RESULTADO

Direita vence nas sete cidades da RMJ e Tarcísio se destaca

Por Diná de Melo | Jornal de Jundiaí
| Tempo de leitura: 5 min

Os resultados do primeiro turno das eleições de 2026 mostram uma Região Metropolitana de Jundiaí (RMJ) alinhada, de forma expressiva, ao campo da direita. Nas sete cidades consideradas no levantamento, Flávio Bolsonaro (PL) venceu Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na disputa presidencial, enquanto Tarcísio de Freitas (Republicanos) superou Fernando Haddad (PT) na corrida pelo governo de São Paulo. Mas os números também revelam uma diferença importante: o governador teve desempenho superior ao candidato presidencial em todos os municípios.

Somados os votos de Jundiaí, Várzea Paulista, Campo Limpo Paulista, Itupeva, Cabreúva, Louveira e Jarinu, Flávio Bolsonaro recebeu 271.785 votos, contra 146.793 de Lula. A diferença foi de 124.992 votos. Considerados apenas os dois candidatos, Flávio concentrou aproximadamente 65% dos votos, contra 35% de Lula.

Na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes, a vantagem foi ainda maior. Tarcísio alcançou 303.933 votos na RMJ, enquanto Haddad teve 127.997. A diferença chegou a 175.936 votos. Tarcísio, portanto, recebeu 32.148 votos a mais que Flávio, enquanto Haddad ficou 18.796 votos abaixo da votação de Lula.

O resultado se repetiu nas sete cidades. Em Jundiaí, maior colégio eleitoral da região, Flávio teve 145.880 votos, contra 76.564 de Lula. Para governador, Tarcísio chegou a 164.622, enquanto Haddad recebeu 68.661. A diferença entre os dois candidatos ao governo foi de 95.961 votos.

Em Várzea Paulista, Flávio somou 35.108 votos, contra 21.261 de Lula. Tarcísio teve 39.191, diante de 18.076 de Haddad. Em Campo Limpo Paulista, foram 23.507 votos para Flávio e 15.625 para Lula, enquanto Tarcísio alcançou 25.924 e Haddad, 14.044.

Itupeva também apresentou uma diferença expressiva. Flávio recebeu 21.462 votos, praticamente o dobro dos 10.639 de Lula. Para governador, Tarcísio teve 23.924 votos, contra 8.598 de Haddad. Em Cabreúva, Flávio ficou com 16.272 votos e Lula, 8.047. Tarcísio teve 17.330, enquanto Haddad somou 6.727.

Em Louveira, a disputa presidencial terminou com 18.102 votos para Flávio e 8.855 para Lula. Tarcísio teve 20.163 e Haddad, 7.280. Já em Jarinu, Flávio recebeu 11.454 votos, contra 5.802 de Lula. Na eleição para governador, Tarcísio chegou a 12.779 votos, enquanto Haddad teve 4.620.

Voto não é necessariamente bolsonarista

Para o cientista político Samuel Vidilli, a uniformidade do resultado não deve ser interpretada automaticamente como uma consolidação do bolsonarismo na região. Segundo ele, os números apontam principalmente para a resistência ao PT e uma menor disposição do eleitorado regional em votar em Lula.

“A vantagem é ampla e uniforme. Considerando só os dois candidatos, Flávio fez cerca de 65% contra 35% de Lula na região, sem nenhuma cidade fora do padrão. Mas eu particularmente não leria isso como adesão ao bolsonarismo”, avalia.

Na análise de Vidili, o comportamento eleitoral observado nas últimas eleições indica que parte desse eleitorado se define mais pela rejeição ao PT do que por uma adesão ideológica à direita. “É um voto que se define mais pelo ‘não’ do que pelo ‘sim’. Por isso, para mim, trata-se de uma consolidação de um eleitorado resistente ao PT, e não exatamente de uma consolidação de uma direita ideológica.”

O desempenho de Tarcísio reforça essa leitura. O governador teve votação superior à de Flávio em todas as cidades e, no conjunto da RMJ, abriu uma vantagem 50.944 votos maior que a obtida pelo candidato presidencial sobre Lula. Para Vidili, o resultado revela que Tarcísio possui força eleitoral própria. “Ele fez cerca de 70% contra 30% de Haddad e teve 32 mil votos a mais que Flávio na região, enquanto Haddad teve quase 19 mil a menos que Lula”, afirma.

A diferença, segundo o cientista político, indica que Tarcísio alcança eleitores que não necessariamente acompanham o bolsonarismo. “Isso sugere um voto ligado à avaliação da gestão e a um perfil visto como menos polarizador, e não apenas ao alinhamento com os Bolsonaros.”

Voto dividido pode decidir segundo turno

Outro dado considerado relevante é a diferença entre as votações dos candidatos de direita. Embora Flávio e Tarcísio tenham vencido nas sete cidades, o governador recebeu 32.148 votos a mais que o candidato presidencial. Para Vidili, isso demonstra que parte do eleitorado separou as duas escolhas. “Não é um voto totalmente casado. A diferença entre os dois mostra que uma fatia relevante do eleitorado separou as escolhas: votou em Tarcísio para governador, mas não em Flávio para presidente.”

Esse grupo pode ganhar importância no segundo turno, marcado para 25 de outubro. O desafio de Flávio, segundo a análise, é manter a ampla vantagem regional sem considerar como automática a transferência dos votos de Tarcísio. “Voto não é patrimônio de candidato. E os números mostram justamente isso: os cerca de 32 mil eleitores que votaram em Tarcísio e não em Flávio fizeram uma escolha deliberada de separar as duas disputas”, afirma Vidili.

Na avaliação dele, o apoio de Tarcísio pode ajudar Flávio, mas não significa transferência integral de votos. “É exatamente esse grupo, mais moderado, que decidirá o tamanho da vantagem de Flávio na região, e ele não segue indicação de forma automática.”

Para Lula, a tarefa é ainda mais difícil. O petista precisaria reduzir uma diferença de quase 125 mil votos na RMJ em um cenário no qual perdeu em todos os municípios. Vidili avalia que o objetivo mais realista do PT não seria necessariamente virar o resultado, mas diminuir a margem. “O caminho passaria por diminuir resistências: dialogar com a classe média, com o setor produtivo e com temas concretos da região, como indústria, logística, mobilidade e segurança”, diz.

O cientista político identifica como eleitores potencialmente mais acessíveis justamente aqueles que votaram em Tarcísio, mas não em Flávio, além dos que escolheram branco, nulo ou não compareceram às urnas.

Para ele, entretanto, o prazo curto e a estabilidade do comportamento eleitoral regional tornam difícil uma mudança significativa. “Em três semanas, porém, mudar uma tendência tão consolidada, há anos, especialmente aqui em Jundiaí, é difícil.” Na avaliação de Vidili, o PT deveria concentrar esforços nos grandes centros urbanos e entre os eleitores que se abstiveram.

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