OVALE Entrevista

‘Discurso religioso da primeira-dama Michelle é jogo eleitoral’, diz especialista em religião

Por Xandu Alves |
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Apoio. Michelle Bolsonaro ao lado da mulher de Tarcísio de Freitas na convenção partidária do Republicanos
Apoio. Michelle Bolsonaro ao lado da mulher de Tarcísio de Freitas na convenção partidária do Republicanos

Em meio à ‘guerra santa’ que tomou parte da política brasileira, com a tal da ‘luta do bem contra o mal’, especialistas dizem que a fé privada de governantes não deve passa para os atos públicos.

Essa é a opinião de Edin Sued Abumanssur, doutor em Ciências Sociais, professor e coordenador do Programa de Estudos Pós Graduados em Ciência da Religião da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).

Líder do Grupo de Estudos do Protestantismo e Pentecostalismo da PUC-SP, Abumanssur disse que o presidente Jair Bolsonaro (PL) não consegue diferenciar as duas esferas e que o discurso religioso da primeira-dama Michelle é “jogo eleitoral”. Confira.

O que estamos vendo hoje com a aproximação da religião com a política é algo novo?

Algo novo sempre tem. Mas essa relação entre a religião e a política ela absolutamente não é nova no Brasil. Na verdade, a religião e a política nunca estiveram separadas. Desde o Brasil Colônia, depois o Brasil República, a Primeira República, Getúlio Vargas..., a religião sempre esteve junto com a política.

Parece que a religião não quer deixa o Estado ser laico?

Não, o Estado é laico. O problema é que a gente não entende o que é Estado laico. Você acha, por exemplo, que a Alemanha é Estado laico? Há duas igrejas lá que fazem serviço para o Estado. A Igreja Católica e a Luterana, e o Estado paga. O salário do pastor e do padre na Alemanha é pago pelo Estado, que cobra de todos os trabalhadores, independentemente de ter religião, o imposto eclesiástico. Todo mundo paga o imposto pra Igreja na Alemanha. Na Inglaterra, há uma religião oficial. Então, o que a gente chama de Estado laico? É essa a pergunta. Nesse sentido, a gente pode dizer, sim, o Brasil é um Estado laico.

Agora, o governo Bolsonaro tem uma aproximação com os cristãos, principalmente os evangélicos. A Michelle tem papel central na campanha dele, dizendo que o Estado é laico, mas o governo não é. O senhor vê isso de forma positiva?

Eu acho problemático. Eu acho que o governante ter uma religião, professar uma fé, não tem problema nenhum, numa situação como a nossa. O problema é quando a fé privada do governante passa para os atos públicos. O governante querer fazer valer certos princípios que são próprios da fé que ele professa.

Fazer valer a fé publicamente para todo mundo eu acho problemático. Nada contra o Bolsonaro ter a religião dele. Ele pode ter a religião que quiser. A Michelle também. O problema é que Bolsonaro não consegue diferenciar.

Ele confunde o papel?

Ele deveria ter sido educado para isso, mas não teve educação política suficiente. Ele não tem outro tipo de educação também, mas a educação política, formação política, leitura política, ou passar por cursos que ensinem um pouco da história da política Ocidental, ele teria entendido, ele deveria compreender que uma coisa é a esfera pública, outra coisa é a privada. Ele confunde as duas esferas.

Quem está governando o Estado não pode querer impor, na esfera pública, princípios, ideias ou comportamentos que pertencem à esfera privada. Isso é o mais raso, básico e simples do liberalismo e do tipo de democracia que surgiu no século 17. Da chamada democracia burguesa. O Bolsonaro nunca leu isso provavelmente. Eu acho que ele só leu gibi. Não é possível. O cara não entende, não entende e não sabe.

E quando a Michelle Bolsonaro leva pastores ao Planalto e diz que o lugar era consagrado a demônios. Como o sr. vê esse tipo de colocação?

Isso tem que ser visto sempre no registro de um processo eleitoral. E é isso. Isso é jogo eleitoral. Faz parte da disputa eleitoral. Isso é uma inconsequência, é uma ingenuidade infantil por parte deles. E não vou dizer que é por parte só da Michelle e da corriola dela.

É uma inconsequência que, na verdade, todos os políticos têm porque todos querem arrancar uma lasquinha de um discurso que é muito naturalizado na consciência e no imaginário do povo brasileiro, que é a consciência religiosa. E os políticos querem se aproveitar disso. Faz parte do jogo eleitoral. Uma pessoa um pouco mais inteligente não tem como levar a sério uma coisa dessas. Quando ela faz isso está tentando ganhar a eleição para o marido dela, não é sério. É uma besteira do ponto de vista teológico. Teria vergonha de falar uma coisa dessas.

Como o sr. vê a postura do arcebispo de Aparecida, dom Orlando Brandes, que tem feito reflexões políticas mais duras no Santuário Nacional?

A Igreja Católica apesar de ser uma é plural. Há bispos de ‘todas as cores’. Isso não é novidade. Apesar dessa paleta de cores ideológica interna da Igreja, ela sempre buscou uma fala consensual. A CNBB, por exemplo, acaba falando em nova da Igreja Católica, que sempre vai ser uma espécie de fiadora para todos os governos. Foi com o governo Lula, que foi o único presidente que procurou a CNBB em uma assembleia da Igreja, e a relação dele com a Igreja era muito boa, mas às vezes saía faísca. A Igreja entende esse papel nacional.

Ela reconhece o papel estabilizador que ela pode ter, ou desestabilizador, por exemplo na ditadura militar. Quando a Igreja recua no discurso, é uma questão estratégica. Quando as coisas estão muito polarizadas, ela sabe se preservar, pois está preservando uma esfera e espaço político que pode se manifestar. Ao contrário de outras Igrejas que entram na política e perdem a legitimidade.

Quando dom Orlando fala essas coisas, numa situação polarizada como estamos vivendo, tem um aspecto de sabedoria e de dizer para as alas mais radicais, em todos os lados, que não é bem assim. A Igreja é um ‘grilo falante’ que está olhando. Eu gosto da postura de dom Orlando.

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