Os ataques à sede dos três poderes da República em Brasília e as paralisações e destruições em outras cidades do país, em 8 de janeiro de 2023, revelam que o Brasil sofreu uma tentativa de golpe de Estado.
Não foram apenas protestos contra o governo legitimamente eleito. Portanto, há uma bomba a ser desarmada. Mas como fazer isso?
Há um movimento negacionista político e ideológico que contamina milhares de pessoas, como àquelas em frente aos quartéis por dois meses esperando uma intervenção militar fora da lei.
Após as prisões em consequência dos ataques golpistas, há detidos em Brasília reclamando da falta de sinal de wi-fi, como se não estivessem presos, mas curtindo um final de semana numa colônia de férias.
“Os golpistas procuraram gerar um quadro de instabilidade, a começar por Brasília, irradiando em outras localidades, como em São Paulo. O objetivo seria criar um quadro de aparente desgoverno que justificasse a intervenção militar, mas acho que estava fadado ao fracasso, não havia apoio institucional e social para o golpe”, analisou o jurista Pedro Dallari, professor titular do Instituto de Relações Internacionais da USP (Universidade de São Paulo).
Para Dallari, que foi coordenador e relator da Comissão Nacional da Verdade, a primeira medida a ser tomada é punir na forma da lei todos os que participaram da tentativa de golpe no Brasil, direta ou indiretamente.
“Tem que haver punição a quem participou dos atos criminosos, sejam civis ou militares. Tudo como determina a lei. Tem que haver o devido procedimento de apuração e julgamento”, disse.
A segunda medida ´[e um ‘choque de realidade’ naqueles que ainda não compreenderam que participaram de uma tentativa de golpe, e minimizam os ataques como expressões de liberdade e de protesto, o que não são, mas crimes.
“Eles precisam de um banho de realidade. Tem que se cumprir a lei. Se há condutas criminosas, têm que ser apuradas e as pessoas processadas e julgadas. Tem que ser feita essa apuração da mesma forma de qualquer ato criminoso.”
Por fim, o jurista e professor defende que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estabeleça um diálogo com a parcela bolsonarista que não se envolveu em crime, que é a maioria do eleitorado do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
“O atual governo tem que estabelecer um diálogo com a sociedade, fazer o que Lula declarou de que seria o presidente de todos os brasileiros. O governo tem que ser voltado para todos os brasileiros, e isso envolve diálogo. Tem que ouvir e entender, mas a melhor resposta será um bom governo. Um governo inclusivo, que procure superar os problemas sociais e as mazelas da sociedade brasileira”, afirmou Dallari.