26 de setembro de 2026
ELEIÇÕES 2026

Em cruzada pelo voto, Aparecida é centro de embate Lula e Flávio

Por Da redação | Aparecida
| Tempo de leitura: 5 min
Reprodução/Santuário Nacional de Aparecida

Capital da fé católica do Brasil, o Vale do Paraíba está novamente no epicentro do embate entre candidatos à Presidência da República e da disputa ideológica que envolve Jesus Cristo, Nossa Senhora Aparecida e a religiosidade no país.

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Grupos políticos tentam associar Jesus aos seus próprios anseios e a fazer com que o homem nascido há dois milênios tenha 'lado ideológico'.

Tal polarização atinge o Santuário Nacional de Aparecida, maior templo mariano do mundo, e a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), órgão máximo da Igreja Católica no país.

A polêmica começou após uma declaração do candidato sobre Jesus Cristo. Em vídeo publicado em 24 de agosto, ao justificar a ausência em um debate da Band, Flávio afirmou que, caso seja eleito, um de seus primeiros atos será “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”.

A declaração sobre Jesus Cristo ganhou novos contornos no contexto eleitoral porque toca em uma divisão existente dentro do próprio cristianismo. Enquanto a devoção a Nossa Senhora e seu papel de intercessora fazem parte da tradição católica, grupos cristãos de outras denominações não reconhecem Maria dessa forma.

Foi nesse ambiente que, na quinta-feira (24), a jornalista Maria Cristina Fernandes mencionou, durante o programa “Em Pauta”, da GloboNews, uma suposta articulação de grupos evangélicos para retirar de Nossa Senhora Aparecida a condição de Padroeira do Brasil e relacionou o episódio ao cenário eleitoral.

A informação, porém, estava incorreta. A própria GloboNews posteriormente exibiu uma correção e pediu desculpas.

Flávio Bolsonaro (PL) publicou, na noite desta quinta-feira (24) um vídeo em que nega qualquer possibilidade nesse sentido e classifica a informação como "fake news do PT".

A proposta citada havia sido apresentada em 2007 pelo então deputado federal Professor Victório Galli, mas foi arquivada pela Câmara dos Deputados em agosto de 2008. Não há registro de que Flávio Bolsonaro tenha apresentado ou defendido uma proposta atual para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.

Campanha eleitoral

O caso envolvendo Nossa Senhora Aparecida ganhou dimensão justamente em um momento em que religião e política estão entre os temas mais presentes na campanha presidencial. A proximidade do 12 de outubro, feriado dedicado à Padroeira do Brasil, aumenta ainda mais a atenção sobre a relação dos candidatos com o eleitorado católico.

Em Aparecida, onde está localizado o Santuário Nacional, a devoção à santa reúne milhões de fiéis ao longo do ano. A cidade também tem peso simbólico no cenário político nacional e foi palco de manifestações de diferentes correntes políticas nos últimos anos.

Enquanto Flávio Bolsonaro é frequentador de cultos evangélicos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reluta em visitar o Santuário Nacional de Aparecida às vésperas do primeiro turno. O petista tem demonstrado contrariedade à ideia e reafirmado que não pretende fazer exploração eleitoral da fé.

Disputa em Aparecida

A Basílica de Aparecida já esteve no epicentro de conflitos envolvendo bolsonaristas. Tanto o Santuário Nacional quanto a CNBB foram criticados desde o primeiro ano do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Tais arremetidas ganharam impulso nas eleições de 2022, a mais dividida da redemocratização.

Um dos alvos de grupos católicos ultraconservadores, apoiadores de Bolsonaro, foi a Campanha da Fraternidade de 2023, que abordou a fome. A CF foi apontada como 'desvirtuadora' dos preceitos tradicionais católicos e a CNBB chamada de 'comunista'.

Por outro lado, grupos à esquerda pressionam o governo de Luz Inácio Lula da Silva (PT) a encaminhar pautas como a liberação de drogas e a descriminalização do aborto, contrárias aos conservadores e à CNBB.

Em meio às disputas, a CNBB tenta reduzir a influência do pensamento que associa Jesus à extrema direita e a movimentos antidemocráticos, até mesmo dentro do clero.

O presidente da CNBB, dom Jaime Spengler, reforçou na quarta-feira (23) que a Igreja Católica não atua em favor de partidos ou candidatos. A declaração se deu em meio a manifestações recentes de integrantes da Igreja sobre as eleições, democracia e soberania nacional.

Durante um encontro com jornalistas em Brasília, Spengler tratou dos desafios das eleições de 2026 e da participação da Igreja no debate público. O cardeal também destacou o compromisso da entidade com o diálogo e o bem comum.

Polarização

Atual presidente da Comissão Episcopal para a Doutrina da Fé da CNBB, dom Joel Portella Amado disse, em palestra sobre o tema "Eucaristia e unidade em tempos de polarização", em 2023, que a “polarização é a concretização atual da indiferença".

Na ocasião, Amado afirmou que a polarização que ataca a Campanha da Fraternidade é reflexo de um fenômeno mundial, mas não se deve ser complacente "com os excessos dos grupos ultraconservadores".

Ele explicou que a Igreja não tem "ingerência alguma" – a não ser religiosa, com a orientação por padres ou leigos – "sobre os grupos de inspiração católica", mesmo os mais radicais que fizeram ataques à Campanha da Fraternidade.

"O único modo de enfrentar esse tipo de atitude é o diálogo e, no caso das redes sociais, não compartilhar, não seguir", afirmou o bispo.

Amado disse ainda que, numa sociedade democrática, "todos têm o direito de se manifestar", mas que "deve-se, contudo, arcar com as consequências das manifestações, quando é o caso, perante a justiça civil ou criminal, por ser instituições apenas civis".

Ataques em Aparecida

Um dos 'excessos' mais citados por bispos ligados à CNBB foram os ataques durante a Festa de Nossa Senhora Aparecida em outubro de 2022, espécie de 'embrião' que culminou nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, em Brasília.

Na época, católicos bolsonaristas criticaram e ameaçaram padres do Santuário Nacional de Aparecida por supostamente impedir uma oração do rosário que teria a presença de Bolsonaro, que acabou desistindo de participar.

Em vídeos que circularam na época, grupos de bolsonaristas agridem e xingam jornalistas da TV Aparecida, cercam apoiadores que vestiam vermelho dentro do templo religioso e ofendem o então arcebispo de Aparecida, dom Orlando Brandes.