Por que as escolas?
A onda de ataques e de boatos de massacres em escolas esconde um sentimento negativo contra locais que são espaço da educação, da construção do conhecimento e da convivência com o outro. Portanto, espaços civilizatórios.
A professora Telma Vinha e a advogada Cléo Garcia têm se debruçado para estudar o motivo de as escolas terem se tornado alvo de ataques, além de outros assuntos relacionados ao tema.
Telma é professora da Faculdade de Educação e pesquisadora do Idea (Instituto de Estudos Avançados) da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Cléo é especialista em Justiça Restaurativa, mestranda da Faculdade de Educação da Unicamp e pesquisadora ligada ao Idea.
Cléo disse a OVALE que quando se fala de ataque a escolas fala-se de algo que se refere “à identidade das pessoas que estão lá”. “Chamamos de violência extrema, pois ataca toda uma cadeia. Desde os familiares, de alunos, docentes, a comunidade no entorno e até mesmo outras instituições de ensino”.
Quando um espaço assim é atacado, segundo a pesquisadora, é preciso “pensar que todas essas pessoas retornarão a esse local e continuarão a conviver num espaço extremamente atingido, e isso tem uma repercussão muito profunda, com traumas muitas vezes, insuperáveis”.
A advogada disse que a pesquisa visa investigar “porque eles escolhem a escola e quando se trata de ex-alunos, porque voltam à escola”.
“Entendemos que esse espaço tem um significado que afetou e ainda afeta profundamente esse adolescente/jovem, e que lhe trazem sentimentos de vingança, aliado ao desejo de ser reconhecido e ter valor junto aqueles que possam tê-lo machucado”, disse a pesquisadora.
Segundo Cléo, a pesquisa mostra que o perfil dos que atacam escolas é de adolescentes do sexo masculino, brancos, misóginos, que cultuam armas de fogo e com transtornos mentais variados.
Eles também têm busca por reconhecimento e valor de um determinado público, isolamento social, relacionamentos interpessoais inexistentes, muitos fora da escola, com sofrimento por bullying, humilhações, exclusões e violência doméstica. “E, nos últimos anos, pertencentes a comunidades online que cultuam e incitam esse tipo de crime”, afirmou a pesquisadora.
Cléo também disse que, apesar dos discursos de ódio sempre terem existido, eles se amplificaram através das redes sociais, com intolerâncias direcionadas a grupos específicos, na maioria composto pelas minorias sociais.
“Por outro lado, estamos falando de um público vulnerável e em desenvolvimento, que é o adolescente. Para aqueles que já se encontram em uma situação de sofrimento, o mundo das teorias da conspiração online e grupos de ódio pode se tornar ainda mais atraente”.
Segundo ela, ex-extremistas disseram que esses grupos aos quais se vinculam, através de comunidades virtuais, se tornaram uma família para eles, combatendo sua solidão, exclusão e isolamento.
Cléo disse que a violência aumentou nas redes sociais, principalmente em 2022, e com a falta de regulação das redes e sua responsabilidade sobre os conteúdos, “temos o caldeirão perfeito para uma escalada de violências”.