OPINIÃO

Padre Marcílio Gragefe


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No último dia 29 de outubro, o Senhor acolheu em Seu Reino o Seu filho amado, Padre Marcílio Gragefe.

Fomos contemporâneos na caminhada na Igreja. Víamo-nos em algumas reuniões e encontros e sempre admirei sua determinação, coerência e profundidade na fé.

Minha proximidade maior com ele se deu de 1986 a 1992, quando foi Pároco da Catedral NSD. Grande Padre na Palavra; grande Padre no acolhimento a todos e na percepção do que se passava com as pessoas, de acordo com suas reações, e que ele poderia, a partir de seu compromisso com o Evangelho, iluminar. A fidelidade à vocação, sempre clareia o caminho do próximo.

Vivi com ele, naquela época, uma experiência que me marcou e me sacode sempre nos momentos de constrangimento, pelo que pode pensar o próximo sobre determinadas situações ou pessoas.

A Pastoral da Mulher – Santa Maria Madalena dava seus primeiros passos, embora tenha começado em 12 de outubro de 1982, pelo inesquecível Dom Roberto Pinarello de Almeida. Foi um período em que a abordagem das mulheres era feita mais na praça e nas ruas do entorno e em bares, em seguida, ali mesmo, nos reuníamos para ler uma página do Evangelho. Essa foi nossa primeira experiência com elas de 82 a 85. No início de 86, a convite e com apoio de Dom Roberto, passamos a nos reunir em uma sala da Catedral. Mesmo assim, inúmeras vezes, pela desconfiança de algumas mulheres, o melhor era ficarmos no jardim.

Foi exatamente em 1986, a postura do Padre Marcílio que me comoveu e me fez enxergar melhor quem era o Deus que eu anunciava às mulheres.

Naquele tempo, além de dar aula, trabalhava no escritório do Dr. André Benassi na rua Barão de Jundiaí. Uma das mulheres, com quem eu conversava na praça, me procurou lá. Encontrava-se suja, como se tivesse repousado na calçada, descalça, com o cabelo desgrenhado, shorts rasgados não pela moda e um pouco alcoolizada. Disse-me que fora até ali para me contar que pretendia se suicidar. Abriu uma bolsa onde havia uma navalha e quatro caixas de remédio faixa preta.

Conversamos sobre não ser a melhor atitude diante dos problemas que enfrentava – conhecia bem a história dela -, testemunhei o quanto Deus a amava e citei alguns acontecimentos da Bíblia e rezamos juntas. Ela era aberta à oração. Depois de uma hora e meia de conversa, tivemos que nos despedir, pois eu iria a uma Missa de 7º. Dia na Catedral. Ela me olhou e me entregou a navalha e os remédios. Dei graças a Deus.

A Catedral naquela tarde estava arrumada para um casamento. Sentei-me no primeiro banco. Faltando alguns minutos para começar a Missa, Padre Marcílio preparado para entrar, ouviu quando ela, lá de trás, gritou: “Cadê a Cris?” Reconheci sua voz e fiquei constrangida pela aparência dela. Se eu não me levantasse, continuaria me chamando. Levantei-me. Ela atravessou a Igreja em minha direção.  Padre Marcílio aguardava pacientemente com olhar de misericórdia. Quando se posicionou no banco ao meu lado, eu lhe disse: “Isto é jeito de entrar na Igreja?” referindo-me à sua aparência. Ela retrucou de imediato: “Por quê? O Deus que você estava me falando dEle e que acaba de salvar a minha vida é como os homens da praça que só me enxergam para uso?”

Vendo-a acomodada, Padre Marcílio entrou, começou a Missa e fez uma homilia fortíssima sobre o julgamento, sobre a ovelha perdida que, se o pastor a trouxer nos ombros, reluta, escorre nele seu sangue, suas necessidades fisiológicas... Desmascarou-me e fez com que ela se sentisse nos ombros de Jesus.

Bendito seja Deus pela vida do Padre Marcílio, Sacerdote que se fez presença do Céu.

Maria Cristina Castilho de Andrade é professora e cronista

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