PERFIL

Palácio, Gabinete 172: a rotina de Felicio Ramuth no governo de São Paulo

Por Xandu Alves | São Paulo
| Tempo de leitura: 5 min
Naiara Santos / OVALE
Felicio Ramuth, vice-governador de SP
Felicio Ramuth, vice-governador de SP

Felicio Ramuth quer o movimento. Governador de São Paulo em exercício na última semana, o vice-governador faz do contato com as pessoas remédio contra a burocracia. “Nossa missão é mudar a vida das pessoas, não fica no ar-condicionado”, diz ele, como um mantra.

OVALE esteve com Felicio na última terça-feira (28) para conhecer sua rotina no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista, e de como se adapta à nova realidade, bem diferente de ter sido prefeito de São José dos Campos por cinco anos e três meses.

De volta ao movimento, ele admite dificuldade em se acostumar à rotina, especialmente na vida pessoal. Tenta fazer academia todos os dias, por exemplo, mas os compromissos o tiram da esteira.

A família – Vanessa Ramuth e a filha Isadora, 17 anos – ficou em São José, para onde ele vai aos finais de semana quando a agenda permite. De vez em quando, a mulher vem para a capital. Ele conta que Vanessa enviou comida congelada para que ele não abusasse de pedir refeição em aplicativos. “Na correria, a gente come o que é mais fácil. A barriga pode crescer”, brinca.

A maior diferença, segundo Felicio, é a obrigação de segurança pessoal para toda a família, com a qual ainda não se acostumou. “É exigência e respeito”, afirma, num rasgo de humildade.

ACELERAÇÃO

A natureza de Felicio o fez uma pessoa acelerada, que prefere a rua aos gabinetes. Não teve tempo, e nem paciência, para contemplar as belezas do Palácio dos Bandeirantes, cujo acervo tem 4.000 peças. Mas um imenso livro-catálogo na mesa de centro do seu gabinete traz todo o acervo detalhado. “É muito bonito”, constata.

Felicio ocupa a ampla sala 172 de cerca de 40 m² no primeiro andar do suntuoso edifício construído entre 1955 e 1964, quando tornou-se sede do governo paulista e ganhou o nome Bandeirantes.

O gabinete de Felicio está numa das laterais da fachada frontal do prédio histórico e fica abaixo da sala do governador Tarcísio de Freitas, no segundo andar.

Com amplas janelas e portas-balcão, o governador em exercício pode sair da sala e andar pela varanda e contemplar as árvores dos jardins do Palácio e do bairro do Morumbi. Palmeirense roxo, Felicio consegue escutar os torcedores são-paulinos em dias de jogos no estádio tricolor, nas proximidades.

Confessa não ter tido tempo sequer de trazer fotos da família para a mesa de trabalho. “Ainda estão embaladas depois que deixei a prefeitura. Apenas escolhi os quadros porque isso era protoloco”, diz, optando por uma pintura da antiga São Vicente na parede atrás de sua cadeira.

GABINETE

A mesa de trabalho de Felicio é de madeira com tampo de vidro e não tem quase nenhuma decoração, a não ser o livro “Gênesis”, do fotógrafo Sebastião Salgado, que ele ganhou de presente. Itens espalham-se por ali: pastas, papéis, jornais, computador e canetas.

A sala é a única do Palácio a manter o estilo original, com as paredes de madeira. Então governador, João Doria pintou portas de preto e paredes de cinza pelo prédio. As estruturas devem voltar às cores originais em nova reforma de Tarcísio.

A cor da madeira é a mesma do relógio de pêndulo de 1700, que ainda funciona e tem o tamanho de um adulto, maior relíquia do gabinete. Felicio também gosta da moderna cafeteira elétrica, com a qual faz questão de servir café a quem recebe, como prefeitos, parlamentares e autoridades.

Na mesa de reuniões, Felicio colocou a diminuta réplica do Monumento às Bandeiras, que ganhou dos deputados em sua posse, em 1º de janeiro. A escultura original é de Victor Brecheret e decora o Parque do Ibirapuera. “Tenho apreço pela democracia”, afirma, sobre a relação com o parlamento.

Sobre o trabalho, Felicio, que mora perto do Palácio, diz que seu dia não tem hora para começar e nem acabar, embora a programação seja rigidamente definida, em razão da segurança. O expediente, que deveria encerrar por volta de 19h, quase sempre vai além.

“Posso ter entrevistas pela manhã, reuniões à tarde e no período noturno. Ou passar o dia em agenda externa, o que mais gosto”, conta, enumerando quase 20 cidades que já visitou desde 1º de janeiro, boa parte delas no Vale do Paraíba – esteve em São José novamente na sexta-feira (31).

PERTO DO POVO

Felicio diz que vai instalar um pequeno escritório no centro paulistano para acompanhar os trabalhos na Cracolândia, como um dos líderes da força-tarefa ao lado da Prefeitura de São Paulo para resolver o drama histórico dos dependentes químicos.

Ele também traz para o Estado a experiência em gestão pública à frente de São José dos Campos, espinha dorsal de seu plano de governo como candidato a governador.

“São José tornou-se referência e vários avanços que tivemos em nossa gestão vamos trazer para cá”, afirma, listando áreas como segurança, mobilidade e a própria gestão pública inspiradas pelo ‘jeito joseense de governar’.

Para fugir de uma espécie de ‘governador-avô’, que entrega o neto aos pais quando a criança chora, Felicio diz que ele e Tarcísio governam em parceria com as prefeituras, ouvindo os municípios, compartilhando e integrando-se a eles e seus problemas, sem deixar de assumir as responsabilidades próprias do Estado, como a segurança pública.

“A tragédia em São Sebastião foi um exemplo de como vamos governar, sempre ao lado de prefeitos e prefeitas. Também retomamos vários convênios com o governo federal que a briga política não permitiu no passado. A ideologia tem que ficar de lado.”

Sobre o poder, ele diz manter a vaidade sob controle após virar o centro das atenções em eventos públicos, como ocorreu em Campos do Jordão e Potim na última semana. Confessa preferir a informalidade a protolocos cerimoniais, como nomear todas as autoridades presentes repetidas vezes. “Faz parte do jogo político”, conforma-se.

Em movimento, Felicio está feliz.

Ele projeta ao lado de Tarcísio fazer o “melhor governo da história de São Paulo”. Ao final do mandato, quer ver a economia mais forte e com mais empregos, tirar pessoas em áreas de risco e melhorar a saúde, educação e segurança.

Para tanto desafio, é melhor Felicio garantir a academia diária. Vai precisar de fôlego.

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