O menino tem quase sete anos, mas já reage como se fosse um mocinho em suas preocupações. Menino da periferia onde as casas são inadequadas e a violência transparece em diversos acontecimentos. Brinca, mas com a fisionomia demonstrando que não se perde de suas inquietações. Tenho carinho imenso por ele. É de olhar macio e abraço de verdade.
Imagino que já tenha sofrido alguns preconceitos como os que cita Felipe Nunes, que é PhD em ciência política e mestre em estatística pela Universidade da Califórnia em Los Angeles autor de “Brasil no Espelho – Um guia para entender o Brasil e os Brasileiros.”
Em seu livro, são colocadas as formas de discriminação mais comuns: pela raça, sotaque e aparência, além de por ser mulher. 42% das pessoas entrevistadas disseram já terem sido discriminadas em alguma ocasião.
O menino é um pouco mais gordinho que os demais e isso se transforma em motivo de bullying nos ambientes através de outras crianças que possuem um viés de perversidade, criadas como se fossem melhores do que as demais. E é muito desagradável ouvir de alguém críticas a respeito de sua aparência. Recordo-me agora de um fato acontecido com a nossa mãe. Estávamos na Catedral NSD, à espera da Missa, quando uma antiga conhecida, de físico esguio, se aproximou dela com surpresa e lhe disse: “Nossa, Irene, como você engordou!” De imediato, recebeu como resposta: “É que na minha casa, diferente da sua, tem comida”. E ainda acrescentou que mulher idosa magra ficava com pelancas dependuradas. Se pudesse, eu teria entrado debaixo do banco. Aliás, ela detestava que se comentasse sobre esse ou aquele aspecto das pessoas. Via sempre a beleza de cada uma.
Voltando ao menino. Creio que ele se preocupe com a violência, o crime, o tráfico de drogas. Estão muito próximos de seu dia a dia. Não é fácil. Sabe dos riscos, porém não possui idade e soluções para evitá-los. Teme a polícia e os transgressores da lei. Teme que tirem alguém de seu convívio para colocar atrás das grades. Tudo isso é “conversa de gente grande” comigo.
Sua ansiedade agora é pela irmãzinha que vem. Preocupa-se com a saúde da mãe e também com o que será necessário providenciar para a bebê. As coisas não estão fáceis por lá.
Semana passada, veio até mim e perguntou se eu poderia vir com ele para me mostrar umas coisas. Levou-me de mãos dadas e me derreti toda. Viu que, em uma mesa, havia uma banheirinha de bebê e um pequeno colchão. O Carmelo São José que doou. Perguntou-me se poderia lhe dar, pois a mãe não possuía. Emocionei-me. Em meio a tantos brinquedos e cores, enxergou o que seria necessário para a irmãzinha e a mãe.
Menino mocinho, que não se desliga das necessidades da casa. Possui coração para enxergar as necessidades do mundo em que habitamos.
Fez-me lembrar o poema “Menino Azul” de Cecília Meireles:
O menino quer um burrinho/ para passear./ Um burrinho manso,/ que não corra nem pule,/mas que saiba conversar.
O menino quer um burrinho/ que saiba dizer/ o nome dos rios,/ das montanhas, das flores,/ — de tudo o que aparecer.
O menino quer um burrinho/ que saiba inventar histórias bonitas/ com pessoas e bichos/ e com barquinhos no mar./
E os dois sairão pelo mundo/ que é como um jardim/ apenas mais largo
e talvez mais comprido/ e que não tenha fim.
(Quem souber de um burrinho desses,/ pode escrever/ para a Ruas das Casas,/ Número das Portas,/ ao Menino Azul que não sabe ler.)”
Não deixe que o mundo lhe tire o azul, menino querido!
Maria Cristina Castilho de Andrade é professora e cronista