Sem palavras


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Termino o ano sem palavras. Dez meses sem palavras. Procuro outras palavras. Talvez disso se trate: procurar novos significantes e neles embutir outros significados, aqueles que se movem em mim, fortuitos, atônitos e invisíveis, dançantes em torno de uma fogueira. Fogueira de tudo: inclusive de amor e de esperança. Sigo sem palavras, ouvindo e vendo cenas que entopem de angústias, minha garganta e meu parcial ser. A nova notícia é que o Estado fechará em vermelho, depois de abrir para o vermelho do Natal. Guerra de vermelhos, vermelhos, vermelho sangue. Vermelho guerra, vermelho raiz, vermelho china, vermelho coração, vermelho amor. Sem palavras, o silêncio pode ser minha palavra. Talvez a mais clara e sensata palavra. Fiquei sem palavras quando senti e vi a tristeza da morte da alegria. Quando vi a mesmice no humano. Quando vi a cena evitável se repetir.

O que impede o mundo de respirar é a torpe falta de capacidade de mudar de lugar. Só isso. O desejo de ganhar mais um pouco. Lucrar mais um pouco. Ter uma pitada a mais de prazer. Quando o herói branco conseguir sair de seu lugar, quando o corpo sexuado deixar de significar toda a vida possível, quando as partes deixarem de ser fisgadas e coladas numa representação etiquetada e de etiquetas. Quando for possível compreender a não-fixidez do mundo, e aprimorarmos o que se pode falar, teremos novas palavras . Formas novas de sobreviver em prazer e em paz.

Isso, o sonho feito Clarice Lispector, com suas palavras no poema "O Sonho": Sonhe com aquilo que você quiser. Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida e nela só se tem uma chance de fazer aquilo que quer. Tenha felicidade bastante para fazê-la doce. Dificuldades para fazê-la forte. Tristeza para fazê-la humana. E esperança suficiente para fazê-la feliz. As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas. Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos. A felicidade aparece para aqueles que choram. Para aqueles que se machucam. Para aqueles que buscam e tentam sempre. E para aqueles que reconhecem a importância das pessoas que passam por suas vidas.

Chore suas frustrações e reconheça a imensa vida que surge em nossas vidas em nossos dias. Reconheçamos a necessidade planetária de mais justiça social. Com compromisso e com coragem te recebemos, também para isso, novo Ano Novo. Venha 2021!

MARGARETH ARILHA
é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo) da Unicamp

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