INVESTIGAÇÃO

Pesquisadoras da Unicamp investigam ataques para entender motivo de escola ser alvo

Por Xandu Alves | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 2 min
Reprodução / Cristina Mayumi / TV Globo
Escola estadual na capital paulista palco de ataque de garoto de 13 anos
Escola estadual na capital paulista palco de ataque de garoto de 13 anos

Por que as escolas?

A onda de ataques e de boatos de massacres em escolas esconde um sentimento negativo contra locais que são espaço da educação, da construção do conhecimento e da convivência com o outro. Portanto, espaços civilizatórios.

A professora Telma Vinha e a advogada Cléo Garcia têm se debruçado para estudar o motivo de as escolas terem se tornado alvo de ataques, além de outros assuntos relacionados ao tema.

Telma é professora da Faculdade de Educação e pesquisadora do Idea (Instituto de Estudos Avançados) da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Cléo é especialista em Justiça Restaurativa, mestranda da Faculdade de Educação da Unicamp e pesquisadora ligada ao Idea.

Cléo disse a OVALE que quando se fala de ataque a escolas fala-se de algo que se refere “à identidade das pessoas que estão lá”. “Chamamos de violência extrema, pois ataca toda uma cadeia. Desde os familiares, de alunos, docentes, a comunidade no entorno e até mesmo outras instituições de ensino”.

Quando um espaço assim é atacado, segundo a pesquisadora, é preciso “pensar que todas essas pessoas retornarão a esse local e continuarão a conviver num espaço extremamente atingido, e isso tem uma repercussão muito profunda, com traumas muitas vezes, insuperáveis”.

A advogada disse que a pesquisa visa investigar “porque eles escolhem a escola e quando se trata de ex-alunos, porque voltam à escola”.

“Entendemos que esse espaço tem um significado que afetou e ainda afeta profundamente esse adolescente/jovem, e que lhe trazem sentimentos de vingança, aliado ao desejo de ser reconhecido e ter valor junto aqueles que possam tê-lo machucado”, disse a pesquisadora.

Segundo Cléo, a pesquisa mostra que o perfil dos que atacam escolas é de adolescentes do sexo masculino, brancos, misóginos, que cultuam armas de fogo e com transtornos mentais variados.

Eles também têm busca por reconhecimento e valor de um determinado público, isolamento social, relacionamentos interpessoais inexistentes, muitos fora da escola, com sofrimento por bullying, humilhações, exclusões e violência doméstica. “E, nos últimos anos, pertencentes a comunidades online que cultuam e incitam esse tipo de crime”, afirmou a pesquisadora.

Cléo também disse que, apesar dos discursos de ódio sempre terem existido, eles se amplificaram através das redes sociais, com intolerâncias direcionadas a grupos específicos, na maioria composto pelas minorias sociais.

“Por outro lado, estamos falando de um público vulnerável e em desenvolvimento, que é o adolescente. Para aqueles que já se encontram em uma situação de sofrimento, o mundo das teorias da conspiração online e grupos de ódio pode se tornar ainda mais atraente”.

Segundo ela, ex-extremistas disseram que esses grupos aos quais se vinculam, através de comunidades virtuais, se tornaram uma família para eles, combatendo sua solidão, exclusão e isolamento.

Cléo disse que a violência aumentou nas redes sociais, principalmente em 2022, e com a falta de regulação das redes e sua responsabilidade sobre os conteúdos, “temos o caldeirão perfeito para uma escalada de violências”.

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