Aulas de reforço e atividades integrativas são alguns dos estímulos adotados por escolas para restaurar perdas de aprendizagem após a volta às aulas presenciais. Ainda assim, especialistas são realistas em afirmar que os impactos do período de isolamento ainda serão sentidos por tempo considerável, exigindo esforço conjunto para a readequação de conteúdos e relações interpessoais nas instituições de ensino.
Se por um lado estudantes com menos recursos foram lesados por falta de estrutura para acompanhar o ensino remoto, por outro a superexposição de jovens a telas luminosas de celulares e computadores resultou em um déficit de atenção desafiador a educadores.
Atrasos em grades curriculares e dificuldades de comunicação em plataformas digitais deixam marcas no desenvolvimento de habilidades. Principalmente, na fase de alfabetização: resultado do último Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica) divulgado no início de setembro, por exemplo, mostra que dobrou a proporção de crianças com dificuldade em escrita e leitura entre 2019 (15,5%) e 2021 (33,8%).
“A alfabetização é alicerce, por isso na pandemia a educação infantil foi a mais prejudicada. Aos menores, custa prender a atenção na tela. A sala é mais lúdica”, diz Rogéria Sprone, diretora pedagógica do Colégio Joseense, que oferece ensino do infantil ao técnico e, hoje, trabalha com plantões de dúvida e dinâmicas em grupo para ressocializar alunos. “Mas parceria e acompanhamento da família continua sendo fundamental”, afirma.
CASA
A assistente administrativa Marina Cristina Nunes Vieira, 34 anos, soube lidar com atividades propostas aos dois filhos pela creche municipal, mas conta que buscou reforço.
“No ano passado coloquei a mais velha, Maria Cecília, em aulas particulares de pré-alfabetização aos sábados. Eu não tinha didática e achava que ela precisava de mais contato com o abecedário”, explica. Leonardo Kawashita, diretor da unidade Rudge Ramos do Método Supera de ginástica para o cérebro, sugere que a família incentive, de fato, atividades que estimulem raciocínio e concentração (confira quadro ao lado).
Ele diz ter comprovado empiricamente, por aplicação de testes a alunos, que jovens voltaram do isolamento com perdas de atenção e de desenvoltura para solucionar problemas. Muito, diz, pela hiperconectividade a que aderiram. “Imersos no universo digital, eles estão mais introspectivos e criam a cultura de que tudo é resolvido pelo celular. Têm vergonha de tirar dúvidas simples, menos senso crítico”, relata.
“Isso pode ter consequência adiante, quando cobrados de habilidades comportamentais em situações de trabalho ou convívio.” O especialista faz um paralelo com o aplicativo de vídeos rápidos Tik Tok, febre entre adolescentes do mundo todo. “É uma geração que não se atenta mais que 20 segundos em algo, e isso reflete em classe. A sala de aula tem diâmica de interação prolongada”.
Estado coloca em prática programas que resgatam habilidades
A rede estadual criou ações para evitar evasão de estudantes e estimular habilidades enfraquecidas pelo ensino remoto. “Preocupados, nos reinventamos. Agora temos a recomposição de aprendizagem, reforço a partir do diagnóstico das necessidades dos alunos”, diz Maria Beatriz Salles de Oliveira, Dirigente Regional de Ensino em São José dos Campos. Atividades de escrita à mão e atividades coletivas, como leituras, integram o cronograma. Um psicólogo escolar dá apoio. Projetos promovem trocas de conhecimento e conteúdos.