Sopa de cebola


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Para começo de preparo, coloquei óculos escuros, imitando uma amiga, e fui cortar as cebolas em rodelas bem fininhas, sem risco de lágrimas
Para começo de preparo, coloquei óculos escuros, imitando uma amiga, e fui cortar as cebolas em rodelas bem fininhas, sem risco de lágrimas

“Preservar a saúde à custa de uma dieta estrita é uma doença realmente exaustiva”
La Rochefoucauld (1613-1680)
frasista francês


Acabei de ler Travessuras da menina má, o romance do peruano Mário Vargas Llosa, Nobel de Literatura, que Jurema Xavier havia me sugerido há algum tempo, “pois tem um enredo muito interessante e descrições pictóricas de Paris”. Por coincidência, meu filho Junior também o havia recomendado “porque apresenta de forma bem plástica uns lugares que nos trazem saudade da beleza única daquela cidade.” De fato, volta e meia lá está o Ricardito e sua amante de muitas caras, Lily, andando pelas ruas de Saint Germain de Près, comendo omeletes nos bistrôs da Ile Saint Louis, jantando no tradicional Procope ou flanando atrás de crepes pela Rue Saint Sulpice

Foi por conta da sugestão de tais lugares, somada ao fato de que os termômetros baixaram e as tardes às vezes se mostram já frias, que senti numa dessas noites baita vontade de tomar sopa de cebola, especialidade tão francesa. Fui à geladeira, chequei a gaveta, encontrei só parte do que precisaria numa receita tradicional. Pão italiano não tinha mais no armário, só havia pães franceses amanhecidos. O bacon era menos do que eu necessitava e estava cortado em tiras. O queijo não era o Gruyère, mas sim da Canastra. Não recuei, entretanto, até porque o restinho de vinho branco era de excelente qualidade e me convidava a agir. Preparei minha sopa para estrear as quatro cumbuquinhas que ganhei pela Páscoa. Lindas, coloridas, perfeitas para sopinhas que confortam, animam, alimentam a alma e nos fazem pensar que alguns pratos se tornam eternos quando apreciados na estação apropriada. A sopa de cebola é para ser tomada quando faz frio, desde o outono e por todo o inverno.

Para começo de preparo, fiz como uma amiga querida que coloca óculos escuros para picar cebolas. Sem lágrimas, cortei-as em rodelas finas. Depois botei a manteiga na panela e deixei derreter no fogo baixo. Depositei as rodelas e fui mexendo com carinho, usando colher de pau, até que amolecessem e, depois, dourassem e caramelizassem. Tudo devagar, curtindo a cor amarronzada que faz toda diferença no produto final. Quando, depois de quinze minutos, percebi que estavam no ponto, despejei o vinho e fui raspando o fundo da panela até que o líquido evaporasse. Adicionei o bacon e deixei fritar. Soltou um pouquinho de gordura e aí polvilhei a farinha, mexendo bem por dois minutos, mais ou menos. Juntei o caldo de carne, continuando a mexer; temperei com sal e pimenta-do-reino que moí na hora, seguindo recomendação dos que entendem dessa especiaria. Deixei cozinhando, no fogo baixo, por cerca de meia hora. De vez em quando mexia. Ao fim desse tempo, experimentei e achei que faltava um pouquinho de sal e outro tantinho de pimenta. Acertei as pitadas. Ficou ótima.

Ajeitei numa assadeira minhas cumbuquinhas. Cortei em fatias grossas os pães franceses amanhecidos, besuntei levemente com manteiga, levei ao forno quente por cinco minutos. Em seguida distribuí a sopa entre as vasilhas, coloquei uma rodela de pão em cima e polvilhei queijo ralado. Embebidas no líquido, as rodelas baixaram um pouco. Levei ao forno (que já estava ligado para aquecer o pão) e esperei gratinar, o que demorou cinco minutos. Com muito cuidado retirei os refratários, coloquei sobre a mesa e me servi, pensando que c’est si bon/ cette petite sensation/ de la soupe à l’oignon...


Ingredientes

500 gramas de cebolas
3 colheres (sopa) de manteiga
4 colheres (sopa) de vinho branco
50 gramas de bacon em cubinhos
1 colher (sopa) de farinha de trigo
1,5 litro de caldo de carne
Sal e pimenta-do-reino a gosto
4 fatias de pão italiano
100 gramas de queijo ralado grosso.

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