A criação do Brasil.
Dom Pedro de Alcântara de Bragança, príncipe regente do Brasil, ergue sua espada e brada ‘Independência ou Morte’ às margens do riacho Ipiranga, na atual cidade de São Paulo, montando em seu portentoso cavalo. Era 7 de setembro de 1822.
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Mesmo que a cena tenha sido mais modesta do que a interpretação do famoso quadro de Pedro Américo, ela marca a data que ora celebramos após 200 anos daquele grito, que ecoou nos rincões do território nacional para constituir a nação brasileira.
Dom Pedro fez do Vale do Paraíba ponto de apoio para a aventura da independência, levando daqui sua guarda de confiança que o acompanhou até o Ipiranga. A região teve papel fundamental no ato que declarou a independência do Brasil, até então colônia de Portugal e sob o comando do seu rei.
Isso porque Pedro precisava arregimentar apoio econômico e político à causa da independência. Escolheu o Vale do Paraíba que era uma das regiões mais ricas daquela época. Conversou com barões do café, com políticos e militares e levou jovens da região ao seu lado até o grito no Ipiranga.
É preciso entender o contexto no qual se deu o movimento libertador brasileiro, os problemas econômicos que levaram Portugal a ceder aos ditames da Inglaterra e endividar o Brasil já no nascedouro da sua independência. Nascemos com dívidas a pagar mesmo depois de séculos fornecendo riquezas aos países europeus.
Surgimos como nação ainda com a chaga da escravidão que mancha nossa história, e que só foi oficialmente extinta, mesmo que incompleta, quase 70 anos depois da independência.
Nascemos como uma nação iletrada, com seu povo pobre e despolitizado, deixado sempre às margens do processo de libertação. Mas é um povo que luta e que foi tomando seu espaço ao longo das décadas seguintes até culminar na Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889.
A história por trás da História é o tema deste caderno especial e histórico do Documento OVALE, que fala do passado brasileiro para compreender o presente e ajudar a escrever o futuro pelos próximos 200 anos ou mais.
Nada é por acaso nessa história, como revelam os caminhos que levaram a colônia de Portugal à sexta economia do mundo contemporâneo. Mas que também trouxeram o país à grave crise econômica, social e política dos dias atuais, marcados por um presidente com desejos golpistas que levariam o Brasil de volta à profundeza do obscurantismo autoritário.
Após 200 anos, o grito da Independência ainda se faz necessário reverberar nos dias de hoje, para que brasileiros e brasileiras saibam as dores das lutas passadas, as sombras do autoritarismo e o preço que se paga pela liberdade, que é o da eterna vigilância.
Antes de vigiar, é preciso conhecer. Conhecendo, preservar nossos valores mais fundamentais: democracia, liberdade e independência. Preservando, lutar para superar nossos desafios históricos, como a desigualdade social, a fome e a pobreza e a violência.
O racismo persiste a nos assombrar. A intolerância, por vezes travestido de verde e amarelo, campeia ilusões patrióticas recheadas de ódio. Não nos escravizemos a nós mesmos. Sejamos livres. Que os próximos 200 anos encham de orgulho os séculos que se passaram. E que o grito de Pedro não seja em vão.