Frigideira de ovos


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Monet não criou apenas jardins esplêndidos em Giverny; cultivava ainda horta e tinha galinheiro, ambos próximos de sua fresca cozinha amarela com despensa azul profundo
Monet não criou apenas jardins esplêndidos em Giverny; cultivava ainda horta e tinha galinheiro, ambos próximos de sua fresca cozinha amarela com despensa azul profundo

Não restam dúvidas de que em Giverny, onde Monet viveu seus últimos 43 anos, qualquer um que tenha um mínimo de sensibilidade fica hipnotizado pelo jardim, com suas coloridas touceiras de dimensões irregulares, o lago de nenúfares flutuantes, a ponte japonesa. Deslumbram os chorões e arbustos, bem como os caminhos estreitos e sinuosos, forrados de seixos. Mas a casa também é grande atração para o olhar surpreso diante da fachada rosa de janelas verdes, tons fortes e ousados para a época, arrematados pela hera avermelhada de começo de outono, grudada às paredes. No andar superior, a luz que atravessa as janelas incide sobre as paredes dos quartos do amanhecer ao entardecer, à exceção do inverno. O que pertenceu ao pintor é mais amplo; o de sua mulher, Alice Hoschedé, menor, mas muito aconchegante. Dormiam separados e, no entanto, eram apaixonados, registra a biografia. Por ela, que era casada quando se viram pela primeira vez, Monet esperou durante sete anos, “como Jacó a Raquel, serrana bela...” E entrou em depressão quando Alice morreu, 15 anos antes dele. A sala de leitura, com parte das gravuras japonesas e dos retratos do pintor, assinados por alguns de seus leais e ilustres amigos, também é inspiradora. Sofás e almofadas convidativos restam intocados e pelo menos um segurança em cada sala monitora os visitantes que transitam podendo pensar também nos filhos de Monet e de Alice, de casamentos anteriores, que ali cresceram e se tornaram adultos. Que infância devem ter vivido naquele lugar paradisíaco!

Tudo é comovente nesta intimidade; porém, do que mais gostei no interior da casa encantadora, foi da cozinha no térreo, com saída para uma horta. Grande e fresca, concebida como todos os outros cômodos por Monet, tem paredes e teto pintados de amarelo vivo, onde se recortam as janelas de caixilhos verdes. Os móveis são também pintados de amarelo. Num canto a despensa azul-metileno faz lindo contraste. Não é preciso muita imaginação para a gente se sentir dentro de uma tela impressionista. Na parede que se ergue ao lado da escada, à esquerda de quem desce da ala íntima, uma grande viga de madeira foi fixada com dezenas de ganchos onde estão penduradas as ricas panelas de cobre nas quais Monet gostava de cozinhar para os amigos. Frigideiras, caldeirões, caçarolas, tachos de diferentes tamanhos, espumadeiras, conchas, pegadores de massa, garfões, tudo está lá, reluzente, em proximidade com o fogão, à vista de quem se senta à mesa de madeira com doze lugares. Posta com serviço de jantar que pertenceu à família, exibe porcelana amarela com frisos azuis como os guardanapos, pesados talheres de prata, dois bojudos vasos, provavelmente orientais, com flores recém-colhidas. Ao fundo, sobre o étager, telas de diferentes tamanhos, numa composição harmoniosa. E alguns móveis com fundas gavetas que trazem cadeados e serviam para guardar alimentos.

A poucos metros desta cozinha havia um galinheiro, e sobre o pilar de um muro que o separa da casa, sustentava-se enorme cesto onde se acondicionavam dúzias de ovos. Era grande o consumo deles pela família, cabendo a Monet variar as receitas. Fico imaginando suas artes culinárias e como seriam belos os pratos que produziria para servir naquela cozinha colorida, acolhedora, lúdica.

Na grande boutique que faz parte do complexo de Giverny, procurei algum livro que trouxesse pelo menos uma das receitas perpetradas pelo artista. Mas, que nada. Mil e um souvenirs, até sementes de algumas das plantas do jardim, mas nenhum registro ligado à gastronomia. Curiosamente, foi quando pensava na vida do grande pintor, folheando distraída uma revista em Lyon, que encontrei a receita que trago aos leitores neste domingo. Tendo visto a cozinha, as panelas, o fogão, o espaço da horta e o das aves, além do cesto, achei possível que pudesse ter sido criada por Monet, como sugeria o texto.

Na falta de uma frigideira de cobre, use uma que tenha fundo grosso (aqui no Brasil temos as de “alumínio batido”). Coloque nela a manteiga, o azeite, o alho, a cebola e o salsão. Refogue por cinco minutos sobre chama média. Junte as folhas de espinafre e misture bem, aguardando que murchem. Não junte águe, é desnecessário e pode comprometer o resultado. Num bowl ou tigelinha misture iogurte e suco de limão e regue o conteúdo da frigideira, mexendo. Agregue a casca de laranja ralada, diminua o fogo, salgue. Quebre os ovos em tigelinha e vá escorregando-os para a frigideira. Salpique com a páprica e o orégano. Tampe a frigideira para que o vapor ajude a cozinhar claras e gemas. O ponto é ao gosto do freguês. A gema pode ficar mole ou mais dura. Mas cuidado para não ressecar. Sirva com pão.


Ingredientes

6 ovos
2 colheres (sopa) de manteiga
1 colher (sopa) de azeite
2 dentes de alho picados
1 cebola média picada
2 talos de aipo picados
Folhas de dois maços de espinafre
1 copo de iogurte
1 colher (sopa) de suco de limão
1 colher (sopa)de raspas de laranja
½ colher (chá) de páprica picante
1 colher (chá) de orégano fresco
Sal a gosto

porção: 6
dificuldade: média
preço: econômico

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