Acho de extrema delicadeza presentear alguém com algo feito por nossas próprias mãos, especialmente neste período de festas natalinas, em que o valor da oferenda perdeu quase completamente o sentido. Da transposição dos significados de ouro, incenso e mirra, até nossos dias, restou bem pouca coisa. Para nossa época consumista, o sentido ficou comprometido com muitos outros interesses, nada afetivos e a anos-luz de distância do transcendente. Mesmo de muitos corações que se julgam profundamente cristãos, sumiu de vez. Ficou a forma. O fundo exauriu-se. O presente, pra valer, permaneceu no passado e arrisca-se a desaparecer no futuro.
Doar algo de nós que custe tempo, bem precioso, e carinho, afeto raro, deveria ser um propósito a que nos dispuséssemos pelo menos em dezembro, tendo em vista os mais próximos, íntimos, queridos. Mas... as horas escasseiam para todos, andamos tão cansados em final de ano, os meses de duro trabalho para a sobrevivência e resolução de problemas parecem ter sugado todas as energias . Então vamos aos shoppings, às lojas, à internet que nos permite comprar mil coisas a um toque de dedos. É mais fácil. E mais seguro. Pois há os que nunca entenderão que bordar uma toalha, fazer um tricô, bricolar uma peça, tecer um texto, produzir uma escultura, pintar um quadro, tocar uma música ou arriscar-se numa receita especial possam representar presentes. Aliás, estes que assim pensam nunca devem ter percebido como uma criança se empenha amorosamente quando faz um desenho para outrem.
Mas, oh alvíssaras, há adultos que ainda preservam certas filigranas que distinguem almas. Do meu círculo de conhecidos, tem alguém que presenteia seus amigos com um prato especial na data de seus aniversários. Lembro-me de todos os que me foram oferecidos ao longo dos últimos anos. Neste outubro ganhei uma cesta com pães espetaculares, desses que comemos a partir do olhar. Minha amiga os acondicionou numa cesta de vime forrada com tecido vermelho, embalou tudo com papel celofane, selou as pontas e juntou um cartão. Recebi o presente com o coração aos pulos.
Acho que foi pensando especialmente nesse momento de alegria que me decidi a sugerir essas guloseimas que a chef Heloísa Bacellar, do restaurante paulistano Lá na venda, ensinou a preparar. Elas podem ser um presente para alguém muito estimado. São de elaboração rápida, ficam bonitas no seu jeito artesanal, e têm aquele gostinho de coisa de interior, de roça, de Brasil. Cortei a massa, que fica macia e gostosa de trabalhar, em rodelas, depois de espichar no mármore da pia. Talvez porque na semana passada tenha falado da forma circular do bolo de Natal, e bolacha é bolo pequeno, optei por esta. Mas quem tem habilidades manuais pode fazer argolas ou rosquinhas. Também é possível usar cortadores para destacar flores, trevos, pinheiros ou sinos, sublinhando o toque natalino. Assim que forem dispostas na assadeira untada e polvilhada com farinha, devem ser levadas à geladeira por 15 minutos.
Depois serão outros 15, no forno preaquecido, 180 graus. Na última etapa, a cobertura. Duram um mês se forem colocadas em potes bem vedados. O jeito de embalar vai traduzir a personalidade de quem oferece o presente. A receita é simples, facílima de executar. Mesmo quem não tenha intimidade alguma com pia e fogão vai acertar. Os ingredientes são poucos, mas precisam exibir excelente qualidade: cachaça da boa, azeite extra-virgem, gema de ovo caipira (se possível),farinha, açúcar, canela, gengibre. E genuíno bem-querer. Esta receita rende 36 unidades e fica pronta em uma hora.
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