ENTREVISTA

‘Política no governo Bolsonaro é marcada por discurso de ódio’, diz Ivo Herzog

Por Xandu Alves | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 5 min
Reprodução
Monumento ‘Tortura Nunca Mais’ de Oscar Niemeyer
Monumento ‘Tortura Nunca Mais’ de Oscar Niemeyer

Filho do jornalista Vladimir Herzog, torturado e assassinado por agentes do regime militar, em 25 de outubro de 1975, o engenheiro Ivo Herzog, que tinha nove anos naquela época, é diretor do conselho do instituto que leva o nome do pai.

A missão é defender a democracia, a liberdade e os direitos humanos. “A gente faz isso atuando nas áreas de educação, memória e jornalismo”, disse ele a OVALE.

Herzog espera uma mudança no país com as eleições presidenciais para preservar a democracia: “Estamos caminhando para um Estado fascista, autocrata”. Confira.

Como estão os direitos humanos no Brasil no governo Bolsonaro?

Tínhamos um processo de construção de políticas públicas em direitos humanos com apoio institucional do Estado, que acontecia de maneira lenta mas consistente, até o final do governo de Dilma Rousseff (PT). A partir daí, especialmente com Bolsonaro, houve processo acelerado de desconstrução dessas políticas. Conselhos que foram desfeitos ou aparelhados por pessoas da extrema direita. A própria Secretaria Especial de Direitos Humanos virou aquele horror com a Damares [Alves], que passa a ter um cunho religioso, quando o Estado deveria ser laico.

O que vejo é que vínhamos num processo de consolidação de direitos humanos, com muitas coisas para ser feita, mas agora temos uma política às avessas aos direitos humanos. Na proteção dos povos originários, na questão das minorias de raças, religião e opção sexual que vêm sendo atacadas pelo atual governo.

O ódio saiu do armário?

Exatamente isso. Quando vemos o próprio presidente zombando das minorias, começa a legitimar as fontes de ódio. Temos no mundo grupos com discursos de ódio, preconceito e racistas, mas tradicionalmente tem o Estado tentando mediar esse tipo de coisa e punir esses discursos. No Brasil, o Estado promove esses discursos de ódio e essas discriminações. Temos um processo de legitimar esses absurdos.

Que risco corre o país?

O risco é justamente atacar a democracia, que tem dois elementos fundamentais. A maioria escolhe àqueles que vão nos representar na estrutura governamental. A segunda característica intrínseca à democracia é a existência da diversidade. Essa política que existe desse governo, que é marcado por discurso de ódio, e se Bolsonaro ganhar dará um passo nessa direção, é que não se aceita o diferente e a diversidade. O Estado diz que ela deve ser eliminada. O jeito de pensar desse governo é só o que eles pensam que é correto. O pensamento diferente é criminalizado.

O que pode ocorrer?

Estamos caminhando para um Estado fascista, autocrata. O que é comum nesse discurso de extrema direita, e também no da extrema esquerda, é destruir as instituições construídas pela democracia e colocar no lugar um modelo de governo que dê todo poder ao Executivo, com o Legislativo e o Judiciário ficam submetidos. O Executivo tende a se perpetuar no poder. Vemos isso acontecendo na Venezuela, na Rússia e em vários países do mundo. Extremistas destruindo a estrutura do Estado para que o poder não seja questionado.

Temos que entender que a família Bolsonaro tem muito disso. Nesse modelo de Estado, não há transparência, que é uma virtude da democracia. O autoritarismo não é transparente. A gente vê Bolsonaro decretando sigilo de 100 anos em várias questões.

A democracia corre risco?

É destruir a democracia com aval da própria democracia. Bem ou mal, é um governo eleito. Temos debate sobre se é uma eleição justa ou não. No final das contas, é um processo que vai minando a democracia por dentro.

Pesquisas mostram que mais de 70% da população apoia a democracia. Nesse contexto, surpreende Bolsonaro ter apoio de milhões de brasileiros?

É surpreendente esse apoio que Bolsonaro tem. É triste e frustrante. Na primeira eleição dele, tinha o sentimento muito contrário ao PT. Muita gente disse que não esperava ver o que Bolsonaro fez, como a condução criminosa da Covid-19. Ver tudo isso e ainda ter milhões apoiando o presidente já não é a questão mais do antipetismo.

Precisamos entender a sociedade que vem se tornando extremamente conservadora, na qual o ideário que tivemos de uma sociedade melhor, mais justa e com liberdade, com melhor educação, está sendo substituída com pauta conservadora, da família tradicional e outras questões. É um processo que não é apenas no Brasil. Temos esse ciclo correndo pelo mundo e acho que ainda não compreendemos direito o que causa isso, nesse mundo digital. O que vemos é que boa parte desse discurso extremamente conservador é construído com parte de mentiras, de fake news. As redes sociais vieram para impulsionar essa disseminação de desinformação.

Como você vê as fake news nessas eleições?

Piorou muito comparado a 2018. O combate às fake news aumentou bastante. Vemos o TSE e o STF muito presentes e tentando combater, mas estamos sempre um capítulo atrás de quem cria a desinformação. O sistema tem que procurar um meio de combater essas fake news e também de como punir, de maneira mais incisiva e objetiva. Tem que ir para cadeia mesmo.

O preconceito contra os pobres?

O país é muito preconceituoso e racista. Não entendo como alguém que tenha sido progressista na vida não queira votar no Lula agora. Só o preconceito explica isso. Bolsonaro ofende os nordestinos. Tem um ranço e cultura de preconceito muito forte. Nos EUA também esses problemas, mas lá desenvolvem políticas públicas para resolver, aqui a gente esconde debaixo do tapete.

Vê risco de golpe no Brasil?

Olha, há quatro anos, achava impossível Bolsonaro ganhar a eleição. Errei. Hoje, apesar de ver o Brasil com solidez e maturidade das instituições, com protagonismo global e importante, mas tenho medo do que vai acontecer com a vitória do Lula. O governo não vai aceitar o resultado das urnas como deveria.

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