AEROESPACIAL

Guerra por cérebros: associações acusam Boeing de cooptar engenheiros brasileiros

Por Xandu Alves | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 4 min
Divulgação
Galpão da Boeing
Galpão da Boeing

A guerra por cérebros.

Com mais de 150 mil funcionários ao redor do mundo, a Boeing está de olho em cérebros brasileiros. E vem faminta.

A ação da fabricante é classificada como predatória e tem como alvo engenheiros qualificados e altamente especializados da indústria aeroespacial brasileira, com foco em São José dos Campos.

Em reação, duas das mais importantes associações brasileiras de indústrias do setor aeroespacial e de defesa acusam judicialmente a gigante norte-americana de cooptar talentos brasileiros para seus quadros.

Classificado como assédio irregular, tal movimento desfalca empresas nacionais, compromete projetos estratégicos e impacta a soberania nacional especialmente na área da BID (Base Industrial de Defesa).

Contra esse movimento, a Abimde (Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança) e a Aiab (Associação das Indústrias Aeroespaciais do Brasil) entraram com uma ação civil pública acusando a Boeing de cooptar engenheiros brasileiros.

A ação tramita na 3ª Vara Federal de São José dos Campos, berço da indústria aeronáutica brasileira, sede da Embraer e do ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica) e epicentro dessa disputa. A Justiça já pediu ao Ministério da Defesa que se manifeste formalmente sobre o assunto, em prazo que deve vencer nas próximas semanas.

A Boeing é acusada de “captura sistemática e contratação de engenheiros de empresas que fazem parte da do país”.

“A cooptação desses profissionais, que são altamente qualificados, coloca em risco a sobrevivência dessas empresas e, sobretudo, ameaça a soberania nacional, um dos fundamentos da Constituição Federal”, informam as associações.

Segundo apurou OVALE, já são cerca de 300 engenheiros cooptados pela Boeing e o ritmo teria se acelerado nos últimos três meses. Para cada um desses engenheiros, em efeito cascata, o setor perderia outros 45 profissionais dentro da cadeia produtiva.

“A Aiab defende a livre concorrência e o livre mercado. Mas tais princípios não são absolutos. Devem sujeitar-se a imperativos constitucionais como a soberania nacional, conforme estabelecido no artigo 170 de nossa Constituição. O que está em jogo, portanto, é algo muito maior do que quaisquer interesses individuais ou coletivos”, disse Julio Shidara, presidente da associação.

ESCRITÓRIO

De acordo com pessoas ligadas ao setor aeroespacial e de defesa, a Boeing abriu dezenas de vagas para contratar engenheiros no Brasil em maio deste ano, diferente do que fazia no passado, com contratações esporádicas. A meta seria formar uma equipe para a abertura de um escritório de engenharia em São José dos Campos.

Em julho, novas vagas foram abertas e começou o atrito com as concorrentes, em razão de êxodo de engenheiros altamente qualificados e especializados para a Boeing, que estaria oferecendo salários maiores, boa estrutura e projetos ambiciosos.

De acordo com empresas brasileiras do setor, a medida ameaça tanto a cadeia produtiva quanto a soberania nacional, em áreas consideradas estratégicas para o desenvolvimento do país, além da possível exposição de informações confidenciais na área de defesa.

“O impacto já é expressivo: dez das mais importantes empresas estratégicas do setor de defesa já tiveram engenheiros cooptados pela Boeing. Algumas perderam cerca de 70% da equipe de áreas específicas e essenciais para o negócio”, afirmou Roberto Gallo, presidente da Abimde.

Segundo as entidades, os profissionais que têm sido cooptados pela Boeing são subtraídos principalmente do segmento aeroespacial. Trata-se de engenheiros altamente qualificados, formados em instituições públicas, como ITA, UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), com mais de 10 anos de experiência.

“Esses profissionais participavam de projetos nas áreas de defesa e segurança ou detinham conhecimento essencial à soberania nacional. Por isso, tiveram acesso a informações qualificadas e dados classificados de projetos estratégicos para o país”, apontam as entidades.

Procurada, a Boeing informou que, no momento, não tem nada a dizer sobre o tema.

EMBRAER

Ao lado de entidades brasileiras do setor de Segurança e Defesa, a Embraer apoia ação contra a Boeing por estratégia da empresa norte-americana de cooptação de engenheiros brasileiros.

Segundo informações do portal Aviacionline, a Embraer declarou apoio ao processo movido pela Abimde e a Aiab contra a gigante da fabricação aeroespacial mundial. A ação tenta fazer com que a Boeing deixe de cooptar engenheiros qualificados que trabalharam em empresas brasileiras.

As entidades querem que haja uma limitação no número de contratações anuais de engenheiros por parte da Boeing no país.

“A Embraer apoia a ação judicial movida contra a Boeing. Acompanhamos as instâncias do caso sabendo que se trata de um assunto de interesse nacional", informou a Embraer, em nota, segundo o portal. Os profissionais contratados pela Boeing são principalmente do segmento aeroespacial.

Em abril de 2020, a Boeing anunciou desistência da compra bilionária de parte da Embraer. Em negociação desde 2017, o negócio acabou com a fabricante afirmando que a Embraer não cumprira exigências do acordo. A brasileira negou irregularidades e buscou medidas judiciais.

Comentários

2 Comentários

  • Renato 27/11/2022
    Essa questão é fácil resolver! É só as empresas valorizarem os profissionais que tem no Brasil, pagando melhores salários, cada dia que passa o setor aeronáutico quer reduzir custos e salários.
  • Octavio Augusto Ferraz de Camargo Coelho 25/11/2022
    Se as empresas Brasileiras não pagassem essa merreca, cortes de benefícios , exploração dos empregados alguém acha que sairiam? É só pagar um salário igual ou superior e oferecer não só melhores benefícios como oferyar um plano de carreira adequado, sem mimimi ou bla bla bla. Chora agora. Ótimo que essa debandada esteja ocorrendo e aumente cada dia mais!