Bolo de mexerica enredeira


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Ao pensar em mexerica, o que nos vem à mente é o cheiro intenso e bom, indisfarçável como a alegria. Basta um leve arranhão na casca para que as moléculas de perfume se evolem, a uma velocidade impressionante
Ao pensar em mexerica, o que nos vem à mente é o cheiro intenso e bom, indisfarçável como a alegria. Basta um leve arranhão na casca para que as moléculas de perfume se evolem, a uma velocidade impressionante

“Cozinhar é uma atitude muito estimulante. Você aprende sobre animais e plantas. Começa a conhecer seu lugar no mundo.”
Michael Pollan

inglês, autor do recém-lançado Cooked: a natural history of transformation


A fruta é a mesma, faz parte da família dos cítricos, mas recebe nomes diversos de acordo com a região onde é produzida ou consumida. Para nós paulistas é mexerica, os gaúchos a chamam bergamota. Na língua inglesa é tangerine; em italiano, mandarino.

O vocábulo mexerica é uma formação de verbo latim clássico- misceo. Este misc- é antiquíssimo, estava na gênese de palavras que denotavam o sentido de misturar, confundir, perturbar. A semântica manteve-se apesar dos séculos, talvez por ser a palavra bastante expressiva. Em todos os pretéritos se conjugou o verbo mexericar, que exibe forte presença na vida contemporânea. E há muitas evidências de que não vai se esfacelar no futuro.

Tangerine é adjetivo pátrio, designa o que nasce em Tânger, linda cidade marroquina de impressionante brancura à beira-mar plantada. Possessão portuguesa até 1661, neste ano passou para controle dos ingleses como dote de casamento da princesa Catarina de Bragança. Gosto da sonoridade deste nome e sempre que o ouço me vem à mente a história famosa de Rachel de Queiroz, Tangerine-Girl, tão bonita e bem construída que foi escolhida por Ítalo Moriconi para fazer parte da antologia Cem melhores contos brasileiros do século XX.

Bergamota nasceu turca: beg armud, na verdade uma frase que poderia ser traduzida por “pera do príncipe”, o que nos convida a pensar que havia outra fruta cítrica que não essa que nos serve de mote e é ingrediente do bolo cuja imagem ilustra esta página. De beg armud para begarmud a elisão foi rápida. E daí, já se viu, o processo de mudança de u para o, e de d mudo para t tônico não demorou. Por volta do ano 790 já era assim conhecida a palavra nos espaços da Península Ibérica que os árabes ocuparam por oito séculos. Em Portugal havia os que falavam mexerica e os que diziam bergamota para se referirem afinal a uma fruta que vinha da Ásia e se aclimatou muito bem nos países ensolarados.

O Brasil tornou-se grande produtor de mexericas e nesta época do ano as frutas estão no ponto: a cor é convidativa, o sabor uma tentação, e o aroma, qualidade inesquecível. Ao pensar em mexerica, o que nos vem à mente é o cheiro intenso, indisfarçável como a alegria. Basta um leve arranhão na casca para que as moléculas de perfume se evolem a uma velocidade impressionante e mesmo quem está distante sente o cheiro bom que em algumas espécies lembra o do cravo-da- Índia.

Nosso bolo é feito com a espécie enredeira, com certeza a mais perfumada. É curioso como o adjetivo se casou tão bem com mexerica que até parece pleonasmo, redundância, tautologia. A mexerica enredeira tem casca fininha e um óleo que intensifica as notas cítricas. No preparo entram duas frutas inteiras, cortadas em pedacinhos, com casca mas sem sementes e sem parte branca. Coloque no liquidificador junto com ovos, óleo (o de canola fica perfeito), açúcar e pitada de sal. Bata por dois minutos. Se preferir um bolo de massa superfina, coe em peneira antes de continuar o preparo. Quem aprecia encontrar pedacinhos de casca, pode seguir direto à próxima etapa, que consiste em misturar a essa massa líquida a farinha previamente peneirada com o fermento. Então é misturar bem, colocar em forma untada e polvilhada, levar ao forno em temperatura média (180 graus) por 40 minutos. Enquanto o bolo assa, prepara-se a calda, juntando o suco de cinco mexericas, meia xícara de açúcar e uma pitada de açafrão, levando a ferver até engrossar. Bolo frio, despeja-se a calda sobre ele ou se deixa em molheira à parte.


Ingredientes

Massa
3 mexericas inteiras
3 ovos
1 ½ xícara (chá) de açúcar
1 xícara (chá) de óleo (canola ou soja)
1 pitada de sal
1 colher (sopa) de fermento em pó
2 ½ xícara de farinha de trigo

Calda
½ xícara de açúcar
Suco de cinco mexericas
1 pitada de açafrão

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