OPINIÃO

Dia dos Mortos


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Nesta próxima segunda-feira, iremos acordar sob o Dia de Finados, provavelmente um dia chuvoso, cinzento, em que nosso coração se dedicará àqueles que partiram. Apesar da minha certeza na vida eterna, ainda acordo diariamente com saudades das pessoas que não estão aqui. Meu pai, figura mestre nesta saudade sem fim. Minha tia Teresinha, tio Cid, minha mãe… todos que nos deixaram precocemente. Amigos jornalistas, de toda a vida, que foram embora antes dos 55 anos e que me fazem uma falta doída, danada, de gente que eu podia ligar a qualquer hora do dia para tirar minhas dúvidas sobre política, história, música e literatura. De uma amizade que não vejo mais nos dias atuais. Amigo de todo o sempre. 

Creio piamente na jornada espiritual. Ao visitar o Egito, entendi porque esse povo se dedicava à vida além-túmulo. Para os egípcios, esta vida aqui é um preparo para a vida eterna, a vida espiritual. Não fazia muito sentido acumular bens para si próprio, mas sim para a construção dos monumentos que simbolizaram a passagem para a vida eterna, buscando no agora uma vida ética e valorosa para render frutos ao alcançar a terra prometida.

No México e no Peru, senti como a morte pode ser só uma passagem. Como estes povos sabem reverenciar, às vezes com muita alegria, a memória dos que se foram. Ao contrário de nosotros, a memória deve ser alegre e festiva. E assim reverenciam com um Carnaval bem próprio o Día de los Muertos.    

A tradição cristã de rezar pelos mortos existe desde os primeiros séculos do cristianismo. Entretanto, foi no ano de 998, na França, que o abade Odilo de Cluny determinou que os mosteiros sob sua autoridade dedicassem o dia 2 de novembro à oração pelas almas dos falecidos. A escolha foi feita porque a data sucede o Dia de Todos os Santos, celebrado em 1º de novembro. A prática se espalhou gradualmente pelo mundo católico e passou a integrar seu calendário litúrgico.

Com a chegada dos portugueses, no século XVI, o catolicismo passou a influenciar profundamente o calendário religioso da colônia. Os rituais de homenagem aos mortos foram incorporados à vida das comunidades, com missas, orações, velas e visitas às sepulturas. Aprendi isso, desde pequena, com a viagem que fazíamos até Trabiju, uma pequena cidade fundada pelos meus antepassados, perto de Araraquara, onde minha avó Lourdes depositava flores para sua amada mãe, minha bisavó Maria. Antes, era tempo de preparar a sepultura, com limpeza e ordem para que os visitantes encontrassem tudo limpo. Eu era muito criança e não entendia essa reverência. Hoje, a entendo completamente. 

Ainda me sinto incompleta para lidar com a morte. Nas cerimônias de Powa, um ritual budista que fazemos logo após a morte de nossos queridos, eu senti - pela primeira vez - que meu pai, como aquele homem que se apresentava, não existia mais. Foi doloroso, mas foi tão libertador. Imaginei-o como uma alma livre de dores, doenças e apto a viver em uma nova jornada. Imagino o mundo espiritual de meu pai com mais liberdade, justiça e honra. E isso me dá muita força para seguir, com saudades, mas com fé. 

Não importa a qual religião pertencemos. A morte ainda é uma ruptura em nossos sentimentos e jornada. Quiçá um dia poderemos estar todos juntos, comemorando na mesa de nossos  guias espirituais, com aqueles que nos foram caros nesta vida e em outras. 

Neste Dia dos Mortos, reverenciamos nossos antepassados. Mas não se esqueçam de se dedicar, com amor, àqueles seres que estão ao nosso lado. Viver o amor agora é o que nos resta como humanidade.        

 

Ariadne Gattolini é jornalista e escritora. Pós-graduada em ESG pela FGV-SP, administração de serviços pela FMABC e periodismo digital pela TecMonterrey, México. É editora-chefe do Grupo JJ     

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