A descontinuidade no acompanhamento e tratamento da diabetes em período de pandemia de Covid-19 acendeu um alerta nacional que reflete na RMVale: o número de amputações de membros inferiores decorrentes da doença cresceu de 2019 para 2021. Especialistas reforçam importância dos exames periódicos como prevenção.
Condição conhecida como Pé Diabético, uma neuropatia consequente de danos irreversíveis em vasos sanguíneos e nervos, a anomalia pode levar à necrose da base das pernas se cuidados com a enfermidade forem negligenciados.
Em 2021, segundo ano da crise sanitária, a média nacional foi de 79 amputações de membros inferiores por dia, todas ligadas a diabetes descompensada ou não tratada por tempo prolongado. Os dados são da SBACV (Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular), que identifica um crescimento de 20% dos casos em comparação a 2019.
Na RMVale, Região Metropolitana do Vale do Paraíba, a Secretaria do Estado de Saúde informa que essas amputações passaram de 190 para 210 na comparação entre o período de janeiro a setembro de 2020 e de 2021. Neste ano, por outro lado, os dados evidenciam queda para 158 casos.
Evolução.
O Pé Diabético se apresenta de três formas: motora, sensorial e autonômica, explica Seleno Glauber, cirurgião vascular. "Surgem deformidades em regiões de maior contato e pressão. O pé fica ressecado, com fissuras. A perda de sensibilidade é muito comum."
Nestes casos, como não percebem que machucaram os pés, diabéticos costumam procurar socorro com lesões já graves, em processo de necrose. O tratamento envolve a amputação de dedos, calcanhar ou mesmo de todo o membro.
"Não há conduta conservadora nesse estágio. Para salvar a vida, é necessária a remoção do tecido e prescrição de antibióticos potentes", diz Glauber.
Uma das causas apontadas por especialistas para o aumento dos casos de amputação nos últimos anos é a descontinuidade no acompanhamento de pacientes durante a pandemia.
Em São José dos Campos, por exemplo, reuniões mensais do Grupo de Hipertensos e Diabéticos feitas em UBS (Unidade Básica de Saúde) tiveram de ser paralisadas em 2020 e 2021 como forma de evitar aglomerações. Agora, voltam em algumas unidades.
"Nos encontros, pacientes são orientados por equipe multidisciplinar e têm os pés avaliados para identificar possíveis traumas", diz a enfermeira Renata Cristina Silva Pinto, chefe da Atenção Primária em Saúde da prefeitura.
Prevenção.
A endocrinologista Cybelle Adourian Louback afirma que levar uma vida saudável e não fumar são boas maneiras de prevenir a diabetes, da mesma forma como a realização de exames periódicos de sangue para aferir índices de glicose é prática recomendada para diagnósticos precoces.
"Os sintomas começam a aparecer quando a glicemia já subiu muito e envolvem perda de peso sem motivo aparente, muita sede, muita urina e muita fome", explica.
A diabetes atinge aproximadamente 15 milhões de brasileiros, segundo a SBACV. Com controle adequado da doença, o paciente consegue levar uma vida normal.