Um estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) localizou a sala onde foi montada a cena que sustentou a versão oficial de suicídio do jornalista Vladimir Herzog durante a ditadura militar. A encenação foi feita em 1975 nas dependências do DOI-Codi, órgão de repressão que funcionava na região central da capital paulista.
A identificação do espaço encerra o enigma que persistia há mais de cinco décadas. A equipe, formada por historiadores, arqueólogos e arquitetos, analisou paredes, piso e teto do prédio, além de cruzar dados estruturais com fotografias e registros históricos. O som oco em uma das paredes indicou a existência de um espaço oculto, o que contribuiu para a localização exata do ambiente.
A imagem divulgada pelo regime mostrava Herzog pendurado pelo pescoço junto a uma grade, em cena apresentada como suicídio. Conforme apontam os pesquisadores, o jornalista foi torturado e morto no local após se apresentar para prestar depoimento em 25 de outubro de 1975.
Entre os elementos que confirmam a sala estão vestígios de piso de madeira posteriormente coberto, janela com blocos de vidro e grade, marcas compatíveis com a fixação da estrutura metálica, irregularidades na parede abaixo da janela, sinais da antiga caixa de ferrolho ao lado da porta e dobradiças originais preservadas. Outra fotografia, incluída no laudo da morte de um policial militar ocorrida no mesmo ano e ambiente, reforçou a conclusão ao apresentar detalhes coincidentes com o espaço analisado.
Durante as escavações, a equipe também encontrou marcas feitas por um preso para contar os dias de detenção, escondidas sob camadas de tinta e azulejo. O prédio passou por reformas na década de 1980 para abrigar o Instituto de Criminalística, o que modificou parte da estrutura original.
Relatos de ex-presos políticos auxiliaram na reconstituição do funcionamento do DOI-Codi. O local foi centro de detenções, torturas e mortes ao longo do regime militar.
Pesquisadores e o Instituto Vladimir Herzog defendem a criação de um espaço de memória no edifício, que é tombado, mas atualmente funciona como estacionamento de viaturas policiais. Desde 2021, o Ministério Público de São Paulo mantém ação para que o imóvel seja transformado em centro de memória. A Secretaria de Cultura informou que o estado já conta com o Memorial da Resistência voltado à preservação da história das violações de direitos humanos no período.
Com informações do Fantástico.