OPINIÃO

Por mais Carméns Lúcias


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Há quase cem anos, mulheres brasileiras precisavam lutar por algo que hoje parece elementar: o direito de escolher seus representantes e de serem escolhidas. Não estamos falando de um passado remoto. Nos anos 1920, enquanto o Brasil discutia modernização, industrialização e novos rumos para a República, metade da população ainda era mantida formalmente distante das decisões políticas.

Foi nesse ambiente que surgiram mulheres como Bertha Lutz, uma das principais lideranças do movimento sufragista brasileiro. Em 1922, ela fundou a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, que transformou o direito ao voto em uma batalha organizada. Mas houve outras. Celina Guimarães Viana, professora em Mossoró, tornou-se, em 1927, a primeira mulher brasileira a obter o alistamento eleitoral, depois que o Rio Grande do Norte aprovou uma legislação permitindo votar e ser votado sem distinção de sexo.

Pouco depois veio Alzira Soriano. Em 1928, aos 32 anos, foi eleita prefeita de Lajes, no Rio Grande do Norte, com 60% dos votos válidos. Tornou-se a primeira mulher a comandar uma prefeitura no Brasil e na América Latina. Sua eleição aconteceu quatro anos antes de o Código Eleitoral de 1932 reconhecer nacionalmente às mulheres o direito de votar e serem votadas.

Essas histórias deveriam causar algum desconforto. Porque revelam o tamanho da resistência que precisou ser vencida apenas para que uma mulher pudesse entrar em uma urna, registrar uma candidatura ou ocupar uma cadeira que sempre parecera naturalmente destinada aos homens.

O direito veio. A igualdade real, não.

Em 2026, mulheres representam aproximadamente 53% do eleitorado brasileiro, mais de 82 milhões de eleitoras. Entretanto, ocupam apenas 17,7% das cadeiras da Câmara dos Deputados e 12,3% do Senado. Nas eleições municipais de 2024, somente 733 dos 5.569 municípios brasileiros elegeram uma prefeita.

É difícil olhar para essa distância entre maioria eleitoral e minoria no poder sem falar sobre as barreiras que permanecem. Algumas são objetivas: estrutura partidária, financiamento, formação das chapas, redes políticas construídas historicamente por homens. Outras são culturais e talvez ainda mais difíceis de romper.

A misoginia política nem sempre chega anunciada como misoginia. Ela aparece quando a vida pessoal de uma mulher recebe uma atenção que dificilmente seria dedicada à de um homem; quando firmeza é interpretada como arrogância, autoridade como agressividade e ambição como defeito. Aparece quando aparência, idade, maternidade, casamento, roupa ou tom de voz tornam-se instrumentos para diminuir uma mulher que ocupa ou pretende ocupar um espaço público.

E existe uma fronteira ainda mais grave: a violência política de gênero. Em 2021, o Brasil precisou criar uma lei específica, a Lei 14.192, para prevenir e combater atos destinados a impedir, dificultar ou restringir os direitos políticos das mulheres. O Monitor de Violência Política de Gênero e Raça identificou 62 ações penais eleitorais envolvendo 69 vítimas entre 2021 e 2025.

Talvez este seja o ponto que mais impressione. As pioneiras da década de 1920 enfrentaram um sistema que dizia abertamente que política não era lugar de mulher. Quase um século depois, ninguém pode sustentar isso juridicamente. Mas a resistência não desapareceu por decreto. Ela se sofisticou.

Bertha, Celina e Alzira ajudaram a abrir uma porta que durante séculos esteve fechada. Outras milhares atravessaram depois delas. A história mostra, porém, que conquistar o direito de entrar não significa encontrar o mesmo caminho, as mesmas condições e o mesmo tratamento depois de atravessar a porta.

O Brasil levou décadas para reconhecer que mulheres eram cidadãs políticas. Talvez o desafio deste século seja deixar de considerá-las visitantes nos espaços de poder. Por mais Carmén Lúcias na Magistratura, Lucienes, na Promotoria, e tantas outras como deputadas e vereadoras. Carmén sempre terá meu voto. Os homens podem não prestar - e não prestam mesmo. Carmén, ao contrário, pede desculpas ao povo brasileiro, que paga seus salários. 

 

 

Ariadne Gattolini é jornalista e escritora. Pós-graduada em ESG pela FGV-SP, administração de serviços pela FMABC e periodismo digital pela TecMonterrey, México. É editora-chefe do Grupo JJ    

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