OPINIÃO

Não foi bem assim


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Por vezes no meu trabalho ou nos meus estudos, tomo contato com histórias inusitadas e mesmo bizarras, mas entre todas elas há um ponto em comum: sempre observo o movimento da vida criando seus caminhos, mesmo através de histórias duras e tristes.

Neste final de semana, estudando sobre a propriedade cerebral da memória, eu me deparei com um caso destes: trata-se da história da jovem Elizabeth, na época com 14 anos, tendo que enfrentar a infelicidade de perder a mãe em um acidente doméstico, um afogamento na piscina da própria casa. Podem imaginar como foi difícil para ela e para a família continuar a vida depois de uma tragédia destas.

Depois de alguns anos, um tio que também sentiu muito a perda, comentou em uma conversa casual como deve ter sido difícil para ela encontrar o corpo da mãe e avisar a família do ocorrido. Ela refere que o comentário lhe gerou várias lembranças, reavivando imagens e sentimentos de revolta e tristeza da época.

Contudo, dias depois algo intrigante aconteceu e lhe chamou a atenção: o irmão de Elizabeth ficou sabendo do conteúdo da conversa e a avisou que o tio havia se enganado em algo muito importante: Elizabeth não havia encontrado o corpo; fora a tia que o percebeu e tomou as providências antes que as crianças chegassem, pensando em preservá-las, naturalmente.

“- ..., mas, então, como eu me lembrei de imagens?” – perguntou-se Elizabeth.

Esta foi a pergunta que levou a jovem Elisabeth Loftus a se tornar uma das maiores neurocientistas aplicadas no estudo da memória e, em particular, de um fenômeno chamado “falsa memória”. Apesar de não ter vivido o evento do acidente com a mãe da maneira que o tio a induzira pensar, tinha a sensação de tê-lo visto, com imagens que lhe pareciam verdadeiras e plausíveis. Como era possível?

Vejam, a falsa memória não é uma mentira nem uma simulação; o nosso cérebro é uma ferramenta de sobrevivência e para que funcione bem, ele tem que reconhecer e antecipar perigos antes que elas ocorram. Por conta disso, o cérebro se incomoda muito com “lacunas” de conhecimento que não estão preenchidas.

Nossa memória, por sua vez, não funciona como um vídeo que é gravado na nossa mente. As informações são associadas com emoções, sons, cores e cheiros, cada qual armazenado em um lugar do cérebro. Quando evocamos uma memória, ativamos este conjunto de elementos armazenados que se combinam para “reconstruir” a lembrança tal como se emendasse uma colcha de retalhos... o resultado quase nunca é igual ao “original”.

Deste modo, Elisabeth descobriu que o estado de espírito, as crenças, os estímulos do ambiente e mesmo a forma de como perguntamos para a pessoa sobre a lembrança podem influenciar a memória criando elementos não factuais que existem só para cobrir as lacunas daquilo que não sabemos.

Com o seus estudos, Elisabeth fundou o “Innocence Project”, uma organização que usa a neurociência para analisar testemunhos em casos criminais, verificando a possibilidade de viés por conta de “falsas memórias” produzidas por vários fatores.

Até hoje, o instituto ajudou 337 pessoas que foram condenadas injustamente, baseado unicamente em testemunhos oculares com viés de falsa memória em 75% destes casos.

 

Dr. Alexandre Martin é médico, especialista em acupuntura e com formação em medicina chinesa, osteopatia e inteligência sistêmica

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