RELIGIÃO

Santuário de Aparecida vira refúgio em defesa da democracia

Por Xandu Alves | Aparecida
| Tempo de leitura: 3 min
Caique Toledo / OVALE
Dom Orlando Brandes, arcebispo de Aparecida que virou alvo de bolsonaristas
Dom Orlando Brandes, arcebispo de Aparecida que virou alvo de bolsonaristas

O Santuário Nacional de Aparecida tornou-se refúgio em defesa da democracia e de crítica ao autoritarismo, ódio e ao obscurantismo ao longo do governo do presidente Jair Bolsonaro (PL), que tenta a reeleição.

Mas essa postura já vem de muito antes, tendo sido marcada pelos últimos três arcebispos que comandaram a Arquidiocese de Aparecida.

O combate ao ódio e à divisão do país tem sido a marca pastoral de dom Orlando Brandes, que veio de Joinville (SC) para assumir Aparecida em janeiro de 2017, uma das arquidioceses mais importantes do país, em razão do Santuário Nacional de Aparecida.

Maior templo mariano do mundo, a Basílica Nacional deu força às palavras dos pastores de Aparecida, que se transformaram em bastiões da democracia e combatentes da desigualdade. Suas armas são as palavras.

Por essa postura, Brandes coleciona polêmicas com os bolsonaristas, em razão de suas homilias recheadas de críticas a temas caros ao presidente Jair Bolsonaro (PL), como o armamentismo.

A frase “a pátria para ser amada, não pode ser pátria armada” no sermão da festa de Nossa Senhora Aparecida do ano passado foi o estopim para a ira bolsonarista, que chega ao cume neste ano, quando Brandes pregou contra o “dragão da mentira, do ódio, do desemprego, da fome e da incredulidade”.

Ele vem sendo atacado nas redes sociais e chamado de comunista. Há quem peça a excomunhão do religioso.

IDOLATRIA

Em 2020, Brandes disse no sermão que “temos que nos despir da idolatria, às vezes idolatrando pessoas autoritárias”. Falou ainda que é preciso “despir-se da arrogância, do armamento”.

No ano anterior, no primeiro do governo Bolsonaro, Brandes criticou o “tradicionalismo” e disse que “a direita é violenta e injusta”. Na época, falou para mais de 40 mil pessoas que lotavam a Basílica de Aparecida.

“Nas escrituras, o dragão é o diabo, o demônio, o mal que se organiza no mundo. Temos o dragão do tradicionalismo. A direita é violenta, é injusta. Estamos fuzilando o papa, o sínodo, o Concílio Vaticano 2º, parece que não queremos vida.”

Antes de Brandes, dom Raymundo Damasceno Assis também teve sua parcela de ataques.

O agora arcebispo emérito de Aparecida liderou a arquidiocese por 13 anos e tocou em temas que o fizeram alvo de radicais: ele se opôs ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e também pregou contra armar os cidadãos, espalhar notícias falsas e dividir politicamente o país. Defendeu ainda a reforma política.

Numa das reflexões mais fortes do cardeal em Aparecida, diante de movimentos que pediam intervenção militar no país, ele disse que o Brasil não deveria voltar à ditadura. “Quem viveu a experiência de uma ditadura não quer revivê-la”, afirmou.

Precursor de Brandes e Raymundo e terceiro arcebispo de Aparecida, o cardeal dom Aloísio Lorscheider (1924- 2007) foi reconhecido como um dos religiosos mais progressistas da Igreja Católica.

O franciscano Lorscheider lutou a vida toda contra a pobreza, a desigualdade e as injustiças, inspirado em São Francisco de Assis. Em Aparecida, apaziguou presos durante uma rebelião na cadeia local com sua fala mansa e seu jeito fraterno. Também pagou o preço de optar pelos mais pobres e foi diversas vezes atacado ao longo do seu pontificado em Aparecida, de 1995 a 2004, quando a internet ainda engatinhava.

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