Alguns frutos resistem em suas mitologias. A maçã que se converteu em ícone do pecado foi muito retratada por incontáveis pintores na mão direita de Eva, tendo a serpente a tentá-la em algum entorno da árvore do Bem e do Mal. Desde o início do século XX é símbolo moderno de uma das metrópoles mais emblemáticas do planeta, Nova York. E também marca de empresa poderosa no ramo da tecnologia.
A romã aparece em afrescos diversos na arte greco-romana, associada à figura da deusa do amor, Afrodite, e até hoje é ofe-recida como augúrios de fertilidade nas núpcias dos jovens daquela região do planeta. Na tradição de muitos textos religiosos judaicos, é uma das sete frutas pelas quais a terra de Israel foi abençoada. Mas é na poesia que o fruto e a árvore ganharam os maiores cultores e admiradores de sua forma sofisticada. Não raro as sementes vítreas e vermelhas assumem na linguagem lírica a metáfora de rubis. Até Camões a cantou nos Lusíadas: “Abre a romã/ mostrando a rubicunda cor/ com que tu, rubi/ teu preço perdes.”
E a baunilha, que não é fruta, é flor, tem também uma história interessante. Esta orquídea de flores esverdeadas foi protagonista de longa saga, desde que apareceu em 1580 no Códice Florentino, descrita e desenhada em minúcias. Descoberta pelos navegadores que primeiro chegaram ao México, foi levada às cortes europeias como produto sofisticado e precioso. Encontrada inicialmente apenas na região de Veracuz, a vainila, “pequena vagem”, como a denominavam os nativos (e que dá origem às palavras vanila e baunilha), impressionou os nobres pelo perfume adocicado e delicado, que se fixava por horas e poderia ser combinado com muitos ingredientes. Inglaterra, Itália e França se empenharam em reproduzir a baunilha fora de seu habitat natural, fracassando em todas as experiências.
Só em 1840, um jovem escravo de 14 anos, das Ilhas Réunion, possessão francesa onde também a planta crescia, ensinou a naturalistas belgas o segredo da sua polinização. A planta necessitava da presença de um tipo especial de abelhas para se reproduzir. O adolescente chamava-se Edmond e se tornou imortal ao ter agregado a seu nome um tipo de patronímico, Albion, que é o da espécie de orquídea que produz a vagem da baunilha. Até hoje, ela é a especiaria de preço mais elevado no mercado. Mas basta um tiquinho para conferir seu toque inesquecível ao olfato e ao paladar.
Reúna maçã verde, presente o ano inteiro nos mercados; romã, que começa a chegar neste verão embalada em unidades; baunilha, que podemos empregar na forma de essência, vendida em casas de produtos para festas e prepare um doce delicado e diferente. Comece fazendo a geleia de romã. Abra as frutas, retire as sementes com cuidado, reserve algumas para enfeitar e leve o restante à panela com água e açúcar. Deixe ferve até engrossar. Dissolva a gelatina em água quente e junte à mistura, fora do fogo. Deixe esfriar, leve à gela-deira, reserve. Em seguida, lave bem as maçãs e enxugue-as. Usando faquinha e colher, retire a polpa sem estragar a casca.
Respingue limão em ambas para que não escureçam. Reserve na geladeira. Faça o creme de baunilha. Misture leite e maisena, as gemas, o açúcar (ou adoçante), a baunilha. Leve ao fogo baixo, mexendo bem até engrossar. Acrescente a polpa da maçã, deixe mais três minutos, retire do fogo e mexa até esfriar, evitando que forme película. Coloque as maçãs em pratos individuais. Encha cada uma com o creme de baunilha. Enfeite a superfície com as sementes reservadas das romãs. Coloque ao lado uma porção da geleia de romã. Se tiver habilidade, faça riscos em ziguezague para dar um toque pessoal. Deixe gelar e sirva.
