Durante décadas, o Brasil foi chamado de país do futuro. A frase sobreviveria melhor se esse futuro não insistisse em permanecer sempre alguns anos adiante. Temos território, recursos naturais, uma economia diversificada, capacidade empresarial, produção agrícola competitiva, uma matriz energética privilegiada e um mercado consumidor de dimensões continentais. Falta, porém, transformar potencial em projeto de país. E projeto exige algo que ainda nos custa muito: gestão, continuidade, transparência, educação e responsabilidade com as próximas gerações.
Comecemos pela escola. O Pisa 2025, divulgado pela OCDE neste mês, traz uma constatação que exige honestidade na leitura dos números. O Brasil avançou quando comparado a 2006 e aparece entre os países que mais melhoraram seu desempenho nesse período. Mas continuamos partindo de uma base muito baixa e, na última década, praticamente paramos de avançar. Em 2025, os estudantes brasileiros alcançaram 408 pontos em Leitura, 377 em Matemática e 409 em Ciências. Apenas 28% dos jovens de 15 anos atingiram ao menos o nível básico de proficiência em Matemática; em Leitura, foram 49% e, em Ciências, 48%. Na média da OCDE, esses percentuais chegam a 65%, 69% e 74%, respectivamente. A própria organização aponta que nosso desempenho ficou praticamente no mesmo patamar de 2022 e próximo dos resultados registrados desde 2015.
Não estamos falando apenas de notas escolares. Estamos falando da capacidade de compreender problemas, interpretar informações, trabalhar com tecnologia, inovar e produzir. E a deficiência educacional continua na vida adulta. O Indicador de Alfabetismo Funcional, o Inaf, mostrou em sua edição de 2024 que 29% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais, exatamente o mesmo patamar de 2018. É difícil imaginar uma economia intensiva em conhecimento quando quase três em cada dez adultos enfrentam limitações para interpretar textos e utilizar informações e cálculos no cotidiano.
A consequência aparece na produtividade. O Brasil trabalha, empreende, abre empresas, fecha empresas, enfrenta burocracia e impostos, mas produz pouco avanço estrutural. Dados do Observatório da Produtividade da FGV IBRE mostram que a produtividade agregada do trabalho cresceu apenas 0,4% em 2025. Sem ganho consistente de produtividade, os salários encontram limites, as empresas perdem competitividade e o crescimento passa a depender muito mais do aumento do consumo, do crédito ou da quantidade de pessoas trabalhando do que da capacidade de produzir melhor.
O retrato internacional também expõe nossas fragilidades. No Ranking Mundial de Competitividade do IMD de 2026, o Brasil ficou na 65ª posição entre 70 economias avaliadas. O estudo considera desempenho econômico, eficiência governamental, eficiência empresarial e infraestrutura. Ou seja, não basta termos grandes empresas e setores extremamente eficientes. O ambiente em torno delas continua caro, burocrático, inseguro e pouco previsível.
Há ainda a conta pública. A dívida bruta brasileira já supera 80% do PIB e os juros consumidos pelo setor público chegam à casa do trilhão de reais em períodos de 12 meses. Ao mesmo tempo, convivemos com uma das maiores taxas básicas de juros entre as grandes economias. Juros elevados encarecem investimentos, financiamento, consumo e a própria dívida pública. E não surgem por geração espontânea: refletem inflação, expectativas, risco e a confiança que o país consegue — ou não — transmitir sobre sua capacidade de organizar as próprias contas.
Mas talvez nosso problema seja ainda mais elementar. O Brasil se acostumou a administrar urgências em vez de construir permanências. Trocam-se governos, programas, prioridades e discursos, enquanto educação básica, produtividade, infraestrutura, equilíbrio fiscal e eficiência do Estado deveriam atravessar mandatos. Falta gestão baseada em resultado. Falta avaliar o que funciona, interromper o que não funciona e explicar claramente à sociedade onde o dinheiro público foi aplicado e qual retorno produziu.
E falta transparência de verdade. Publicar milhares de números em portais oficiais não significa necessariamente tornar o Estado transparente. Transparência pressupõe permitir que o cidadão saiba quanto se arrecadou, quanto foi gasto, por que determinada escolha foi feita e, principalmente, o que foi entregue. Um orçamento público não deveria ser medido apenas pela capacidade de gastar os recursos previstos, mas pelos resultados que esse gasto produziu para quem paga a conta.
O Brasil não está condenado ao atraso. Tampouco está destinado ao sucesso apenas porque possui riquezas extraordinárias. Países não têm futuro garantido; eles o constroem. E talvez esteja aí o equívoco de uma expressão que atravessou gerações: esperar que o futuro venha até nós. O nosso começará a chegar quando deixarmos de comemorar potencial e passarmos a cobrar resultado, continuidade e eficiência. O país do futuro precisa, antes de tudo, aprender a entregar no presente. Por isso, vote com consciência. Com estes políticos, a gente só vai andar para trás.
Ariadne Gattolini é jornalista e escritora. Pós-graduada em ESG pela FGV-SP, administração de serviços pela FMABC e periodismo digital pela TecMonterrey, México. É editora-chefe do Grupo JJ