeo gravado pelo seu aniversário de 90 anos.

EMBRAER

A Embraer foi criada em 1969 com o objetivo de produzir o modelo em série, que rapidamente se tornou um produto de exportação. Nasce também a vontade de concretizar uma visão estratégica de transformar ciência e tecnologia em atividade industrial de alto valor agregado no Brasil.

Os números da Embraer surpreendem. Já produziu mais de 8.000 aeronaves. Possui clientes em 100 países. São 19 mil funcionários. Somente no ano passado, entregou 159 aeronaves comerciais e executivas com receita de US$ 4,5 bilhões. Ao fim de 2022, contava com uma carteira de pedidos na ordem de US$ 17,5 bilhões.

Há também o valor que não se mensura com números. Como o intercâmbio tecnológico, cultural e de negócios com diversos públicos, o que gera muitas oportunidades. A empresa também executa atividades de pesquisa e difusão de conhecimentos que se conectam com uma rede global de inovação.

SÃO JOSÉ

Tudo começou em São José dos Campos para a Embraer.

A empresa considera a cidade seu principal ecossistema de inovação e local onde se concentra o maior volume dos empregos altamente qualificados. Mentes que criam o futuro de São José.

Atualmente, a empresa está envolvida em parcerias com dezenas de universidades, centros de pesquisa e empresas que geram novas colaborações, experiências e oportunidades de aprendizado ao redor do mundo.

O próximo e audacioso passo é tornar real algo que só era possível nos filmes futurísticos.

Na última semana, a Embraer e a subsidiária Eve Air Mobility anunciaram a primeira fábrica de eVTOL, uma aeronave elétrica de decolagem e pouso vertical – ou carro voador, como tem sido chamado. A fábrica será construída na vizinha Taubaté.

A outra parcela de contribuição para o status da cidade tecnológica vem da criação do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), em 1961, criado para atuar no domínio do acesso ao Espaço. “O Inpe objetiva desenvolver artefatos espaciais, operá-los e gerar bens e serviços tanto para o Estado e tomadores de decisão quanto para a população, a partir deste acesso ao Espaço”, explica José Ângelo Neri, presidente do Núcleo de Inovação Tecnológica do Inpe.

Investir na exploração espacial é estratégico para o país. De acordo com Neri, hoje está em curso a consolidação e expansão da indústria espacial que aponta para uma receita de US$ 1 trilhão, em 2040.

“Se o país não produz a tecnologia ele pagará pelos produtos de alto valor agregado, deixará de gerar em seu território riquezas, empregos e rendas estáveis e, além disso, ficará estrategicamente refém dos que a produzem”, afirma.

Com uma passagem emblemática à frente do Inpe como feroz defensor da ciência, o professor Ricardo Galvão ressalta que a tecnologia produzida e os serviços prestados pelo Inpe têm grande respeitabilidade internacional.

“A instituição prima não somente por fazer ciência de alto nível, mas também por fazer esforçar-se para que os produtos de suas pesquisas resultem em produtos úteis para a sociedade”, afirma o professor Ricardo Galvão, atual presidente do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).

O professor Galvão destaca que não há como elencar apenas um projeto do Inpe que seja mais relevante, para ele todos possuem seu grau de importância estratégica para o Brasil. “Como o monitoramento por satélite da degradação de todos os biomas brasileiros, previsão meteorológica avançada e modelagem de mudanças climáticas, desenvolvimento nacional de satélites para aplicações civis, monitoramento do clima espacial, isto é, dos efeitos de erupções solares sobre a Terra e a capacitação de pesquisadores e profissionais em ciências e tecnologia espacial”, cita.

INPE

O Inpe enviou para o espaço oito satélites. “No momento, em termos de satélites, temos em operação, fora os longevos SCDs, o Amazônia 1 e o CBERS 4”, diz José Ângelo Neri, presidente do Núcleo de Inovação Tecnológica do Inpe.

O primeiro deles, o SCD-1, de coleta de dados, bateu recorde de longevidade. Atualmente, é o satélite que mais tempo está operando no espaço, 30 anos, superando a Nasa. Um feito e tanto.

O Cbers 4, por sua vez, tinha vida útil estimada em quatro anos e em dezembro passado fez oito anos em operação. A longevidade dos satélites demonstram a qualidade e eficiência da tecnologia desenvolvida no país.

Em janeiro de 2021, em parceria com a Índia, foi lançado o Amazônia-1, primeiro satélite de observação da Terra completamente projetado, integrado, testado e operado pelo Brasil.

Os projetos mais recentes do Inpe são o Amazônia 1B e o Cbers-6. O primeiro tem como objetivos o monitoramento de recursos hídricos e o imageamento do país, com recursos estimados em R$ 220 milhões incluindo o lançamento.

O Cbers-6 dá continuidade à cooperação com a China e é um satélite radar que naturalmente monitora o planeta independentemente da cobertura de nuvens e tem custo estimado para o Brasil de US$ 51 milhões para o segmento espacial.

 “Sem o domínio dessas tecnologias o país fica vulnerável a especulações e influências que podem comprometer o desempenho econômico e até a soberania do país. Para além, atividades de pesquisa e desenvolvimento e o avanço do conhecimento científico contribuem para inovações tanto na indústria quanto nos serviços”, explica Neri.

Durante a COP 21 (Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas), realizada em 2015, em Paris, o prestigiado cientista Scott Goetz disse: “Embora outros países também tenham programas de mapeamento de desmatamento por satélite, eles não fornecem produtos (mapas) ao público como o Inpe faz. Esperamos que mais países imitem o Brasil na entrega de informações oportunas e publicamente disponíveis sobre os padrões e taxas de desmatamento históricos e atuais.”

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