Política

Homem afirma ter sido pago para fazer pergunta a Bolsonaro em meio à pandemia

Por Gabriel Campoy |
| Tempo de leitura: 3 min
Bolsonaro no cercadinho na Alvorada
Bolsonaro no cercadinho na Alvorada

Trabalhando de forma remunerada, como figurante, e a favor do governo federal. Foi assim que o publicitário Beto Viana declarou nesta terça-feira (20) ter feito perguntas previamente combinadas ao presidente Jair Bolsonaro em uma de suas paradas no "cercadinho", local em que o presidente fala com seus apoiadores.

Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, Beto afirmou que, ainda em 2020, no início da pandemia de Covid-19, teria sido pago para questionar o presidente sobre uma entrevista concedida pelo ministro da Saúde à época, Luiz Henrique Mandetta, para a TV Globo. Bolsonaro então respondeu de bate pronto: "não assisto esse canal".

A resposta se tornou viral em grupos e páginas bolsonaristas. Entretanto, de acordo com o publicitário, a cena estaria previamente combinada entre o governo federal e o site bolsonarista Foco no Brasil, com mais de 2 milhões de seguidores no YouTube.

Anderson Azevedo Rossi, criador do canal, foi quem, segundo Beto, lhe telefonou e perguntou se ele teria coragem de fazer a pergunta.

"Eu vou mandar a pergunta aí no seu WhatsApp e você faz essa pergunta para ele. Se qualquer outro apoiador for falar com o presidente, você corta porque o presidente está esperando essa pergunta sua. Aí ele mandou o texto do jeitinho que era para eu falar", disse o publicitário em entrevista à Folha.

Prints do aplicativo de mensagens mostram, inclusive, que o contato com nome de "Anderson Foco do Brasil" pede os documentos do rapaz para apresentar na portaria do Alvorada e ainda orienta para que ele "não levante suspeitas de outros repórteres".

Em vídeo publicado pelo canal do presidente na época, é possível identificar o figurante de camisa florida e que, no momento que tem a oportunidade, faz a pergunta pela qual foi contratado. Bolsonaro responde: "eu não assisto a Globo", e sai ovacionado pelos apoiadores. Confira o vídeo.

Beto então afirma que pouco depois, por volta das 10h, recebeu uma transferência bancária no valor de R$ 1.100 da conta jurídica de "Folha do Brasil Negócios Digitais", antigo nome do Foco do Brasil. O dinheiro seria um adiantamento de seu salário mensal, no valor de R$ 2.000.

Ele ainda diz que, por conta do vídeo ter viralizado, ele foi orientado a não fazer mais perguntas, participando simplesmente como um apoiador nos momentos em que Bolsonaro estivesse no cercadinho. Com isso, ele foi deslocado para realizar imagens de manifestações bolsonaristas na Esplanada dos Ministérios. Pouco mais de um mês depois, foi dispensado.

Com livre acesso na Alvorada, o figurante destaca que chegou a conversar com uma representante da Secom (Secretaria de Comunicação da Presidência), que após passar seus dados para os seguranças, lhe deu livre acesso.

Beto relata também que, por conta de sua longa estadia em Brasília, passou a receber um auxílio mensal de R$ 500 para alugar um apartamento na Vila Planalto, próxima ao Alvorada.

O publicitário ainda afirma que uma filiação ao PC do B, em 2007, quase atrapalhou os planos de trabalho. Viana, no entanto, teria dito que teria entrado no partido pouco depois de se tornar maior de idade, mas que não teve atuação partidária e era simpático a Bolsonaro.

De acordo com a Folha, tanto a presidência da República quanto o canal Foco do Brasil não responderam aos questionamentos enviados.

CONTEXTO

Em abril de 2020, a pandemia afunilava no Brasil e a postura do ministro da Saúde na época, Luiz Henrique Mandetta, contrastava com a do presidente Jair Bolsonaro.

Enquanto o médico defendia posições alinhadas às sanitárias, como restrição do contato social e o uso de máscaras, Bolsonaro minimizava os problemas gerados pela doença e se colocava contrário ao isolamento social e ao fechamento do comércio.

Na entrevista em questão, dada ao Fantástico, Mandetta pedia um alinhamento no discurso com o presidente, já que, segundo ele, a população se mostrava confusa e não sabendo se escutava o ministro ou o chefe do Executivo.

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