Entre exóticos e curiosos os nomes das receitas do livro Comida di Buteco, recentemente lançado pela Editora Gutenberg, divertem e instigam. O que esperar de um prato que se chama A moela atrás da moita de escargot fugitivo? Ou de outro conhecido como Carne apertada da Dona Oswanda? Por acaso Atolado no escritório tem a ver com Atola-coxa? O que vem a ser mesmo Galopé?
De não serem esquecidos facilmente os poéticos DeZmaio mineiro, Doce refúgio, Nas asas do 222, Pecado original, Um dedinho de Minas. Outros inspirados nas letras pátrias, Dona Berinjela e seus dois quitutes, Encontro marcado, ou na literatura de cordel, Lampião, Maria Bonita e os cangaceiros,Maria Bonita nos caminhos da Estrada Real, Os três mosqueteiros e as doze donzelas. Alguns se fundam na tradição lusitana, como Alcatrinhas à movediça, Porção Família do Barção Moreira, Mercadão da loura ao molho Bohemios.
Também ganham evidência os que remetem a músicas de bom gosto, Menina do Rio, ou às de gosto duvidoso, Créu! Os levemente obscenos não poderiam ficar ausentes deste democrático espaço brasileiro onde os tira-gostos imperam: Rabo no mato, Rola-bola no bar da Cida, Pirei com a língua, Co’moela no Florama. Isso só para começar, pois a lista completa tem 100 itens, nos quais a metáfora se instaura com criatividade a cada página. Acho difícil não rir diante da ilustração de um prato que se chama Frustração de noiva.
Aliás, as fotos de Pacelli têm um nível espetacular, neste sentido mais profundo da palavra que é o de exibir-se ao olhar. E tanto o projeto gráfico da capa, assinado por Diogo Droschi, como o do miolo, grifado por Cristhiane Costa, convidam à leitura e apreciação. Os textos, impecáveis, saem da lavra da editora Rejane Dias. Todas as receitas foram conferidas e testadas por Eduardo Maya e Iolanda Dantas Souza Melo, o que leva segurança a quem queira reproduzi-las. É livro que desperta apetite e deriva de um concurso, tornado evento importante desde que foi criado em Belo Horizonte, há dez anos, para desfrute dos mineiros. Mas ganhou o gosto de outras regiões brasileiras, pois como dizia Nelson Rodrigues, ‘o boteco é ressoante como uma concha marinha; todas as vozes brasileiras passam por ele.’
Quanto aos ingredientes vigentes, há um pouco de tudo: muita moela, asas de frango, fígado de boi, tirinhas de carne de vaca, costelinha, batatinha, bacalhau, pernil, chouriço, taioba, lombo, toucinho, joelho de porco, carne seca, berinjela, peixes de água doce, dobradinha, queijo coalho, jiló...
Nosso petisco que hoje titula a página é bem fácil de fazer e leva mandioca, lingüiça e couve, tripé básico da mesa das Gerais. Mas o Sem trema na linguiça classificou no concurso Comida di Buteco, edição 2010, um estabelecimento carioca, a Cachaçaria Mangue Seco, que fica no número 2 da Rua do Lavradio, uma das mais antigas do Rio de Janeiro.
Veja que prático. Descasque a mandioca, parta em pedaços regulares, retire as fibras do meio, cozinhe até ficar bem macia. Enquanto isso, frite, asse ou grelhe a lingüiça que deve ficar bem sequinha. Pique a couve bem fininha e frite em óleo quente, deixando escorrer em papel-toalha.
Refogue a cebola cortada em rodelas finas e deixe murchar. Acrescente o requeijão para a mistura ficar bem cremosa. Esmague com um garfo a mandioca e junte um pouquinho de leite, para virar um purê.Tempere suavemente e volte ao fogo baixo. Monte os ingredientes num copo de boca larga, como se vê na foto: o purê de mandioca, o molho de cebola com requeijão, a couve frita. Espete a lingüiça e enfeite com uma pimenta.
Veja os quadros abaixo:

