Quando Lula assumiu a presidência pela terceira vez, uma de suas principais promessas foi resgatar a credibilidade do Brasil junto à comunidade internacional, após a imagem negativa e o isolamento deixados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.
A prioridade era restabelecer relações diplomáticas e reconstruir pontes com os vizinhos da América Latina, além dos Estados Unidos, China, países da Europa e da África para consolidar. Para cumprir a missão, Lula empreendeu desde o início da atual gestão uma verdadeira maratona internacional. Nos primeiros seis meses de governo, Lula saiu do Brasil sete vezes e visitou 12 países em 31 dias e participou de mais de 30 reuniões bilaterais.
Porém, a empreitada tem sido cara tanto do ponto de vista financeiro quanto político. As viagens custaram pelo menos R$ 7,3 milhões somente com hospedagem, segundo levantamento da Folha de São Paulo. Em resposta, a presidência divulgou que as viagens renderam cerca de R$ 111,5 bilhões em investimentos para o Brasil, uma média de R$ 3,6 bilhões por dia nas viagens.
Mas os custos elevados das viagens muniram a oposição no território nacional, mas fora das fronteiras a conduta do presidente em alguns temas também tem sido questionada por chefes de estado, como na questão envolvendo a guerra da Rússia contra a Ucrânia. A tentativa de protagonizar a mediação do conflito no sentido de buscar uma solução pacífica não foi bem sucedida e contribuiu para instigar ainda mais as partes envolvidas no conflito.
A autoconfiança adquirida pelo legado na política externa deixado pelas duas primeiras gestões de Lula também tem levado o presidente a derrapar no discurso. A tradicional defesa da democracia e da paz foi ofuscada por falas erráticas do presidente, como aquela em que ele diz que não importa quem tem razão na guerra. A adoção de uma postura “neutra” na guerra gerou reações negativas do presidente ucraniano e outros líderes mundiais. A última passagem de Lula pela França lhe rendeu o título de “decepção” e “falso amigo do ocidente” na capa do jornal francês La Liberation.
Mesmo em território nacional, mas ainda em temas internacionais, Lula tem errado no tom e emitido sinais contraditórios. O presidente se omitiu a assinar o relatório do Conselho de Direitos Humanos da ONU (Organização das Nações Unidas) que trazia denúncias de violações cometidas pela ditadura da Nicarágua, comandada por Daniel Ortega.
Em outras duas situações, Lula defendeu publicamente o regime autoritário de Nicolas Maduro, na Venezuela. Em visita do presidente venezuelano ao Brasil na ocasião da cúpula de líderes da América Latina realizada no fim de maio, em Brasília, Lula disse que as denúncias de autoritarismo e violação dos direitos humanos na Venezuela são fruto de uma “narrativa”.
A declaração gerou constrangimentos entre os países vizinhos, como Chile e Uruguai. A segunda vez, no Foro de São Paulo, Lula disse que “o conceito de democracia é relativo”, em nova menção à Venezuela, e que o país vizinho tem mais eleições do que o Brasil, insinuando que Maduro se mantém no poder de forma democrática e legítima. A oposição quer impeachment do presidente por crime contra a democracia.