POLÍTICA

Nas mãos do Centrão: Lula negocia cargos no governo para acomodar aliados

Por Débora Brito | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 3 min
Agência Brasil
Para acomodar integrantes do 'Centrão', a Esplanada dos Ministérios deve ter nova configuração no segundo semestre
Para acomodar integrantes do 'Centrão', a Esplanada dos Ministérios deve ter nova configuração no segundo semestre

Após as vitórias recentes na Câmara dos Deputados com a aprovação de pautas econômicas prioritárias para o governo, como o arcabouço fiscal e a reforma tributária, o Palácio do Planalto recebeu a conta e está na missão de acomodar aliados dos partidos do controverso centrão na Esplanada dos Ministérios.

A cobrança já existia desde o início do governo, mas a presidência optou no primeiro momento por tentar blindar algumas pastas estratégicas e soltar emendas conforme o desempenho das bancadas em plenário. Contudo, o desgaste político e os gastos a cada votação têm pesado muito e gerado insegurança no Planalto em momentos decisivos.

Mesmo depois de ter criticado frontalmente o fisiologismo do centrão, o presidente Lula teve que se render sob pena de amargar dissabores na relação com o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL). Principal liderança do centrão, o atual comandante da Casa baixa deu importantes sinalizações ao longo do primeiro semestre de que não abre mão de contrapartidas recorrentes para avançar com as pautas de interesse governista no plenário. E alguns partidos de sua base de apoio não querem mais retorno a conta gotas e sim participação mais efetiva e permanente no governo.

Sob pressão, o presidente Lula deu início a uma minirreforma ministerial, que também ganhou força após a operação da Polícia Federal contra aliados de Lira. A investida policial azedou a relação entre o legislativo e o executivo e acelerou a movimentação do Planalto na acomodação das demandas de Lira  e do centrão para apaziguar os ânimos junto ao dono da pauta do plenário.

O foco na articulação política, que foi tão cara ao partido nas gestões anteriores, agora ganha contornos mais maleáveis em nome da governabilidade. Lideranças do PT, incluindo de alas mais radicais, estão alinhadas na aliança antes improvável e têm defendido o pragmatismo do Planalto, diante da urgência das reformas que tramitam no Congresso e da necessidade de estabilidade para o governo.

Nos últimos dias, o palácio abriu as portas para os líderes do PP e do Republicanos, partidos que juntos reúnem 90 parlamentares e integram bancadas de mais de 310 deputados entre as 513 cadeiras da Câmara. O número é precioso para aprovar propostas de emenda constitucional e outros projetos de peso. O governo tem o desafio de prosseguir com a mudança no sistema tributário, dessa vez sobre os impostos que incidem sobre a renda. O orçamento 2024 também está pendente de votação.

“À medida que você tenha partidos que queiram participar da base, nós temos interesse em trazer esses partidos para dar tranquilidade a nossa governança dentro do Congresso Nacional, mas quem discute ministro é o presidente da República”, disse Lula em entrevista coletiva durante viagem à Bélgica.

A partir de agosto, a Esplanada deve ganhar nova configuração. A troca do comando do Ministério do Turismo deu a largada na minirreforma e outras cadeiras devem ser trocadas após o fim do recesso do legislativo. As pastas mais cobiçadas são as de sempre, como saúde, que tem orçamento robusto; e desenvolvimento social, que comanda o Bolsa Família. Fora da Esplanada em Brasília, o governo ainda tem muitos cargos vagos em autarquias e estatais. Mas Lula já sinalizou que será ele que dará as cartas na escolha das pastas: “Partido não pede ministério, é o presidente que oferece”, disse na Bélgica.

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