OVALE Entrevista

‘Temos um Estado cego para as necessidades da população’, diz Fernando Haddad

Por Xandu Alves |
| Tempo de leitura: 8 min
Crítica. Haddad diz que o Estado está “sem visão” e dificultando a vida da população
Crítica. Haddad diz que o Estado está “sem visão” e dificultando a vida da população

Ex-ministro da Educação por sete anos, Fernando Haddad (PT) criticou a gestão do PSDB na área em São Paulo: “Falta comando e liderança”.

Segundo o petista, que é candidato ao Palácio dos Bandeirantes, o Estado está “sem visão” e dificultando a vida da população, especialmente dos mais pobres e dos empreendedores.

“Temos um Estado cego para as necessidades da população”, disse Haddad durante a sabatina do ‘São Paulo em Debate’. Confira a entrevista na íntegra.

Como avalia a gestão do PSDB?

Temos uma crise de visão, um Estado cego para as necessidades da população. Comete barbaridade de taxar carne e leite numa crise de alimentação. Cortou o ‘Leve Leite’ na capital. Confisca salário de professores aposentados. Há uma inversão de valores em São Paulo. Não é difícil colocar de volta nos trilhos. São Paulo é estado poderoso e, com pequenos ajustes, podemos dar o melhor para a população.

O que fazer contra a desindustrialização no Vale?

Cometemos três equívocos simultâneos: subir impostos enquanto outros estados estão baixando, não estamos respeitando os exportadores e não investimos em inovação. São Paulo responde por 50% da produção científica nacional e o Brasil por 50% da produção latino-americana. Porque não usamos o capital humano que temos para reindustrializar o estado? Temos uma das melhores engenharias do mundo. Não acha um ITA em cada canto. Vou criar o Sistema Estadual de Inovação, com instituições de pesquisa, empresas e governo. Como fez a Califórnia.

Como o Parque Tecnológico São José dos Campos integra esse projeto de inovação?

Esses assuntos não estão na mesa do governador. É muito sério para delegar para secretário, por mais importante que ele seja. Vamos chamar todas essas entidades e escolher os primeiros projetos: motor híbrido, produção de energia do bagaço da cana, tecnologia da informação.

Tem que estabelecer os carros-chefes do Estado para a próxima rodada de industrialização. Tem as instituições de pesquisa e as empresas para responder. Tem que escolher o que fazer e investir. Fazer o que é estratégico e investir. Tem ciência por trás.

O Estado precisa aproximar as partes e coordenar as ações. Muitas vezes a culpa é do Estado por não fazer a sua parte. Tem que integrar os sistemas de inovação, e começa pelo chefe do Executivo, ganha ímpeto. O primeiro estímulo é político.

A corrupção é mácula na história do PT. Como assegurar ao eleitor que esse tipo de prática não vá se repetir em SP?

Como julgar governo em relação à corrupção? É quanto fortaleceu os órgãos de combate e deu liberdade às entidades para agir. Esse é um governo comprometido. Nunca vi o presidente Lula trocar superintendente da Polícia Federal de lugar para proteger um filho, nem nomear procurador se não fosse escolhido pela categoria. Lula fortaleceu a PF como nenhum outro.

Passei 7 anos no Ministério com orçamento de R$ 100 bilhões e não há nenhum escândalo. Na prefeitura de SP, em 18 meses, desbaratei 18 quadrilhas envolvendo muita gente grossa.

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Como tirar o Vale da liderança da violência?

Não é questão de escolha. Toda região com mais de 10 mortes por mil habitantes está em situação epidêmica. A ONU recomenda atuar de maneira implacável. Se Estado quiser, tem efetivo para fazer, mas sem delegado e investigador não vai chegar a lugar nenhum. Temos que investir na investigação. Não se consegue evitar crime por flagrante. Tem que ter policiamento ostensivo para passar a sensação que tem o controle do Estado, e daí dar lugar à investigação. Em geral, há associação criminosa por trás, e não se faz sem inteligência e falta de efetivo da Polícia Civil.

Como fazer com delegacias sucateadas?

A Polícia Civil está em situação deplorável por falta de investimento em efetivo. Tem que desbaratar a quadrilha de receptação, com trabalho de inteligência. Mas quando se tem 15 mil pessoas a menos, eles estão batendo carimbo e resolvendo questões burocráticas, Não tem os elementos humanos para chegar ao andar de cima do crime organizado.

Vamos fazer uma segurança pública integrada, valorizar profissionais e devemos satisfação à sociedade como servidores públicos. Zelar para que tenhamos resolutividade e isso não se fará com a gestão como está organizada. PM e Civil estão olhando para lados diferentes.

A ligação do Vale com a capital por ferrovia é viável?

Havia 17 mil km de ferrovias para passageiros em SP, e hoje tem 2.000 km. Rodovia é importantíssima, mas não é solução e não resolve transporte de massa. No caso do Trem Intercidades, não há nada feito. Em quatro anos vou fazer cinco vezes mais do que fizeram pelo Trem Intercidades. Tem que ter ao menos o projeto executivo do trem.

O PT nunca governou o estado e o sr. perdeu a reeleição para a prefeitura no 1º turno. Quem errou? O sr. ou o eleitor?

