Andar a pé eu vou.
Como nos deslocaremos nos próximos anos mas cidades?
Para reduzir a poluição, motores a combustão estão sendo substituídos por elétricos, mas ainda falta atingir a grande escala e a massa populacional.
Transporte coletivo está em crise na maior parte das cidades brasileiras, com as prefeituras tateando para encontrar modelos econômica e ambientalmente sustentáveis.
O desafio é incentivar as pessoas a deixar de usar carros e se desloquem por veículos coletivos. Nesse contexto, tem que tornar o sistema rápido, barato e limpo.
Não é nada fácil, e São José dos Campos está enfrentando justamente essas dificuldades para mudar seu sistema de transporte público.
A primeira tentativa mantinha o modelo de uma empresa tocando todo o sistema e naufragou com a Viação Itapemirim, que venceu a licitação e não cumpriu o contrato, sendo desqualificada.
Com isso, a prefeitura mudou as regras do sistema, separou a operação financeira e apostou em veículos elétricos, além de colocar a Urbam (Urbanizadora Municipal S/A) na jogada, uma empresa ligada à administração da cidade.
Segundo o prefeito de São José, Anderson Farias (PSD), a meta é fazer com que os ônibus elétricos atraiam cada vez mais passageiros e diminuam a quantidade de gás carbônico lançado no trânsito da cidade, por meio dos carros.
A métrica do governante é a Linha Verde, novo corredor viário da cidade que liga a zona sul à região central por meio de ônibus elétricos e rápidos.
“A Linha Verde está cumprindo dois papéis importantes no sistema. Primeiro com um modelo novo do corredor, sendo 100% sustentável e integrado ao sistema existente hoje. E também de pessoas que estão deixando o carro em casa para usar a Linha Verde, que é um papel do sistema de transporte público”, afirmou Anderson (leia mais nas páginas 14 e 15 do Documento OVALE).
A cidade também aposta no transporte de bicicleta e investe em ciclovias, incluindo um plano para dotar o Anel Viário de faixas exclusivas para os ciclistas.
Incentivar o uso de bicicletas, melhorar a vida dos pedestres e estimular os transportes coletivos, daqui para frente, serão essenciais para a qualidade de vida nas cidades do país e em todo o planeta, especialmente nas médias e grandes.
A expectativa é que em 2050 o mundo chegue a uma frota de 2 bilhões de veículos, mais de meio bilhão acima da estimativa atual, que promoverão um aumento de 60% nas emissões de gases do efeito estufa do setor de transportes em nível global.
O cálculo foi apresentado pelo indiano Ani Dasgupta, presidente do WEI (World Resources Institute), no evento internacional Transforming Transportation 2022, em fevereiro do ano passado.
Dasgupta classifica esse cenário como insustentável. Combatê-lo é um exercício que envolve várias frentes de trabalho, a começar pela reconfiguração das cidades para encurtar os deslocamentos da população em sua rotina, seja de trabalho, escola, consumo ou lazer. Logo, passa por sistemas de transporte de qualidade, bem como infraestrutura segura para os chamados modos ativos de mobilidade, como caminhadas e trajetos de bicicleta.
No Brasil, tal demanda se une à de combater o atraso na cobertura do transporte público coletivo. O Pilpi 2021-2050 (Plano Integrado de Longo Prazo da Infraestrutura), do governo federal, aponta que o hiato de infraestrutura de mobilidade urbana no Brasil soma mais de 1.000 quilômetros entre VLTs, BRTs de média e longa distância, metrôs e trens leves e pesados, totalizando um investimento estimado em R$ 367 bilhões.
Tal estrutura pode não ser realizada no horizonte de 30 anos previsto pelo plano. No campo das grandes obras do setor, o Pilpi identifica 20 projetos em estruturação ou implantação que demandarão investimentos próximos de R$ 100 bilhões. Para financiá-los, a forma mais comum são parcerias público-privadas, especialmente as concessões patrocinadas, em que parte das contraprestações são pagas pelo poder concedente.
Outro entrave à expansão do transporte público no país é a insuficiência de recursos via tarifa para financiar o sistema de ônibus públicos coletivos, problema que foi acentuado pela pandemia. Cidades da RMVale enfrentam esse problema nos dias atuais e já planejam subsidiar o sistema de transporte.
PREJUÍZO NO TRANSPORTE PÚBLICO
Levantamento da NTU (Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos) aponta que, do início da pandemia a meados de 2021, a queda na demanda por esse transporte resultou em perdas acumuladas de R$ 16,7 bilhões.
“Uma das possibilidades é trabalhar com um modelo de leasing, tirando parte do peso do investimento das operadoras”, disse Fernando Pompermayer, especialista em infraestrutura do transporte. “Estamos falando de uma centena de cidades com mais de 300 mil habitantes que poderiam passar por esse processo”.
O financiamento ao transporte público precisa ser reestruturado levando em conta a emergência de novas tecnologias, como a eletrificação, que no Brasil ainda caminha a passos lentos. Levantamento da plataforma E-Bus Radar, da UFRJ, mostra que o Brasil é o quarto na América Latina em adoção de ônibus elétricos. O ranking é liderado pelo Chile, que em meados de 2021 contava com 891 ônibus, contra 351 no Brasil.