OPINIÃO

Quem não se cuidar...


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A pergunta não é mais “será que vai acontecer?”. Agora é “quando vai acontecer?”.

Falo dos fenômenos extremos, provocados por nós mesmos, com a insensatez com que cuidamos do planeta. Continuamos a desmatar, a poluir, a expelir gases venenosos, causadores do efeito estufa. A natureza se cansou. Agora está com a palavra e com a resposta ao nosso desatino.

O mais estranho é que ainda existe negacionismo. Pessoas que se preocupam com aquilo que pouco significa, sem se interessar pelo fundamental. Todo o planeta sofre as consequências da insensibilidade do bicho racional. E temos exemplos muito próximos a nós.

Para os paulistas, como não se lembrar do Carnaval de 2023, quando boa parte de São Sebastião desmoronou?

Aliás, todo o litoral brasileiro está situado em zona de risco. Pode-se ignorar que mais de vinte nações insulares estejam prestes a desaparecer. Mas é possível também deixar de se preocupar com Santos, Guarujá, Ubatuba, Caraguá, Praia Grande, Peruíbe, Itanhaém? Isso só para focar em solo bandeirante. E as inúmeras outras cidades praianas que se estendem por quase dez mil quilômetros de costa atlântica?

Quem passou pela catástrofe tem mais juízo. É o que acontece em São Sebastião, onde o Instituto Conservação Costeira promoveu um Protocolo Escolar de auto-proteção climática. Alunos de oito escolas públicas participam do projeto “Escolas Seguras: educando para o risco”. O projeto promove educação climática e ambiental em estabelecimentos públicos de ensino e capacita estudantes e professores a prevenir riscos e a se proteger em situações de desastres.

É um desdobramento do Restaura Litoral Norte, que utiliza drones, biocápsulas e sementes nativas para recuperar áreas degradadas por deslizamentos e promover a restauração socioambiental do território.

O Instituto Conservação Costeira é uma organização socioambiental devotada à conservação da Mata Atlântica e à promoção da qualidade de vida na Costa Sul de São Sebastião. Com esse intuito, desenvolve projetos de restauração ecológica, educação ambiental e climática e articulação em rede, para fortalecer a resiliência das comunidades e o cuidado com os territórios costeiros.

Visitei São Sebastião e pude constatar in loco o que o ICC faz, para aquela cidade singular. Tem 102 núcleos de crescimento desordenado, áreas que surgiram e foram crescendo sem planejamento urbano adequado. Sem infraestrutura e em locais de risco, tais como encostas e margens de rio. E mais de 30% da população de São Sebastião vive em condição de alta vulnerabilidade socioambiental. Esse conceito combina fatores sociais, econômicos e ambientais, mostrando que muitas famílias continuam a residir em áreas de risco, não por escolha, mas por falta de alternativas habitacionais seguras.

Se a situação de São Sebastião é preocupante, o que dizer de bairros, em nossa cidade, que é a segunda melhor para se viver no Estado de São Paulo, que também ostentam condições arriscadas de sobrevivência. Jardim São Camilo é um deles. Moradias num declive que pode desmoronar, diante de intempéries cada vez mais intensas e mais frequentes. E posso garantir que não é a única região de risco existente nesta poderosa urbe.

Por que não copiar o ICC – Instituto de Conservação Costeira e fazer um trabalho que as crianças de lá realizam com alegria e competência? Eles cadastraram todas as pessoas, fizeram um grande mapa reproduzindo a ocupação e têm controle do que se faz ali para treinar os moradores quando vierem as tempestades, trombas d’água, vendavais, enchentes e inundações. Tudo perfeitamente factível, desde que haja vontade. É o que se pode e se deve fazer. Quem não se cuidar, pode deixar esta esfera muito antes do que seria previsível.

 

*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, Docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

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