Se achar que o eleitor errou, vamos começar a questionar o regime democrático. O eleitor é soberano. Os democratas têm que respeitar o julgamento do eleitor. Ele leva em consideração outras coisas. O PT perdeu 60% dos votos no Brasil em 2016, o ano do impeachment [da Dilma Rousseff]. Mas petista não esconde a estrela. Rodrigo Garcia nunca foi do PSDB e tinha vergonha de dizer que era do DEM. Tarcísio [de Freitas] não sabe o endereço dele em São José. A gente é tudo junto e misturado.

Eu dizia em 2016 que a ONU ia condenar o [Sérgio] Moro e a sentença iria cair. Paguei um preço e pagaria mil vezes para estar do lado certo. Não mudo de lado por pressão. Seis anos depois, veja o resultado. Temos presidente liderando as pesquisas e temos a primeira vez em 40 anos alguém do PT liderando no estado. Ninguém nasce pronto e aprendemos com os episódios. Fiz o melhor que pude para a cidade de São Paulo, com investimento recorde e redução da dívida pública.

Por que o sr. não veio tanto aqui na região?

Tem político tradicional que vem tomar café na região e acha que é fazer política, mas é trazer a Unifesp para o Vale graças à minha gestão no Ministério da Educação. Trouxe quatro institutos federais para a região. Distribuímos 700 mil bolsas do Prouni para paulistas e 3,4 milhões no país. São coisas concretas. Todos os prefeitos da região assinaram convênio comigo no ministério. Não se cobrava propina em ouro como cobra hoje no ministério. Presença se marca entregando benefício para a população. O corpo a corpo é entregar benefícios. Vou tomar muito cafezinho aqui depois da eleição.

Como melhorar a saúde do estado? O sr. continuará com a regionalização de hospitais?

Fundamental o Hospital Regional, mas alguns precários, e também as santas casas. Temos 300 entidades beneficentes e muitas não têm condições financeiras. Hospital Regional é importante, mas a hotelaria é cara e muitas cirurgias podem ser feitas em ambulatório. Gastamos com hotelaria sem precisar.

Proposta é construir 70 hospitais-dia, um para cada 400 mil habitantes, com consulta, exames e dois ou três centros para cirúrgicas eletivas, em que a pessoa possa se restabelecer em casa. Tem que ter visão mais global do problema da saúde com equipamentos diferenciados para atender sob medida.

O que fará pelo funcionalismo? Vai rever o plano de carreira?

Categoria de magistério têm as profissionais mais prejudicadas pelo governo. Confiscou aposentadoria de professor. Revolta do magistério é medonha. É difícil negociar salário quando se está no governo. A primeira coisa que o servidor percebe é se a sua conduta é positiva ou não. Tem que ter aval da categoria. Tenho medo de quem não negocia, seja governante ou servidor. Reestruturei 100% das carreiras do MEC e da prefeitura de SP.

E a educação no estado?

Falta comando e liderança. Vamos fazer plano de alfabetização emergencial para as crianças, programa de bolsas, incentivo para os jovens continuarem na universidade. Eles não têm culpa da pandemia e nem da má gestão. Fazer a reforma do ensino médio e pegar o Centro Paula Souza, Sistema S e vamos colocar as escolas estaduais para funcionar, com projeto sério. Precisa ter projeto pedagógico correto.

O que faria de diferente na pandemia da Covid?

Não congelaria o salário mínimo no período de crise alimentar. Temos a cesta básica mais cara do país. Não aumentaria ICMS também e nem imposto. Não dá para pagar imposto se não vender. Fui balconista e lojista por 18 anos. Desastre de proporções absurdas o que foi feito no estado. Perdemos empresas e pequenos empresários, desnecessariamente. O grande saiu no lucro e o pequeno, que dependia da porta aberta, perdeu.

Como a PM agiria em solução de piquetes em fábricas em greves e áreas invadidas no seu governo?

Depende da situação. Por falta de efetivo da PM, a Guarda Civil Ambiental teve que agir em desocupação de área pública, mas não faço jogando bomba nas pessoas. Tem que ser negociado.

Acredito no cumprimento da lei sem a necessidade de violência, quando do lado de lá tem o lado mais fraco, não bandidos. O governo é ‘tchutchuca’ com grileiros e não ainda sabemos quem mandou matar matou a Marielle [Franco] até agora.

Vamos exigir o cumprimento da lei e, quando houver questão social, vamos tratar dessa forma. Sempre analisando caso a caso para tomar a melhor decisão e não ficar carimbado como alguém que ficou truculento.

O que fazer para enfrentar a violência contra a mulher?

Causa estranheza a maneira como a mulher agredida é atendida. Obriga a fazer via-crúcis para ser atendida. Constrangimento para a mulher. Vou credenciar médicos nos postos de atendimento e pronto-socorro para que o médico faça o laudo e até possa fazer o boletim de ocorrência por teleconferência, com uma autoridade policial do outro lado.

Ter também o ‘Guardião Maria da Penha’ que vai visitar, de tempos em tempos, a mulher agredida para ver se as medidas protetivas estão sendo executadas. Estamos com uma gestão do problema em que a mulher é vitimada mais de uma vez. Temos uma engenharia para fazer e dar o melhor atendimento. Tem que ter proatividade na questão. Assinei carta-compromisso com a [empresária] Luiza Trajano de fazer um governo paritário entre homens e mulheres.

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